Elaine Cromie/The New York Times
Elaine Cromie/The New York Times

Por que a Bottega resolveu fazer um desfile em Detroit, nos Estados Unidos?

Graças ao designer Daniel Lee, a marca de luxo italiana desembarcou na maior cidade do Estado do Michigan

Vanessa Friedman, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 05h00

DETROIT – Por volta de 2015, quando era um designer totalmente desconhecido trabalhando nos bastidores da Céline, Daniel Lee foi à Jamaica de férias, mas acabou, de alguma forma, passando por Detroit no caminho.

Ele não sabia muito sobre a cidade, exceto o óbvio: sua história com os carros (que adorava) e o fato de ser o berço da música techno (que também adorava desde criança). Lee ficou "obcecado" e só pensou nela desde então.

Seis anos mais tarde, o agora celebrado diretor de criação da Bottega Veneta voltou para Detroit, levando a reboque parte do mundo da moda, algumas celebridades e a atenção das pessoas que o seguem nas redes sociais. A maioria admite ter ficado confusa com o fato de ele estar ali a pedido de uma marca de luxo italiana.

Mas de que adianta ter poder se você não pode usá-lo uma ou duas vezes para ensinar alguma coisa? A ocasião foi o desfile Bottega Salon 03: o terceiro desfile de moda de gênero duplo e sem focar em uma estação, produzido fora da programação normal da moda prêt-à-porter e, geralmente, em uma cidade que não recebe desfiles. (O nº 01 foi em Londres; o 02, em Berlim.)

O evento também marcou a abertura de uma loja pop-up da Bottega em um antigo prédio do corpo de bombeiros, que vende não apenas os itens da Bottega, mas também móveis e cerâmica de artistas locais, discos de vinil da Underground Music Academy e algumas publicações da Biblioteca de Arte Negra, mesmo que pareça um pouco incongruente cair de paraquedas com bugigangas, apetrechos e bolsas que custam milhares de dólares em uma cidade que tem enfrentado tanta dificuldade financeira.

Segundo Lee, que ficou em meio à multidão ao fim do desfile praticamente pulando na ponta dos pés de tanta empolgação, a ideia era iluminar não apenas o próprio trabalho, mas também "a grandeza desta cidade". Ele queria superar a habitual história de "inspiração" de uma coleção como qualquer outra; queria não apenas ressaltar o nome de um artista, lugar ou filme qualquer que plantou a semente da coleção na cabeça do designer, mas dar o devido crédito ao lugar certo. Ele queria levar o desfile até a fonte, e não simplesmente se apropriar dela.

O designer comentou que esperava criar "um momento americano", forçando as pessoas a ver além da miopia causada por Nova York, Paris ou Milão e aprender algo novo. Não apenas sobre uma cidade que talvez nunca tenham visitado, mas sobre o lugar de onde vem a criatividade no sentido mais amplo e pessoal – e o tecido muitas vezes inesperado que conecta tudo.

De vez em quando, a moda consegue fazer isso: juntar culturas e ideias de maneira repentina e reveladora, por meio de formas aparentemente inócuas. No fim das contas, esse é o objetivo. Mesmo que possa parecer grande demais a distância desde Milão até o Michigan. Ou, mais especificamente, até o Michigan Building Theatre, o ornamentado palácio do cinema que virou um estacionamento e onde o desfile foi realizado em meio às desgastadas camadas do passado outrora glamoroso do edifício.

Entre os convidados estavam, além de Mary J. Blige e Lil' Kim e Kehlani, figuras locais como JJ e Anthony Curis, fundadores do Library Street Collective, galeria que está no centro da cena artística local, e a designer Tracy Reese, que há alguns anos abandonou a New York Fashion Week para abrir uma marca em Detroit. A maioria dos modelos era dali mesmo e formava um conjunto completo e realista de diferentes formas e tamanhos.

A divindade da música techno Moodymann criou a trilha sonora (e também foi a atração principal do after-party), e Carl Craig, o DJ e outra das figuras seminais na evolução do gênero de Detroit, projetou uma instalação de som e luz envolvente para o coquetel que foi realizado no subsolo de concreto depois do desfile.

Já a própria coleção acabou sendo, talvez, a variável mais evocativa e potencialmente ressonante entre todas as outras. Lee abusou dos clichês do vestuário esportivo americano – tênis, parkas, jeans, agasalhos de atletismo, vestidos para jogar tênis – e os reformulou, ajustando os detalhes até que o conjunto brilhasse.

Ele teceu metal, literalmente, em lona e algodão, de modo que as golas e os ombros ficaram amassados como uma escultura, transformando o simples ato de puxar uma manga em um fofo e gracioso fantasma da alta-costura. Tricotou ternos justos a partir de um tecido xadrez quadriculado para se assemelhar ao padrão entrelaçado das bolsas da marca e emborrachou fios (e miçangas) para que a superfície de um pequeno vestido de tricô tivesse a textura de uma estrada de cascalho. Cabrestos cheios de lantejoulas pareciam cobertos por pequenos faróis.

Também encheu pequenos vestidos polo superjustos de cristais e embrulhou toalhas técnicas em colunas. Alguns tecidos tinham o brilho da tinta de esmalte. Havia muito verde brilhante da Bottega, com toques de laranja e da cor do licor Chartreuse, tudo com o fascínio de uma máquina de fazer sonhar de alta qualidade.

Se a mensagem não foi totalmente consistente – a Bottega ainda não tem uma loja permanente na cidade; Lourdes Leon desfilou ao lado de todos aqueles rostos novos; um tour pré-desfile pelos pontos do design na cidade incluiu uma famosa casa modernista... no subúrbio chique de Grosse Pointe –, pelo menos havia ambição.

E fazia sentido ver como um garoto que veio de uma área industrial no norte da Inglaterra e fez renascer uma marca de luxo italiana poderia legitimamente encontrar, em uma cidade do Centro-Oeste americano que também está renascendo, um laço que os unisse.

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