via The New York Times
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Eles usavam roupas chiques antes da quarentena. E agora?

As compras de moda inocentemente feitas antes da disseminação do coronavírus são marcos de atividades canceladas

Linda Dyett, The New York Times - Life/Style

01 de agosto de 2020 | 05h00

Semanas antes do começo da pandemia, Anthony Longhi, de 28 anos, que se autodeclara viciado em compras e é assessor de vendas da Celine em Paris, viu-se perdidamente apaixonado por uma calça Yves Saint Laurent de couro preta. O preço de quatro dígitos parecia um tanto exagerado e ele hesitou em comprá-la. Aí veio a notícia de que a França estava prestes a entrar em quarentena. Era o que faltava.

Longhi correu até a butique da YSL na Avenue Montaigne e comprou a calça. Ela ficou esperando dentro do armário por mais de dois meses. No dia em que as restrições foram flexibilizadas, ele saiu às ruas de calça de couro, camiseta branca básica da Zara, jaqueta de motoqueiro da Celine, colar com seu pingente de batismo e sapatos Perfecto. Infelizmente, o calor estava forte e ele começou a suar dentro da calça. Com medo de que ela encolhesse, Longhi voltou correndo para casa e as tirou. Agora a calça está aguardando ansiosamente pelas temperaturas mais baixas do outono europeu.

A história de Longhi é uma história de privilégio, ele reconhece. Mas também traz uma mensagem positiva: ele se recusou a deixar o vírus dominar sua vida. E não se arrepende de nada, até planeja retomar suas compras de moda assim que possível. Compras extravagantes e feitas na maior inocência entre fevereiro e março, antes que se conhecesse toda a extensão da pandemia de coronavírus, tornaram-se símbolos de uma época em que a liberdade recuava a passos largos.

Algumas pessoas até guardaram seus recibos de compra, como se fossem documentos históricos. Muitos desses itens agora estão definhando nos armários. Outros são bem utilizados. Avaliando a impactante colaboração de Dries Van Noten com Christian Lacroix na primavera de 2020 como “engenhosa” e “operística”, e prevendo que essa colaboração sinalizaria um retorno à alta costura, Li Edelkoort, 69 anos, especialista em moda de Nova York, escolheu um casaco de jacquard floral vermelho e preto dessa coleção para usar durante uma turnê mundial de primavera.

O casaco ficou um pouco gasto, “voluntariamente surrado”, como ela disse, na Cidade do Cabo, onde ela ficou presa desde meados de fevereiro. No entanto, a peça se tornou um emblema de sua identidade, estrelando sua foto publicitária – “uma foto ótima que acabou sendo bem útil para a avalanche de solicitações de entrevistas que recebi nos últimos meses”, disse Edelkoort. Ultimamente, ela vem aparecendo de casaco “aos domingos, para brunches de corona privados”.

Numa loja local de roupas antigas que transforma tecidos em máscaras faciais, ela até encontrou uma vermelha para combinar. De Nova York, dias antes da explosão de notícias sobre o coronavírus, a diva de balada e artista performática transgênero Amanda Lepore, de 52 anos, encomendou um conjunto personalizado: vestido combinando com o tapa-seio, cinta-liga, luvas e fio dental da Garo Sparo, a casa de design conhecida por seus espartilhos.

O vestido ainda está por terminar, mas os acessórios chegaram com tempo de sobra, levando Lepore a pegar sua pistola de cola e “cobrir tudo de pedra”, como ela disse, com cristais Swarovski pretos (sem dúvida, um dos projetos de costura caseiros mais glamourosos da quarentena).

Ela usaria o look para comemorar a decisão histórica da Suprema Corte de 15 de junho de proteger os direitos dos trabalhadores LGBTQ, mas teve de se contentar com o conjunto de glitter verde da Garo Sparo que ela já tinha disponível para fazer um vídeo cantando Get Happy, de Harold Arlen.

No reino da vida mais cotidiana, os macacões já eram um sucesso pré-pandêmico. Com sua informalidade simples, agora rivalizam com os moletons pelo título de uniforme semioficial de quarentena. Julie Stahl, 54 anos, chefe da Blonde & Co., uma agência de conteúdo criativo para a indústria da beleza em Nova York, já havia acumulado uma coleção considerável. Mas, no início de março, um macacão off-white na vitrine do Lululemon Lab, no NoHo, acenou para ela, irresistivelmente.

Ela comprou, mesmo que “não fosse muito dessas pessoas SoulCycling-Lululemon”, disse ela. Acontece que o novo macacão é “incrivelmente confortável e perfeito para anti-contaminação – eu só jogo na máquina de lavar no final do dia. Por ironia do destino, parece um pouco um traje de proteção”. Lola Ehrlich, de 72 anos, designer de chapéus em Nova York, também comprou um macacão quando se preparava para a Paris Fashion Week no final de fevereiro (cinza, do Alex Mill, na boutique do estilista no SoHo).

Acompanhado por pérolas e uma blusa branca com babados, o macacão se mostrou perfeito para suas reuniões de vendas. Quando os clientes vieram de Milão, onde o coronavírus já havia se estabelecido, “a grande questão para os franceses, que até então sempre se beijavam muito nas feiras, era se dar ou não o bise – o beijo duplo”, disse Ehrlich.

Mas agora sua principal lembrança do macacão é “que eu o usava quando ainda estava pensando em dar ou não o bise”. Desde então, ela ainda não voltou a vesti-lo. E ainda temos Mike Greko, de 29 anos, músico, compositor e DJ em Nova York, cujo estilo eclético incorpora elementos de Nu-disco, pop rock e muito mais.

Ele já tinha um terno vermelho de lantejoulas meio Ziggy Stardust, da Ammar Belal Custom Menswear, mas, em janeiro, encomendou um segundo, “um cinza-prata que ganha um tom azul-esverdeado quando a luz o atinge”, disse ele. Chegou pouco antes do começo da quarentena.

Agora ele, às vezes, o experimenta, “fazendo de conta que estou de volta aos bons velhos tempos”. Entre uma prova e outra, disse ele, o terno fica pendurado num gancho da porta, esperando pacientemente pela reabertura dos clubes noturnos. Mas por que dois ternos de lantejoulas? “Eles me trazem alegria”, disse Greko, “e, de acordo com a Marie Kondo, isso é uma coisa boa”.

Kondo certamente aprovaria o uso que Muriel Favaro, de 67 anos, instrutora de acessórios da Escola de Design Parsons, fez da imensa bolsa Comme des Garçons cor de aipo que chegou da Itália apenas alguns dias antes da quarentena: ela a transformou numa cesta de tricô para todos os novelos de fios que viviam espalhados pelo chão de seu apartamento em Jersey City.

Fazendo inveja a todos os praticantes de exercícios em casa, Morgan Wolin, de 58 anos, amazona premiada e psicóloga esportiva em Chicago, vai se apresentar nesta semana, mas sem espectadores. Ela e seu cavalo, So Smitten, participam do evento inaugural do Triple Crown em Lexington, Kentucky. Mas ela não usará o traje personalizado que encomendou em fevereiro junto a um fornecedor especializado, também em Lexington. O traje – casaca justa e camisa branca engomada, evocando tempos antigos – ainda não chegou, porque o envio do tecido de seda e lã atrasou na Itália. Então ela tem de ir com a rompa velha mesmo.

Em retrospecto, Wolin acha que essa compra foi “simbólica, representou um momento diferente – antes que tivéssemos que nos preocupar com a segurança pessoal da maneira que fazemos agora”. Mas pelo menos o evento dela não foi cancelado. Katrina Razon, de 29 anos, produtora de festivais de música e eventos culturais em Manila, estava atormentada, sem saber que roupa escolheria para a celebração da Tatler Philippines, em março.

Sua escolha final? Um Staud longo rosa-chiclete, com a cintura recortada e as costas abertas, comprado online na plataforma Moda Operandi. Mas o evento, como muitos outros, foi cancelado e ainda não foi remarcado. “Esta crise tem sido um acelerador muito intenso”, escreveu Razon por email.

“Balanço a cabeça quando penso em como estava ansiosa para decidir qual vestido iria usar. Logo percebi que não somos as roupas que vestimos. Trabalhando na indústria da música, minha mente passou das pequenas preocupações para a questão da sobrevivência”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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