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Hanbok: estilo coreano centenário ganha atualização com o K-pop

A tradicional veste coreana vem sendo adaptada por estilistas inovadores e adotada por estrelas da música

Hahna Yoon, The New York Times - Life/Style

11 de dezembro de 2020 | 05h00

Quando o grupo de K-pop Blackpink lançou o videoclipe de sua música How You Like That, em junho, os fãs começaram a se perguntar sobre as roupas do grupo, que pareciam ao mesmo tempo tradicionais e contemporâneas. Eles queriam saber quem era a estilista por trás da jaqueta rosa de Jennie.

O que inspirou aquele visual? Nos últimos anos, os fãs identificaram conceitos de moda semelhantes em membros de grupos K-pop como BTS, SHINee e Exo. São novas versões de uma forma secular de vestimenta coreana chamada hanbok. Dê uma olhada na hashtag #hanbokstagram no Instagram e você encontrará milhares de postagens com looks atualizados.

Ainda que o hanbok – que geralmente consiste de uma jeogori (jaqueta) combinada com uma baji (calça) para os homens e uma chima (saia) para mulheres – quase sempre seja reservado para festas e ocasiões especiais, os estilistas contemporâneos estão imaginando novas possibilidades. Algumas marcas de hanbok modernas foram impulsionadas por estrelas do K-pop que comandam exércitos de seguidores fanáticos.

Kim Danha, da marca Danha, disse que seu site teve quase 4 mil visitantes por dia depois que sua jaqueta apareceu em Jennie no vídeo do Blackpink. Leesle Hwang, a designer da marca Leesle, viu um aumento nas vendas depois que Jimin, do BTS, vestiu um de seus conjuntos hanbok no Melon Music Awards 2018, em Seul. “É incrível a quantidade de gente que veio conhecer a Leesle por causa dessa única aparição”, disse ela. Outra marca, A Nothing, ganhou cerca de 8 mil seguidores depois que Jungkook, outro membro do BTS, vestiu suas roupas.

 

“A razão pela qual as pessoas começaram a se interessar pelos hanboks, especialmente fora da Coreia do Sul, é esse crescente soft power do K-pop”, disse Kan Ho-sup, professor de arte têxtil e design de moda na Universidade Hongik. Na Coreia, o estilo remonta ao século I a.C. e era tradicionalmente feito de seda tingida em cores vivas. (Antes do advento das roupas ocidentais na Coreia, todas as roupas eram simplesmente hanbok; a própria palavra significa “roupas coreanas”).

De acordo com Minjee Kim, historiadora de moda de São Francisco, as roupas ocidentais substituíram completamente o hanbok no início dos anos 1980. Quase ao mesmo tempo, estilistas começaram a incorporar elementos coreanos tradicionais aos looks ocidentais. Kim disse que a falecida estilista Lee Young-hee foi a primeira designer a transcender os limites do hanbok. Na Paris Fashion Week de 1993, ela mandou para a passarela modelos de ombros nus, usando hanboks sem jeogori.

Mais ou menos na mesma época, a estilista Suh Younghee se interessou pelo hanbok porque sentiu que ele poderia contrariar a obsessão da indústria pelas marcas ocidentais. Ela começou a brincar com as convenções do hanbok na Vogue Coreia, onde trabalhava.

Na edição de fevereiro de 2006, estilizou a jokduri (uma tiara tradicional) em modelos com cabelos tingidos com cores vibrantes, uma imagem que desafiava qualquer convencionalidade que a roupa pudesse transmitir. Em 2014, ela ajudou a fundar o Centro de Incentivo ao Hanbok, que promove programas educacionais sobre o hanbok e eventos beneficentes.

No início dos anos 2000, a estilista Kim Young-Jin começou a repensar a tradição do estilo enquanto estudava com Park Sun-young, uma especialista do trabalho com hanbok. Kim aprendeu sobre um tipo de uniforme militar tradicional usado pelos homens durante a dinastia Joseon (1392-1897) chamado Cheolik e o recriou como um vestido de comprimento médio com gola em V, feito sob medida para se ajustar à forma feminina.

“Só porque algo é inspirado no passado não significa que não tenha criatividade”, disse ela. Quando as imagens da peça começaram a circular, outras marcas começaram a criar looks semelhantes. Suh, que muitas vezes colabora com Kim em sessões de fotos de moda, acha que a quantidade de “cópias” é preocupante. “Não estou dizendo isso porque somos próximas, mas o Cheolik de Tchai Kim marcou uma nova era de design hanbok”, disse Suh.

Depois de experimentar com sobras de tecidos da loja de roupas de cama e cortinas de seus pais, Hwang, da Leesle, começou a vender suas peças on-line e, depois de um tempo, fundou a Sonjjang, uma linha de hanbok com foco no que ela chamou de “hanboks alterados”, com rendas e babados e mangas e saias mais curtas.

Quando Hwang começou a pensar em criar hanboks para uso cotidiano, ela se voltou para a internet. A maioria das lojas de hanbok tradicionais relutava – e ainda reluta – em se desviar dos looks caros, feitos sob medida no estilo dos anos 1970. Mas as comunidades on-line dedicadas às subculturas hanbok já estavam discutindo as mudanças que queriam nas roupas desde o início dos anos 2000. Levando essas demandas em consideração, Hwang fundou a Leesle em 2014, vendendo hanboks fáceis de lavar.

 

Suas roupas estão disponíveis desde o tamanho extra pequeno ao grande, ao contrário de muitas empresas que oferecem apenas um tamanho único. “Não quero ser exclusiva”, disse Hwang. “Pessoas maiores. Pessoas mais velhas. Pessoas mais magras”. Suas roupas também custam menos do que as de seda de seus antepassados, abaixo de US$ 200 cada. “Ainda é incomum ver pessoas de hanbok moderno”, disse Hwang.

“E embora ele não precise ser usado o tempo todo, pode se tornar um item básico, como a camiseta branca ou a calça preta”. Kim Danha disse que espera que as pessoas que se deparem com sua marca venham a apreciar a ética ambiental da Danha. A marca tem como foco a sustentabilidade: algo entre 30% e 50% de seus tecidos são poliéster reciclado ou algodão orgânico. “A sustentabilidade e o design tradicional coreano andam bem juntos porque, em comparação com as formas ocidentais, os looks hanbok originais produzem menos resíduos”.

As linhas retas do hanbok, disse ela, desperdiçam menos tecido do que a gola redonda de uma camiseta, por exemplo. Ela citou o agravamento da poluição do ar na Coreia do Sul como uma motivação para seu interesse por questões ambientais. No entanto, a chamada slow fashion é um negócio difícil, disse ela.

A reciclagem de vestidos de noiva descartados exige muita mão-de-obra e tudo, até mesmo a impressão em tecido, custa mais quando você segue o caminho ecológico. Então, enquanto ela tenta defender esse modelo, o mais importante para ela é honrar o hanbok e dar a ele um lugar no futuro. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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