Valerio Mezzanotti/The New York Times
Valerio Mezzanotti/The New York Times
Vanessa Friedman, The New York Times Life/Style, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2022 | 05h00

No final de 2019, Virgil Abloh, o estilista inovador que morreu no ano passado, deu uma entrevista à revista Dazed na qual declarou o fim do streetwear. “Eu definitivamente diria que vai morrer, sabe?” disse Abloh. “Tipo, seu tempo vai acabar.” Essa declaração imediatamente gerou um surto em massa praticamente entre todos que o viram como o profeta de um novo código de vestimenta contemporâneo, que quebrou as regras do antigo establishment, encontrando poder em moletons e tênis em vez de ternos. De repente, ele havia mudado de ideia?

Abloh acabou recuando um pouco em sua declaração - ele disse à Vogue que não estava dizendo que o streetwear desapareceria por completo; ele sempre volta - mas dois anos depois que ele fez sua previsão, há pouca dúvida de que ele estava certo.  O streetwear está realmente morto.

“Não consigo mais definir isso”, disse Arby Li, vice-presidente de estratégia de conteúdo do Hypebeast, o site fundado em 2005 como um blog de fãs de streetwear que se tornou uma marca em si.

Não é que, como se supôs quando Abloh falou pela primeira vez, todo mundo se cansou dos moletons, tênis e camisetas que eram os blocos de construção básicos desse setor conhecido como streetwear, embora não fossem suas características definidoras.

É que esses moletons, tênis e camisetas foram tão absorvidos pelo establishment da alta moda que a linha entre o streetwear e a moda desapareceu efetivamente. O streetwear virou moda ou a moda virou streetwear, dependendo de como você quer ver.

“Ele simplesmente se tornou a plataforma sobre a qual todo o sistema se sustenta”, disse Demna, diretor criativo da Balenciaga. Em julho passado, a Balenciaga realizou seu primeiro desfile de alta costura em 50 anos, com grande aclamação - e também é a sexta marca mais popular no Hypebeast.

O que isso significa mesmo?

“Gostaria de conversar com minha comunidade sobre por que alguém decidiu chamá-la de 'streetwear'”, disse Rhuigi Villaseñor, fundador da Rhude, a marca de Los Angeles especializada na mistura entre luxo e streetwear. (Ele foi nomeado diretor criativo da marca de luxo suíça Bally este ano.)

Heron Preston, o fundador de uma marca homônima (seu nome completo é Heron Preston Johnson, mas ele atende por Heron Preston), que começou sua carreira como membro do Been Trill, o coletivo de DJs e moda cofundado por Abloh, concordou.

“Eu nunca me identifiquei com isso ou quis usá-lo”, disse Preston sobre o termo “streetwear”. A Heron Preston faz parte do New Guards Group, empresa italiana que aplicou o modelo de conglomerado de luxo ao streetwear e que agora é propriedade da Farfetch, o conglomerado de comércio eletrônico. Mas, Preston continuou: “Fui forçado porque, de certa forma, é um convite instantâneo para uma cultura. Existem todos os tipos de associações que surgem quando você diz essa palavra.”

O setor de moda streetwear nasceu nas décadas de 1980 e 1990 na intersecção da cultura do skate e do surf, hip-hop e arte underground: uma reação contra uma indústria na qual os criadores não conseguiam ver a si mesmos ou seu sistema de valores.

Seus padrinhos foram Shawn Stussy, que fundou a Stüssy na Califórnia em 1980; Nigo, que abriu A Bathing Ape em Tóquio em 1993; e James Jebbia, que abriu a Supreme em 1994, todos designers sem nenhum treinamento formal de moda em escolas de arte ou ateliês. (Quando Jebbia recebeu um prêmio de moda masculina do Council of Fashion Designers of America em 2018, ele disse: “Eu nunca considerei a Supreme uma empresa de moda ou eu mesmo um designer.”) No entanto, sua utilização de gráficos com roupas casuais como uma tela se tornou um emblema instantâneo de pertencimento e um item de coleção.

Eles evitaram os filtros das passarelas ou revistas de luxo para comunicação direta, geraram interesse obsessivo por meio de lançamentos secretos de produtos e usaram tecnologias sociais em ascensão para desdenhar da ordem estabelecida.

Mas, assim como a patinação e o snowboard se tornaram esportes olímpicos oficiais, seus uniformes sociais também entraram para o mainstream por trás das novas indústrias e da democratização da comunicação. As roupas se desconsagraram e a inclusão se tornou uma necessidade. “Streetwear de luxo” – marcas como Off-White e Vetements – trouxeram seus desfiles e preços para as passarelas de Paris.

Quando Abloh foi nomeado diretor artístico de moda masculina da Louis Vuitton em 2018, foi, disse Li, do Hypebeast, um “momento crucial”. E sua nomeação foi seguida, em rápida sucessão, pela nomeação de Matthew Williams - como Abloh e Johnson de Heron Preston um ex-aluno de Been Trill - para o primeiro lugar na Givenchy e Nigo como diretor artístico da Kenzo.

Nenhum deles limitou sua produção a moletons e camisetas, mas todos os compromissos foram enquadrados primeiro como um choque para o sistema, depois como uma tendência. Mesmo quando Villaseñor foi nomeado para a Bally, quase todas as reportagens o rotularam de designer de “streetwear”, implicando algum tipo de transgressão.

Mas, como Abloh disse naquela entrevista da Dazed, “o que parece absurdo na verdade se torna a nova norma”.

O termo tudo

Rótulos como streetwear e alta moda não são apenas categorias semânticas. São referências sociais. “As pessoas querem saber o significado das roupas que estão comprando: isso é para mim?” disse Valerie Steele, diretora do museu do Fashion Institute of Technology. Mas, ela disse, eles também foram usados para marginalizar designers, e o que era uma marca de diferença foi transformado em um padrão.

Em julho de 2021, Kerby Jean-Raymond, da Pyer Moss, tornou-se o primeiro designer negro americano oficialmente na programação de alta costura de Paris (mesmo que o desfile tenha sido realizado em Nova York), uma decisão estratégica tomada em parte para encerrar as tentativas de categorizá-lo como um designer de streetwear.

"Chamar alguém de 'estilista de streetwear' é uma maneira de descartá-lo", disse Tremaine Emory, fundador e designer da Denim Tears, uma marca que usa jeans para contar a história da experiência negra americana. “É um meio de controle.”

Um suéter “Tyson Beckford” da Denim Tears e “jeans cotton wreath” fazem parte do atual desfile do Costume Institute do Met, “In America: A Lexicon of Fashion”, ao lado de vestidos de baile gigantes de Oscar de la Renta e lantejoulas de ouro de Norman Norell.

Mas a implicação do “streetwear”, disse Emory, é que os criadores não são designers de moda reais; que eles de alguma forma não vêm com o mesmo pedigree, e sua produção é menos artística. Ele disse que havia um elemento de: “Como você ousa cobrar tanto por uma camiseta? Como você se atreve a entrar nesse meio?”

No entanto, muitos designers de moda que agora são considerados parte do cânone vêm de fora do sistema escolar de arte, incluindo Raf Simons, que estudou design industrial, Miuccia Prada, que estudou política, e Rei Kawakubo, que estudou ética. E muitas roupas antes consideradas inferiores agora fazem parte do código genético da moda: prêt-à-porter, roupas esportivas, o sistema americano de separações baseado em utilidade e praticidade e, disse Steele, do FIT, uma vez descartado pelos decanos de Paris.

Demna acha que a ideia de que o streetwear deve ser separado da alta moda é um sinônimo da “disfunção” da indústria. “Tornou-se parte integrante da moda e está aí para ficar”, ele disse. O verdadeiro significado do streetwear, afinal, é simplesmente o que é usado na rua. O que é tudo. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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