Samuel Aranda para The New York Times
Samuel Aranda para The New York Times

Modelo transgênero representará a Espanha no Miss Universo

Ángela Ponce será a primeira mulher transgênero a competir pelo título de mais bela do mundo

Raphael Minder, The New York Times

29 Julho 2018 | 11h00

MADRI - Ángela Ponce, que em junho foi coroada Miss Espanha, será a primeira mulher transgênero a competir pelo título de Miss Universo. Mas ela tem também outra missão, contestar o que considera conceitos tradicionais de gênero e beleza e derrubar barreiras ainda existentes na indústria da moda.

"Mesmo que muitas pessoas não queiram me ver como mulher, eu pertenço ao sexo feminino", disse Ángela, 27, que cresceu em Pilas, uma pequena cidade conservadora do sul da Espanha, onde seu pai era dono de um bar. 

"Onde cresci, ninguém era como eu", contou. Na escola, ela foi destinada a um grupo de crianças necessitadas de cuidados especiais, algumas das quais sofriam por causa do rompimento dos laços familiares ou que pertenciam à comunidade minoritária dos roma.

Seus pais, entretanto, lutaram contra todos os esforços para considerá-la um pessoa diferente e contra o tratamento depreciativo e os insultos que ela recebia com frequência. Ainda criança, eles a encorajavam a brincar com suas bonecas preferidas.

"Os problemas para mim só começaram fora de casa, na escola e na rua", afirmou Ángela. "Meus pais sempre me deram apoio, mas percebi que eu era uma figura pública desde o momento em que nasci e que, de certo modo, as pessoas tinham o direito de comentar a minha condição".

Há três anos, depois de ganhar um concurso de beleza regional, ela se mudou para Madri a fim de seguir a carreira de modelo. Nesse mesmo período, também começou a colaborar com a Fundação Daniela, criada por uma mulher espanhola que lutou contra a direção de uma escola que não queria reconhecer sua filha como transgênero.

Ángela, uma das voluntárias da fundação, dá palestras em instituições de ensino e encontra crianças e pais que lutam pelos mesmos motivos.

Aos 16 anos, decidiu submeter-se a tratamento hormonal e a uma cirurgia plástica vaginal. Mas ela disse que sua mensagem aos adolescentes é que a cirurgia vaginal é uma escolha de caráter pessoal, e que não é essencial para ser uma mulher.

Seu recente sucesso como rainha de beleza lhe trouxe muitos admiradores, mas também muitos ataques - segundo ela, principalmente de outras mulheres.

"O que me impressiona é que grande parte das críticas vem de mulheres e pessoas do meu próprio grupo, justamente no momento em que as mulheres vão para as ruas exigindo respeito por seus direitos. Acho estranho que algumas não tolerem que eu participe de um concurso para representar o meu país como a mulher que eu sou".

A Espanha, país predominantemente católico, lidera em diversas questões relacionadas ao gênero. Em junho, o novo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, nomeou mulheres para 11 dos 17 ministérios do governo, a maior proporção entre as nações ocidentais.

O país tornou-se também um dos primeiros a legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo, em 2004.

Ángela disse que grande parte das críticas recebidas pelas redes sociais vem de mulheres do exterior, que julgam que ela terá uma vantagem desleal em relação às outras rainhas de beleza nacionais no concurso de Miss Universo deste ano. Além da sua cirurgia genital, Ángela disse que o único outro procedimento ao qual se submeteu foi uma cirurgia plástica para aumentar os seios, depois do tratamento hormonal. 

"Quando ouço que as garotas não vão competir em igualdade de condições, eu digo que está certo, mas somente porque tive de redobrar os esforços para chegar aonde cheguei, por não ter sido suficientemente dotada pela natureza" afirmou. "Meu rosto sempre foi este, quer vocês gostem quer não, e o mesmo diga-se da minha cintura".

Ángela também falou do que considera a hipocrisia de algumas grandes marcas de vestuário que a recusaram como modelo quando descobriram que ela era transgênero. "Há marcas que ficam felizes por eu comprar e usar suas roupas, mas não me querem em suas passarelas", comentou.

O presidente Donald J. Trump é dono do concurso de Miss Universo há quase 20 anos. Neste meio tempo, as regras foram modificadas a fim de permitir a participação de concorrentes transgênero. Mas isso aconteceu depois de uma campanha de protestos, em 2012, liderada por Jenna Talackova, modelo canadense que inicialmente fora impedida de participar de sua competição nacional.

A irmã de Ángela, Amanda, de 19 anos, acompanhava a entrevista atentamente. Depois, tirou várias selfies com ela pelo celular.

"Tenho muito orgulho da minha irmã", afirmou. "Ela trabalhou muito para chegar até aqui, mas eu sei que ela e todas as outras mulheres poderão ir muito mais longe".

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