Modern Love: Amando-o mais quando ele sai pela porta
Carol Dunbar, The New York Times - Life/Style

14 de fevereiro de 2022 | 05h00

Seis semanas depois de nos casarmos, meu marido recebeu um telefonema de sua mãe e corremos para o hospital. Sua tia Lona estava na UTI depois que uma forte dor de cabeça no café da manhã acabou sendo um aneurisma cerebral rompido, e não havia mais nada que os médicos pudessem fazer.

Dez membros da família se reuniram ao redor da cama de Lona. O capelão perguntou à filha de Lona, de 17 anos, se havia algo que ela gostaria de fazer pela mãe antes de desligarem a máquina.

“Quero pintar as unhas dos pés dela”, ela disse.

O pedido foi atendido e um frasco de esmalte rosa se materializou.

Observei minha sogra, minha cunhada, meu novo marido e meu sogro pegarem o pequeno vidro de esmalte e passarem o pincel nos dedos dos pés de Lona. Ela tinha apenas 46 anos. Fiquei ombro a ombro com minha nova família enquanto os médicos desligavam as máquinas, a sala ficava em silêncio e Lona sumia de nossas vidas.

Como recém-casada, aprendi como os aneurismas rompidos ocorriam na família do meu marido. Ele estava predisposto a ter a condição, descrita pelo médico de Lona como uma protuberância em um vaso sanguíneo do cérebro – algo parecido com uma baga em um galho.

Ele, seus irmãos e primos receberam uma carta do médico de Lona aconselhando um exame. Se os médicos pudessem detectar a presença de um aneurisma precocemente, eles poderiam colocar um stent para mitigar o risco de ruptura. O fato de meu marido sofrer de enxaquecas esporádicas, mas debilitantes – dores de cabeça tão fortes que ele ficava parcialmente cego e tinha que se deitar em um quarto escuro – me deixou ainda mais preocupada. Enxaquecas não estão ligadas a aneurismas, mas eu não sabia disso na época. A maioria dos aneurismas não são hereditários e surgem espontaneamente, o que eu sabia, então para mim não era um medo irracional.

Sua irmã, irmão e primos levaram esta carta a seus médicos e fizeram o rastreamento. Seus exames deram negativo. Não possuíam a condição que os colocava em maior risco de ruptura e morte súbita.

Meu marido? Ele se recusou a fazer o exame.

Se um de seus vasos sanguíneos estivesse propenso a uma ruptura, ele disse que preferia não saber. Naquela época, os exames nem sempre eram confiáveis e ele era um homem saudável de 28 anos. Se eles encontrassem uma protuberância, ele realmente queria cirurgiões mexendo em seu cérebro, colocando o stent? Não, ele não queria. Melhor viver a vida ao máximo e abraçar cada momento como se fosse o último, porque estamos todos a caminho da morte de qualquer maneira.

Não era isso que eu queria ouvir, mas não podia argumentar. Quando imaginei ter que passar por um procedimento por uma condição que poderia ou não causar um problema, um procedimento que envolvia o órgão que me fez humana, eu entendi.

Colocamos a carta do médico em um lugar seguro e seguimos com nossas vidas.

Na época, nós dois trabalhávamos em um restaurante italiano sofisticado. Uma noite, durante a temporada de férias, meu marido teve uma enxaqueca ocular no auge da hora do jantar, e minha mente foi para novos lugares. Eu não era uma pessoa que tinha enxaqueca, então nunca tinha levado essas dores de cabeça a sério antes, mas agora que eu sabia sobre aneurismas, tudo que eu conseguia pensar, por mais irracional que fosse, era que ele poderia morrer de repente.

Corri de um lado para o outro tentando atender meus clientes; o bar estava lotado e tínhamos uma fila de espera na porta. Os outros garçons assumiram o controle, sacudindo latinhas de martini sobre suas cabeças, enquanto nosso gerente conduzia meu marido para fora por trás do bar.

“Não se preocupe, querida,” ele me disse, “eu vou ficar bem!”

E ele ficou, depois de vários Advil e 20 minutos sozinho em um quarto dos fundos. Mas minhas mãos ficaram frias e minhas entranhas tremeram.

Várias noites depois, enquanto arrumava o restaurante com alguns outros garçons, expressei meu medo de que meu marido morresse jovem. Parecia uma certeza para mim que eu tinha que me preparar para isso, mas eu não tinha ideia de como. Um amigo garçom disse: “Você não tem do que reclamar, Carol. Você encontrou sua alma gêmea, o amor da sua vida. O resto de nós pode nunca encontrar o que você tem.”

Como ele sabia? Porque isso era verdade: desde o momento em que meu marido e eu nos beijamos pela primeira vez, tive a sensação de que ele e eu estávamos tentando nos alcançar há séculos. Que tínhamos vivido vidas passadas com os braços estendidos, sempre ansiando pelo outro, mas por motivos trágicos e fora de nosso controle – guerra, fome, brigas – nunca pudemos estar juntos.

Este era provavelmente meu cérebro excessivamente dramático no trabalho – meu marido e eu éramos atores quando nos conhecemos – mas não pude evitar. Esta vida com ele parecia um prêmio no final de uma série de provações em que, finalmente, podíamos desfrutar da felicidade do casamento.

Mas quanto tempo teríamos? 10 anos? Cinco? Quanto era o suficiente?

Levei a sério o que meu amigo disse e jurei estar sempre presente para esse homem que eu amava. Se nosso tempo juntos fosse curto, eu o aproveitaria ao máximo.

Mas a vida era corrida, e eu esqueceria. Como qualquer casal, nós brigaríamos. Mas então eu me lembraria. Meu coração bateria freneticamente com o pensamento de viver sem este homem, e eu correria para fazer as pazes. Era mais fácil deixar de lado as coisas menores quando eu pensava em quão pouco tempo poderíamos ter.

Exercia uma vigilância especial em nossos momentos de despedida. Meu marido percebeu e disse, rindo: “Você nunca me ama mais do que quando estou saindo pela porta”.

Cada vez que nos separávamos, eu dizia a mim mesma: “E se for isso?” Se eu estivesse distraída ou chateada e soubesse que não seria capaz de viver do jeito que havíamos deixado as coisas, eu iria atrás dele e consertaria as coisas, e meu marido começou a fazer o mesmo.

Após o nascimento de nossos filhos, senti-me especialmente vulnerável. Eu precisava de sua ajuda física e emocional. Eu não queria criar nossos filhos sozinha. Sempre que meu marido tinha uma de suas enxaquecas – e elas aconteciam duas ou três vezes por ano, sem aviso – isso desencadeava aquele medo de que o fim pudesse chegar a qualquer momento.

À medida que as crianças cresciam, suas enxaquecas aconteciam menos. Marquei os anos com ímpetos de gratidão por pelo menos tê-lo comigo durante esse período – o que quer que fosse: quando os canos congelaram e o cachorro morreu, quando nosso filho vomitou em Amsterdã no momento de um apêndice estourado, quando nossa filha jogou a minivan da família para fora da estrada durante uma tempestade de gelo.

Um dia, em uma tarde comum, com as crianças fazendo barulho na sala, lembro-me de olhar para meu marido e pensar: se é isso, nosso último momento juntos, então está tudo bem porque já tivemos uma vida muito rica e plena.

Eventualmente, cheguei ao ponto – e nem sei quando – em que comecei a apreciar o que tinha todos os dias, em vez de perceber isso apenas em momentos de pânico. Lembrando do romance de Wendell Berry, A Place on Earth: A morte se tornou parte de minha forma de amar – e não apenas meu marido, mas todos importantes na minha vida.

O tempo, para mim, traz consigo uma certa nitidez que quase posso sentir na pele, principalmente nos momentos cotidianos em que estou junto com os entes queridos em uma sala. Sinto um profundo apreço pelos olhares e toques conhecidos, o privilégio de estender a mão e encontrar alguém lá.

Não sei se é possível se preparar para a morte, e finalmente estou convencida de que enxaquecas recorrentes e aneurismas cerebrais não estão conectados. Mas a partida precoce de Lona me deu um presente que eu não teria de outra forma - uma maior consciência da vida. Por causa dela, eu prestei mais atenção no meu casamento e no mundo cotidiano.

No ano passado, nosso filho completou 17 anos. Meu marido e eu comemoramos nosso 24º aniversário em casa durante a pandemia com uma garrafa de vinho tinto. Ainda tenho a carta daquele médico. Está enrolada dentro da capa de papelão de uma garrafa de Lagavulin que tomamos durante nosso casamento. De vez em quando, eu o desenrolo como um pergaminho antigo, leio e coloco de volta.  /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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