Modern Love: Ele não conseguia lembrar que terminamos o namoro

Modern Love: Ele não conseguia lembrar que terminamos o namoro

Quando meu ex teve uma lesão cerebral após uma queda e pensou que ainda estávamos namorando, tive que preencher as lacunas de sua memória

Tyler Wetherall, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2021 | 05h00

Eu costumava receber mensagens como essas do meu ex-namorado: “Nós temos alguma piada interna com flamingos?” e “Como foi que eu machuquei a mão?”

Não eram convites para uma viagem na trilha da memória: ele simplesmente perguntava por que não lembrava. “Nós gostávamos dos flamingos porque são aves curiosas”, eu disse. “A ferida na mão foi quando você deixou cair um escalpelo no seu ateliê”.

Eu não era apenas a sua namorada; havia me tornado o único repositório das nossas memórias em comum.

Conheci Sam em Londres quando ele tinha 20 anos e eu 24. Depois de três anos, percebi que ele estava se afastando. Fomos a um pub, pedimos uma garrafa de prosecco e brindamos ao nosso tempo juntos. Nós sabíamos que, quando a garrafa esvaziasse, diríamos adeus; depois da última gota de vinho, choramos.

“Tudo o que eu sei a respeito de mim mesmo foi através de você”, ele disse. “Sem você, não sei quem eu sou”.

“Provavelmente, é por isso que precisamos nos separar”, eu disse. “Para que você descubra quem você é”.

Seis meses mais tarde, Sam me convidou para tomar um café. Ambos tínhamos sentido saudade um do outro e dissemos isso. Talvez não significasse nada, mas jamais vou saber porquê, dias mais tarde, um amigo me telefonou para dizer que Sam havia sofrido um acidente.

Depois de uma noitada, ele caiu de uma altura de mais de oito metros de uma árvore em cima de uma superfície de concreto. Os médicos o colocaram em coma induzido para impedir que o seu cérebro inchasse, causando uma hemorragia.

No nosso primeiro encontro, eu e ele subimos em uma árvore. Ele usava botas Chelsea e eu estava de minissaia, mas não importava. Subir em árvores é parte da alegria que eu amava nele. Agora, talvez nunca mais ele pudesse subir em uma árvore. Talvez nunca mais acordasse.

Eu sempre beijava os seus olhos fechados e dizia: “Adoro a sua mente maravilhosa”. Eu o imaginei na terapia intensiva, aquele cérebro inchado, talvez sem qualquer possibilidade de se consertar. Não pude correr para o hospital porque eu não passava de uma ex, e não tinha um relacionamento próximo com a sua família. Só pude mandar mensagens de apoio e esperar.

Uma semana mais tarde, sua irmã me telefonou para me dizer que os médicos o haviam tirado do coma. “Ele perguntou por você”, ela falou. “Pensei que vocês tivessem terminado”.

Quando cheguei, Sam estava sentado na cama. Tentei ver além das bandagens e dos tubos, os pinos que uniam seus ossos. Ele sorria. Seguramos as mãos. Por um instante, pensei que tudo pudesse estar bem. Depois, ele sussurrou: “Não sei por que estou aqui?”.

“Você sofreu um acidente”, respondi, “mas agora está tudo bem”.

Cinco minutos mais tarde, voltou a perguntar.

O trauma cerebral havia provocado a perda da memória recente, o que era bastante preocupante porque várias vezes Sam tentou sair da cama confuso e caiu. A sua mente se recuperava em poucos minutos, causando um caleidoscópio de falas desconexas. Ele ainda era eloquente e fascinante em sua incoerência, como se procurasse falar para sair do abismo da amnésia. Ele cumprimentava cada enfermeira, como se elas tivessem sido convidadas para o chá.

Logo notei que não era apenas a sua memória recente. Ele não sabia que iria começar um programa universitário na escola de arte Central Saint Martins ou que ele morava em um galpão dilapidado em Whitechapel com um coelho de estimação. A sua infância estava intacta, mas os últimos anos – ou seja, os anos do nosso relacionamento – haviam desaparecido.

Ele sabia quem era, mas não conseguia lembrar o que eu fazia ou se eu sabia como nos conhecemos. Ele não conseguia lembrar, por exemplo, aquele encontro em que subimos na árvore, ou que, na manhã seguinte, ele foi comprar o nosso café da manhã e voltou com três caixas de bolos de uma doceira francesa, e nós comemos sonhos com creme de morangos nus, na cama, com as mãos.

Ele não lembrava os nossos passeios pela Brick Lane nos nossos domingos ou que dançávamos em um campo com os nossos amigos. Ele não lembrava da alegria. E, se ele não podia lembrar da alegria, talvez não tinha acontecido.

Terminar com uma pessoa é perder o futuro imaginado que vocês teriam criado juntos, mas sempre compartilhar a paisagem dos seus passados coletivos. Se Sam não conseguia lembrar, eu estaria sozinha naquela paisagem.

Deixei aquela primeira visita tremendo.

O médico disse que nós tínhamos uma janela de oportunidade para restaurar as memórias dele e quanto mais nós pudéssemos ajudá-lo a lembrar agora, menos permanente seria o dano. Eu o visitei por várias semanas. E também os seus amigos mais próximos.

Enquanto Sam lutava para se recuperar, fui vê-lo, levando vários slides comigo. Sam nas catacumbas de Paris em nossa primeira viagem juntos. Sam com a espada de cavalaria do século 18 que dei para ele quando fez 21 anos. Mostrei para ele fotos de nossos amigos em comum. Sam chorou de alegria, como se alguém ligasse um interruptor na sua mente para a luz jorrar.

Logo percebi que, mesmo que ele não lembrasse do nosso tempo juntos, ele também não lembrava que havíamos terminado. Para Sam, eu era ainda a sua namorada. Nas visitas seguintes, prometi a mim mesma que contaria a verdade para ele, e depois não o fiz. Sua memória recente continuava fragmentada, e usei isso como desculpa. E eu desfrutava das nossas horas juntos, compartilhando com prazer memórias que depois do nosso término, se tornaram tão dolorosas.

Por outro lado, também procurava ser cuidadosa. Eu não queria que, se eu contasse, a nossa história influenciasse as nossas memórias que já floresciam. Parte do prazer – e conflito – com as reminiscências coletivas estava nas inevitáveis discrepâncias. Eu ansiava por estas discrepâncias. Eu queria que um relato da nossa história existisse independentemente do meu, mas havia pouco que eu pudesse fazer para impedir que o meu relato do nosso passado contaminasse o dele.

Como estudante universitário, Sam estudou neurociência. Em sua mente sã, ele teria achado fascinante o que estava acontecendo consigo mesmo. A sua mente estava muito ocupada em amarrar novamente as suas redes neurais, desencadeando os padrões de atividade sináptica que constituem uma memória, e ao fazê-lo, restaurando lentamente sua consciência do seu próprio ser. Nossas memórias nos fazem o que somos. Elas constituem o tecido conectivo não apenas entre o nosso ser passado e o presente, mas entre nós e as pessoas que amamos.

Cerca de um mês desde o começo de sua recuperação, Sam disse que queria conversar. Ele perguntou a uma amiga por que eu não o visitava mais frequentemente, e essa amiga falou que nós não estávamos mais juntos.

Sam me perguntou o que havia acontecido.

“Você parou de me amar”, eu disse.

“Por que?”

Não sei. Foi naquele ponto da nossa história que a experiência dele se separou da minha. “Você estava pronto para seguir em frente”, falei.

“Eu sinto que tenho que passar pelas emoções do término, tudo de novo”, disse ele.

Voltando para casa de bicicleta, percebi que eu também. Prestes a contar a Sam histórias sobre o nosso passado, criei uma nova história, e ela acabava com a gente voltando a namorar. Eu tinha me permitido sonhar de olhos abertos com aquele final hollywoodiano sem parar para saber se era isso que cada um de nós queria.

Depois de cinco meses, Sam recebeu alta do hospital. Ele mancava ligeiramente e tinha uma caixa de ferramentas espalhadas pelos ossos, mas ele saiu andando com as próprias pernas, com a sua mente maravilhosa intacta.

Depois daquela conversa, não falamos do nosso relacionamento, mas ele voltava a ser uma parte importante da minha vida. Uma noite, poucas semanas depois da alta, fui a uma festa e um amigo perguntou: “Deve ser realmente duro agora saber que Sam tem uma nova namorada”. Saí em lágrimas.

Escrevi para ele que não queria vê-lo por algum tempo. E não dei nenhuma explicação.

“Eu entendo”, ele disse.

Sam havia me dado um par de luvas vermelhas no meu último aniversário, presente que reconheci como um sinal de que o seu afeto estava sumindo. Entre os presentes anteriores, havia um agasalho de tricô e uma pintura que ele levou semanas para concluir.

Fui para a praia, enchi as uvas de pedras e as joguei no mar. Estava tudo acabado.

Meses mais tarde, Sam me pediu para encontrá-lo. Em um café no Soho, onde havíamos estado anteriormente, ele disse que sentia muito e queria que eu soubesse quão importante eu era para ele. Perguntei se ele lembrava do café. Ele disse que eu o havia levado ali antes e que pedimos cinco bolos diferentes para nós. Sorri, enquanto o alívio me inundava. Então, me dei conta de que não havia passado aqueles meses visitando-o para salvar o nosso relacionamento, na realidade não, independentemente de quão romântico aquele final parecera. Eu queria salvar as lembranças dele do nosso relacionamento. Sem a parceira do passado coletivo, essas memórias tornaram-se menos reais.

Nós nos criamos graças aos relacionamentos iniciais das nossas vidas, como Sam disse quando terminamos. E eu queria fazer parte da história de Sam. Mas precisava saber se ele lembrava da alegria. Ele lembrava. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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