Ela substituiu minha mãe. Consigo fazer o mesmo por ela?

Ela substituiu minha mãe. Consigo fazer o mesmo por ela?

Quando minha mãe faleceu ainda jovem, a mãe dela resistiu à perda por mim. Agora eu temo perdê-la também

Rachael Cusick, The New York Times - Life/Style

28 de dezembro de 2020 | 05h00

Eu detestava ir a alguma loja de roupas com minha avó. Entrávamos numa loja, selecionávamos uma série de saias jeans e sutiãs e íamos para o provador onde minhas irmãs e eu escutávamos a conversa dela com alguma vendedora, sabendo que num momento determinado ela diria: “A mãe delas morreu. Sou a avó”.

Isso ocorreu na loja da American Eagle, Foot Locker, Applebee e na fila de espera da ShopRite. Minhas irmãs e eu ficávamos sempre à espera para ver quanto tempo demorava durante a conversa para ela revelar o nosso maior segredo para alguma pessoa estranha.

Não faz muito tempo, numa das vezes que falamos por telefone, perguntei porque ela sempre agia daquela maneira. Ela achava que o jovem no Dairy Queen tinha de saber que nossa mãe havia falecido quando nos entregava nossos Oreo Blizzards?

Ela ria, depois ficava séria. “Isto estava tão presente em nossa vida, Rachael. Estava presente em todos os lugares onde íamos. Como não poderia falar a respeito?”.

Não devia ficar surpresa com o fato de ela ver a ausência da minha mãe nessas situações cotidianas. Afinal, minha avó era exatamente do tipo que frequenta a Victoria’s Secret e nem as reuniões semanais de aposentados no restaurante IHOP. Mas nunca foi algo que me chamou atenção. Eu a censurava pelo luxo de ocasionalmente esquecer que minha mãe estava morta e o quanto ela estava sendo uma mãe para mim.

Quando, aos 40 anos, minha mãe soube que estava com câncer, minha avó tirou uma licença temporária do trabalho no banco, um emprego que ela batalhou muito para conseguir mais tarde na sua vida. Ela já havia perdido um filho, que se suicidou, e estava determinada a não perder outro. “Nenhum de vocês tem permissão para partir antes de mim”, dizia ela. Mas o câncer não ouviu. No dia em que minha mãe faleceu, não me lembro de ter visto seu leito vazio, ou lhe dizer adeus naquela manhã, como me disseram. Tudo o que lembro é da minha avó na frente da nossa casa no seu Chrysler verde. Ela sempre transmitia a sensação de que o show deve continuar, seja ou não convocada para fazer parte do elenco. Nós éramos cinco crianças. Eu tinha seis anos e era a mais nova.

Ainda precisava de alguém para limpar minhas orelhas, levar-me ao dentista, observar se a minha ânsia por cookies não era para preencher o vazio no meu coração, e para se orgulhar de mim tanto quando eu alcançava sucesso, ou fracassava, ou não fazia absolutamente nada.

Minha avó, uma mulher de 65 anos com problemas no joelho e uma artrite crônica, se preparou para seu segundo ato de criação de filhos, compondo uma lista de supermercado e fazendo compras para a família de seis semanalmente. Ela tinha de ir de carro da sua casa em Nova Jersey até a nossa em Staten Island e ali permanecia por dois dias, ajudando meu pai a conduzir o navio que vagava sem rumo certo.

Às quintas-feiras, ela aparecia na esquina da rua próxima da nossa escola e se mantinha meio quarteirão atrás das outras mães como se para nos poupar de ter de admitir que ela não era a pessoa que deveria estar ali. Eu corria na sua direção para receber o primeiro abraço desde que nos despedimos na semana anterior. Nas noites de sexta-feira, ela preparava o jantar com as sobras e depois partia no seu Chrysler para descansar um pouco antes de repetir tudo na semana seguinte.

À medida que os anos passaram, minha avó procurava apagar todas as lembranças tristes de que eu não tinha uma mãe. Foi às minhas formaturas, comprou meus primeiros absorventes internos, fazia bolos de aniversário para mim e dizia que não me abandonaria, mesmo durante meus difíceis anos de adolescência. Minha relação com ela é agridoce, nosso vínculo profundo é o resultado da perda. Ela é a primeira pessoa a quem quero dar uma boa notícia e a única que me conforta quando a notícia é ruim.

Ela é meu contato de emergência, minha conselheira e me ensinou o que é o amor incondicional. Hoje é um amor que alimento com nossas conversas semanais pelo telefone. Ela e eu passávamos a noite juntas uma vez por mês, mas a pandemia pôs fim a isto e agora estou mais inquieta do que nunca de que vamos diminuir cada vez mais nosso tempo reunidas.

Gostaria que ela fosse mais jovem, ou que eu fosse mais velha, não acho que uma pessoa normal nos seus 25 anos se preocupa com isto, pessoas de 25 anos normalmente não têm uma figura materna com 84 anos. Há alguns meses, conversando com ela pelo telefone, eu me queixei de um projeto de trabalho quando ela disse: “A vida é assim, Rachael”.

“Jesus”, respondi bruscamente, como uma adolescente responde agressivamente para a mãe que lhe faz um sermão. E fui mais brusca com ela do que gosto de admitir. Tento ser menos agressiva, deixar que ela se mantenha no seu papel de avó. Mas naquele telefonema eu a forcei a assumir o papel de mãe que eu continuamente necessitava tanto. Ela ficou nervosa com minha resposta e eu surpresa com sua fragilidade.

No final daquele mês, fui a um supermercado para fazer compras onde encontrei um homem de meia idade com máscara percorrendo o corredor de sopas e molhos. “Se voltar sem a “hollandaise”, minha mulher não me deixa entrar em casa”, disse ele para alguém. De volta para casa, decidi dar um passeio de bicicleta às margens do oceano.

No trajeto, minha mente vagava, pensando se aquele homem havia entrado em casa e pensando como minha avó adoraria se sentar à beira do mar se não tivesse vergonha das suas pernas num traje de banho. Era tão bom pensar nessas coisas simples novamente – esquecer que o tempo estava passando.

E então, meu telefone tocou. Era minha irmã mais velha. Ofegante, eu disse, “quero chegar em casa antes que escureça. O que aconteceu?". Ela desligou, mas me chamou novamente uma hora depois. “Nossa avó está com problema de saúde”, disse. Minha irmã fora designada para dar a notícia e eu sabia que todos se preocupavam de que eu ficaria muito abalada com a notícia. “Ela está com um tumor no rim”.

Nesse ponto da vida, minha avó sobreviveu à minha mãe e à sua mãe, as duas morreram por causa de um câncer de cólon, e a seu próprio filho. É a pessoa mais forte que conheci, mas ultimamente parece muito cansada.

Telefonei a ela, determinada a não mostrar como estava aterrorizada, mas foi como sempre. Nosso dueto familiar em que eu danço sapateado em torno da realidade de que meu mundo está desmoronando ao passo que ela procura me enganar, assegurando que não vai para lugar nenhum. Mas desta vez sua voz estava diferente, menos determinada. Lutei para dizer as coisas certas, procurando saber o que falar e finalmente a única coisa que consegui dizer foi “eu amo você”.

Eu me perguntei se o YouTube tinha vídeos sobre como dar banhos de esponja, ou se eu poderia tirar uma licença do trabalho para cuidar dela, se a situação piorar. As licenças incluem as avós? Esses momentos me lembram da parte esquecida entre nós e o espaço amplo que preenchemos uma para a outra.

E havia o próximo turno no nosso amor agridoce: ela assumiu o papel da minha mãe para mim e agora é a minha de assumir o papel de mãe para ela. Durante tantos anos, ela tem absorvido as ondas de choque provocadas pelo desaparecimento da minha mãe das nossas vidas. Sem ela, a bruma da minha mãe vai desaparecer e serei obrigada a ver a ausência da minha avó a vida toda. Perderei a mãe que perdi há 20 anos e a mulher que amei em seu lugar.

Perderei a pessoa que me escrevia cartas no acampamento de verão. Às vezes, em ocasiões especiais, surpreendo minha avó com seus olhos cor de avelã lacrimejando e compreendo a alegria que ela deve ter sentido em ser essa pessoa para mim, aquela que se colocou no lugar que era para ser da sua própria filha. Quando eu a perder, perderei ambas. E como será a vida então? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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