'Achei que só meu pai tinha segredos, até minha mãe me chamar para conversar'

'Achei que só meu pai tinha segredos, até minha mãe me chamar para conversar'

'Fiquei feliz por ela não estar olhando para mim enquanto falava. Nunca tinha imaginado minha mãe desejando meu pai, muito menos outro homem'

Ayad Akhtar, The New York Times - Life/Style

27 de setembro de 2020 | 05h00

“Posso pegar alguma bebida gelada para vocês?”, o garçom da piscina perguntou, segurando uma conta na testa para tapar o sol daquele dia quente. Vestindo apenas shorts curtos, ele não poderia apresentar um contraste mais forte com a mulher a quem estava se dirigindo: minha mãe usava um vestido de linho, longo e de mangas compridas.

“Uma piña colada virgem”, ela disse.

“O mesmo para mim”, eu disse.

Minha mãe sabia que eu bebia álcool, mas não gostava quando bebia na presença dela. Estávamos em Naples, Flórida, nas férias de primavera de nossa família, uma tradição que continuamos mesmo quando meu irmão e eu entramos na meia-idade. A essa altura, as dinâmicas das férias estavam bem afiadas.

Meu pai acordava cedo e caminhava até o cais, onde alugava uma vara e pescava um pouco. Minha mãe se levantava mais tarde e, depois do café da manhã, postava-se à beira da piscina para ler. Eu dividia meu tempo entre os dois, passava o início da manhã com ele e as poucas horas antes do almoço com ela.

Ela estava lendo O olho mais azul, mas, quando me sentava na espreguiçadeira ao seu lado, ela ficava com o livro fechado. Senti que ela estava fervendo e me perguntei o que a estava incomodando. De repente, ela se virou para mim, animada: “Vamos dar um passeio pela areia?”

Na praia, minha mãe era a única pessoa totalmente coberta, da cabeça aos pés. Em todos os meus anos como seu filho, nunca tinha visto suas pernas acima dos tornozelos e certamente nunca a tinha visto em nada remotamente parecido com um maiô – embora ela os usasse na infância, quando aprendeu (e amou) nadar.

Sempre que caminhávamos à beira da água, ela arregaçava as calças ou segurava a barra do vestido para sentir as ondas batendo nos seus pés. Muitas vezes me perguntara se ela sentia falta de estar na água, mas nunca ocorrera de perguntar. Eu sabia que a escolha era dela: meu pai não era um muçulmano crente nem praticante, não se importaria se ela quisesse mostrar um pouco de pele.

Aos 67 anos, ela ainda era bonita, embora já não estivesse muito preocupada em parecer. Meus pais se conheceram no Paquistão no início dos anos 1960, os dois absurdamente atraentes – se forem confiáveis as histórias que seus amigos contaram e as fotos tiradas na época.

Os pais de minha mãe tinham recebido duas dezenas de propostas antes que ela acabasse surpreendendo a família ao se apaixonar por um colega do curso de medicina em Lahore. Os pais do meu pai tampouco ficaram muito felizes com o casamento. Depois de terem anunciado sua decisão de arranjar o casamento de seu único filho – e selecionado a futura noiva – meus avós paternos nem se deram ao trabalho de aparecer na cerimônia.

Embora sua união tenha sido por “amor”, o casamento dos meus pais foi difícil desde o início. Meu pai tinha um olhar errante e não parecia sentir que o fato de ser casado deveria limitá-lo. Aos quatro anos, eu já sabia que meu pai tinha “outras mulheres”, como minha mãe costumava chamá-las.

Uma proximidade doentia a essa realidade – a seu conflito central e tóxico – definiu grande parte da minha infância. E definiu a narrativa do casamento de meus pais. Pelo menos era o que eu pensava. Enquanto ela e eu caminhávamos ao longo da costa, seus chinelos numa das mãos, a barra do vestido amarrotada da outra, ela começou a me contar uma história. Em meados dos anos 1980, quando eu ainda não estava nem no ensino médio, ela trabalhara por um tempo na Faculdade de Medicina de Wisconsin.

Como era uma das primeiras especialistas em imagens nucleares, ela tinha uma demanda excepcionalmente alta na época, corria por toda Milwaukee para ler tomografias em vários hospitais. Embora seu tempo cobrindo turnos na faculdade de medicina tivesse sido curto – quase dois anos – eu sabia desde muito tempo que ela adorava o lugar.

Sempre achei que sua afeição tinha algo a ver com o prestígio da instituição, com o fascínio pela pesquisa, com uma lembrança da atmosfera pedagógica de seus amados anos de faculdade de medicina em Lahore. Pode ter sido tudo isso também, mas o principal motivo, eu viria a descobrir, era um homem, um cirurgião de lá.

Assim como ela, ele era casado e tinha dois filhos. Eles se conheceram numa noite quando ele estava de plantão e ela ficara no hospital até tarde, analisando os exames de um paciente que ele iria operar. Alto, de cabelos loiros e corpo de atleta, ele jogara futebol americano na faculdade, mas não se portava com a arrogância e a autoestima que costumamos encontrar nos cirurgiões, disse ela, especialmente naqueles que foram atletas.

Meu pai também não era um homem diminuto, mas, cardiologista famoso, ele se portava com uma postura que podia ser desagradável. “Ele era humilde”, ela me dizia agora, falando do cirurgião, vendo a água molhar seus pés, a insinuação de um sorriso nos lábios. “O que me atraiu nele foi a humildade”. Fiquei feliz por ela não estar olhando para mim enquanto falava. Nunca tinha imaginado minha mãe desejando meu pai, muito menos outro homem.

Por mais surpreso que eu estivesse, não queria que ela parasse. “Nos encontrávamos na cantina para jantar”, disse ela. “Não gostava da comida de lá, então levava comida de casa: dal, bhindi. Ele se apaixonou pela comida do Paquistão”. Ela olhou para mim. “E ele não se apaixonou só pela comida paquistanesa. E não foi o único”. Havia algo em seu rosto que eu não reconhecia, uma ferocidade silenciosa. Ela desviou o olhar. Mais adiante, pensei ter visto a silhueta de meu pai no horizonte.

Era mais ou menos naquela hora da manhã que ele começava a voltar para o hotel. Meu coração disparou. “Ele não era feliz com a esposa”, disse ela. “Eu não era feliz com meu marido. Mas nada aconteceu. Cada um de nós tinha dois filhos. Éramos de culturas diferentes. De que adiantava fazer todo mundo passar por toda aquela dor? Só para sermos felizes? Eu sei que é isso que muitas pessoas neste país pensam que significa liberdade. Mas não é o tipo de pessoa que sou”.

Eu sabia que esta última ideia, sobre a liberdade, era uma indireta para mim, por causa de minhas opiniões a respeito de meu pai. Eu sabia que ela se sentia assim em relação a ele, embora eu me perguntasse se era uma avaliação justa. Afinal, ele também não havia abandonado a família. O homem adiante, eu podia ver agora, era de fato meu pai, vindo em nossa direção com um peixe vermelho pendurado numa das mãos.

Minha mãe ainda não o tinha avistado. “Acho que é o papai vindo lá”, eu disse baixinho.

Ela ergueu os olhos. “Falando no diabo”.

“Peguei um almoço para nós”, disse meu pai quando se aproximou, levantando o peixe. “Peixe-vermelho. Vou levá-lo à cozinha para ver o que eles podem fazer”.

“Acabei de tomar o café da manhã”, ela respondeu.

“E você?”, ele disse, virando-se para mim.

Se a rejeição dela o incomodara, eu não saberia dizer. Sua longa e destrutiva contenda – travada em olhares fulminantes e respostas murmuradas – de repente pareceu menos dramática. Talvez fosse só a maneira como eles superaram a decisão de ficarem juntos.

“Claro”, eu disse. “Mas mamãe e eu estávamos caminhando. Nos vemos lá no hotel”.

Depois que ele se foi, minha mãe e eu continuamos em silêncio. A atmosfera de cumplicidade se perdera, sua confissão se acabara.

Ela soltou o vestido e se dirigiu a um terreno mais alto. Eu a segui até o topo de uma grande duna. “Você manteve contato com ele?”, eu disse quando a alcancei. Ela balançou a cabeça. “Ele se mudou para outra cidade. Trocamos algumas cartas. Mas foi só isso”. Ela olhou para o oceano. Depois de um silêncio constrangedor, ela disse: “Achei que você deveria saber”.

Por um momento, eu vi a mulher mais jovem e arrebatadora que eu conhecia quando criança. Eu finalmente estava enxergando para além do papel que ela desempenhara por toda a sua vida, o papel de minha mãe, um papel que eu acreditava que ela adorava e que veio defini-la de muitas maneiras, mas não de todo. Nossos olhos se encontraram agora, e sua expressão hesitante e vulnerável me surpreendeu. Lutei contra a vontade de desviar o olhar e nos poupar do desconforto que presumi que estávamos sentindo.

Algo novo estava acontecendo entre nós. Eu não queria voltar a ser o filho que só enxergava uma mãe que amava e de quem precisava, mas que imaginava, talvez como todos as crianças, que, no fim das contas, pertencia só a ele. Eu a olhei de frente. “Estou feliz por você ter me contado”. Ela sorriu. Ficamos mais um pouco na duna e, então, ela apanhou a barra do vestido e voltamos para a água. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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