Modern Love: Fazer ele se sentir confortável não é minha responsabilidade

Modern Love: Fazer ele se sentir confortável não é minha responsabilidade

Uma jovem com uma perna mecânica espera tornar o mundo um lugar um pouco mais empático. Seria bom se ela não tivesse de fazê-lo no primeiro encontro

Alexandra Capellini / The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2021 | 05h00

Rob e eu vínhamos conversando no aplicativo Bumble há cerca de um mês. Decidimos ir em frente quando ele estava à procura de um apartamento em Nova York. Era lindo, engraçado, muito instruído, e tem raízes em Boston. Ele podia trabalhar praticamente em qualquer lugar e disse que estava se mudando para Nova York por causa disso, e eu gostei muito. Continuamos em contato.

Depois que ele chegou e se mudou para a sua nova casa, passamos das mensagens por aplicativo às mensagens de texto, o passo crucial que vinha em seguida. Naqueles poucos dias, nas mensagens escritas decidíamos entre as recomendações sobre restaurantes no East Village.

“Pode crer”, escreveu. “Estou me ajeitando o mais rapidamente possível!”. E depois, finalmente: “Vamos experimentar um destes lugares no início da próxima semana?”

“Seria o máximo!”, escrevi.

E na mesma hora, me senti arrasada por causa do que teria de dizer em seguida. Ainda não sei em que momento preciso trazer o problema à tona – se é que preciso mesmo. Se deveria esperar até que nos encontrássemos para dizer alguma coisa, ou se não deveria dizer nada. Talvez ele já soubesse. Mas eu não tinha como saber se já sabia. Então teria de perguntar.

É o que passa pela minha cabeça quando estou trabalhando com os aplicativos de relacionamento como uma jovem com uma perna só. Você deve imaginar que minhas fotos já entregariam. Se os caras realmente olhassem para as quatro que tenho. Depois de alguns anos nestes aplicativos, ainda estou chocada com a quantidade de caras que não reparam neste detalhe nas minhas fotos. “Detalhe” seria a palavra exata? Ter só uma perna é definitivamente alguma coisa, mas é maior ou menor do que um detalhe?

Tenho 25 anos e curso o terceiro ano de medicina, mas venho lidando com isto de uma maneira ou de outra na maior parte da minha vida. Quando eu tinha seis anos, minha mãe percebeu que o meu joelho direito ficou de repente maior do que o esquerdo. Ela pensou que poderia ser uma infecção, mas não era. Na realidade, tratava-se de um osteosarcoma agressivo (câncer dos ossos) que precisou de muitos meses de quimioterapia e, por fim, a minha perna teve de ser amputada acima do joelho.

Esta é uma das histórias da minha vida, mas não é a única.

Decidi que seria direta com Rob. Não era confortável para mim encontrá-lo sem saber se ele sabia a respeito da minha prótese. Portanto, às 8h32 da noite, no meio da nossa troca de mensagens, escrevi: “Só para que não haja surpresas, você sabe que eu uso uma prótese em uma das minhas pernas, a direita?”

Vinte minutos mais tarde, ainda não havia recebido resposta. Em seguida, abri o Bumble, e vi que a nossa história de chat havia sido apagada, substituída por: “Rob encerrou o chat”.

Fiquei desnorteada brincando com o telefone e mandei uma mensagem com as primeiras palavras que me vieram à mente: “Isto foi muito agressivo”.

“Sinto muito”, ele escreveu.

Nunca mais voltamos a nos falar.

 Eu choro? Não.

Aquilo me feriu? Sim.

Os perfis do meu aplicativo de relacionamentos são cuidadosamente preparados, com fotos. A primeira e a segunda mostram apenas o meu rosto. Isto conta muito no mundo deste tipo de aplicativos. A minha terceira é mais ousada: eu estou ajoelhada. Um observador atento veria a minha prótese. A quarta não deixa dúvida: Estou de pé exibindo-a plenamente.

Nunca sei quantas fotos o sujeito olhou antes de simpatizarmos e começarmos a conversar. Ouvi dizer que depois que um cara simpatiza com você, alguns são mais diligentes e olham todas as fotos da mulher. Talvez isto explique por que simpatizo com caras que nunca começam a conversar ou me deletam depois de alguns minutos.

Desde que era mais jovem, aprendi que, sendo amputada, meu grupo de encontros seria menor. Na faculdade, gostava de sair com amigos para dançar. Frequentemente, um sujeito começava a conversar numa pista de dança superlotada, na penumbra, e às vezes ia buscar uma bebida para mim. Então, íamos ao andar de cima para um quarto iluminado para conversar, ali ele olhava para baixo e via minhas pernas embaixo da minha saia e dava uma desculpa para ir embora.

Um rapaz que não foi embora me disse que uma amiga em comum o havia alertado antes de nos apresentar, dizendo: “Você sabe que ela tem uma perna só, certo?”

Não era convidada para festas com a finalidade de conhecer outros caras. Eu não podia usar sapato de salto por causa do ajuste do meu tornozelo protético. E precisava tomar cuidado ao beber para poder subir e descer as escadas sem nenhum perigo nas festas nas casas. Tinha de planejar tudo na minha cabeça, todas as vezes.

Nos aplicativos de relacionamentos, não pretendo explicar como foi que perdi a perna. Na realidade, contar para os outros como a perdi é a última coisa que quero fazer em um aplicativo de encontros. Às vezes, digo: “Tive câncer nos ossos quando era mais jovem”. Colocando a coisa de maneira simples.

Sinto que me retraio quando me respondem: “Que chato!”, “Sinto muito”, “Você deve ser muito forte”.

Nos aplicativos não quero que pensem que sou tão forte. Não quero falar em quimioterapia; na realidade preciso estar muito disposta para este tipo de coisa. Nos aplicativos, só quero saber se sairemos para jantar ou tomar um drinque na sexta à noite

Quando lembro do Rob, tenho a sensação de ter desviado de uma roubada, mas também fico pensando no que aconteceria se tivéssemos tido um encontro, se eu não tivesse mencionado a perna. Os amigos concluem imediatamente que ele não era para mim, e têm razão. No entanto, teria sido bom se tivéssemos nos encontrado? Talvez.

Duvido que Rob tenha saído alguma vez com uma garota amputada antes. Imagino que os caras que não têm garotas amputadas em suas vidas têm ideias próprias a respeito de sair com uma assim. Muitos têm preconceitos a respeito de mulheres como eu – eles nos veem como amigas em potencial, mas não como namoradas em potencial.

Se eu não tivesse mencionado a perna, Rob e eu teríamos nos encontrado para um jantar. Quando eu chegasse, talvez o apanharia com a guarda baixa por causa do meu andar claudicante, enquanto se daria conta da minha prótese. Talvez ele não percebesse naquele momento. Mas não teria nenhuma outra escolha senão conversar comigo, pelo menos por algum tempo, como uma pessoa de verdade. E a minha esperança seria que, daquela noite em diante, sempre que Rob visse mulheres amputadas, não poderia mais escapar em equívocos sem fundamento e generalizações a respeito de quem nós somos.

Ele teria de encarar isto. Talvez lembrasse de mim e pensasse na noite em que nos encontramos, e talvez pensasse como tudo isto era tão pouco importante. Mesmo que acabasse o relacionamento mais tarde, o simples fato de conseguir humanizar a abstração teria sido válido. Será que uma pessoa não pode mudar uma vez? Afinal, na minha vida, há muitos Rob.

Rob não sabe, e nunca saberá, que eu ando com uma prótese acima do joelho 16 horas por dia, como estudante de medicina. Não sabe que nado duas vezes por semana, que faço parte de um grupo de escalada adaptável, que posso esquiar com uma perna só e nos finais de semana gosto de ir dançar.

Ele não sabe que sou uma conselheira de acampamentos de verão para jovens amputados, ou que planejo eventos para a educação de pessoas que perderam membros em todo o país. Ele não sabe que mostrar minha prótese em público não me constrange, que eu me preocupo com o meu corpo, e que viajo com total independência.

Desde aquele episódio, não menciono minha perna nas conversas nos aplicativos de relacionamento. Não tenho vontade de emitir logo um alerta a respeito de mim mesma. Não quero gastar o meu tempo pensando em como deixar outros rapazes mais confortáveis quando se encontrarem comigo. Não quero mais fazer isto.

Recentemente, lembrei de um Rob diferente que conheci anos atrás, um sujeito que trabalhava em um banco de investimentos com quem me encontrei por algum tempo. No nosso segundo encontro, sentamos no Morgenstern para tomar sorvete. Ele olhou minha perna, eu olhei para ele, e ele disse: “Você não precisa me dizer nada a este respeito. Isto depende de você”.

Aquela noite, eu o beijei. Ele terminou comigo algumas semanas mais tarde porque afirmou que eu merecia algo muito melhor – uma conversa típica, imagino, de quem tenta ir em frente, mas não consegue.

Mas ele estava certo. Eu merecia e mereço algo melhor.

Entretanto, acho bom lembrar daquela noite para não esquecer: eu não preciso contar a minha história para ninguém. Sentir-se à vontade com o meu corpo sempre será responsabilidade dele, não minha. E quando se tratar de abrir o seu coração deixando de lado os seus temores e preconceitos? Essa responsabilidade também é dele. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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