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Sentindo-se solitário? Usar orelhas de gato talvez possa ajudar
Erik DeLapp, The New York Times - Life/Style

15 de fevereiro de 2021 | 05h00

A primeira vez que encontrei Jessica pessoalmente foi quando ela saiu pelas portas de correr do Aeroporto Internacional de Minneapolis-Saint Paul vestindo uma saia esvoaçante, colares de contas e um saco de papel na cabeça.

Minhas primeiras palavras para ela foram: “Jessica! Por que você tem um saco na cabeça?”

Nosso primeiro contato havia sido um ano antes, em uma praça de pedras brancas com vista para o oceano sob um céu sem nuvens, mas não havia cheiro de água salgada, nem brisa do oceano. Nós nos conhecemos como avatares em Final Fantasy XIV, um jogo de RPG on-line multiplayer.

Ela era nova na cidade e parecia um pouco perdida, então me teletransportei para a localização dela e perguntei se poderia ajudar.

Seu nome era Zutki, o meu era Nabian. Éramos ambos Miqo’te, uma “raça” de pessoas com orelhas de gato e rabos peludos. Pela internet, nós nos sentíamos muito próximos, mas no mundo real estávamos a mais de 3 mil quilômetros um do outro, eu em Minneapolis e ela em Miami.

Os jogos on-line para vários jogadores, ou M.M.O.s, envolvem mundos virtuais povoados por milhares de avatares controlados por pessoas reais. (Você provavelmente já ouviu falar de World of Warcraft, um dos mais antigos.) Ao contrário dos videogames tradicionais, estes são mais como segundas vidas: sempre mudando, com coisas acontecendo depois de o jogador fazer logoff e, principalmente, com experiências sociais voltadas para a equipe.

Hoje em dia, quando as pessoas perguntam como Jess e eu nos conhecemos, digo “on-line”, mas sempre fico um pouco envergonhado com isso. Não nos conectamos por meio de um aplicativo de relacionamento, como a maioria das pessoas presumiria. No Natal, eu esperava escapar dizendo à minha família que nos encontramos na Internet.

“Qual foi o site?”, minha mãe perguntou.

“Digo depois”, respondi.

O namoro virtual pode ter perdido seu estigma, mas eu não tinha certeza de como explicar que o encontro on-line para nós significava criaturas com olhos de lua e orelhas de gato na costa de Limsa Lominsa enquanto jogávamos no PlayStation 4.

Embora, a meu ver, encontrar com alguém em um M.M.O. seja mais parecido com um encontro na vida real do que usar um aplicativo de relacionamento. Você não é julgado por um perfil destinado a apresentar suas melhores características. Há mais espaço para ser você mesmo, para encontrar alguém por acaso.

A vantagem mais óbvia de se encontrar alguém em um M.M.O. é a descoberta de um interesse em comum desde o início. Com isso, surgem muitos outros relacionados possivelmente: outros jogos, fantasia e ficção científica e, no caso de Final Fantasy, cultura japonesa e anime.

E há outro benefício: para ter sucesso no jogo, os jogadores devem trabalhar juntos para superar desafios difíceis. É fácil ter uma noção de quão bem alguém se ajusta à equipe, quão altruísta ou egoísta alguém é e suas habilidades de comunicação.

Como Zutki e Nabian, Jess e eu participamos juntos de muitas aventuras antes que as conversas se tornassem mais íntimas: exploramos masmorras, lutamos contra monstros, corremos com chocobos (pássaros grandes e parecidos com galinhas). Nada romântico, mas gostávamos da companhia um do outro. Ela me fez rir falando como um pirata: “Pronto para essa missão?” "Sim!" Vestíamos nossos personagens com roupas ridículas - armadura de metal pesada com óculos escuros e sandálias - e dançávamos na praia.

Quando ela e eu nos conhecemos no jogo, tinha me separado há pouco tempo de uma companheira com quem dividi o teto por três anos e estava morando sozinho, sentindo-me solitário e deprimido. Era bom rir com alguém, mesmo que a pessoa fosse um jogador anônimo, alguém que eu não tivesse visto ou ouvido.

Na verdade, passaram-se meses até que eu escutasse a voz de Jess. A primeira vez que conversamos foi sobre um serviço de chat de jogos. Um nome de usuário apareceu no canal e esperei que ela encontrasse um microfone funcionando.

"Oi?", eu disse.

“Oi,” ela respondeu com um leve sotaque que me surpreendeu. Você nem sempre pensa em como a voz de alguém soa ao ler o que ele escreve. Além de algumas palavras digitadas em espanhol, havia poucos indícios de que ela fosse, de fato, uma falante nativa de espanhol. Gostei mais de descascar essas camadas de identidade do que de postá-las na página de um perfil de usuário.

Percebi algo diferente, meses depois de nos conhecermos como Zutki e Nabian, quando nossos personagens se viram vagando pelos deques de uma cidade à beira-mar, sentados a uma mesa com vista para o porto. Estávamos digitando mensagens no modo privado. Ela estava me contando sobre como sua mãe criou três filhos sozinha, como seu pai estava afastado da família e frequentemente com problemas legais.

Enquanto eu me sentava em minha cadeira observando nossos avatares na tela, percebi que estava em um encontro. Mas, ao contrário de um encontro real, não precisei me preocupar com a linguagem corporal, roupas ou com uma resposta rápida. Em vez disso, eu estava sentado de pijama, digitando cuidadosamente cada resposta.

Em algum momento, decidimos começar a trocar mensagens de texto fora do jogo, o que mudou tudo. Antes, nossas interações eram limitadas ao tempo em que nossos dois avatares ficavam on-line. Quando um de nós se desconectava, nosso avatar desaparecia e não podia ser encontrado até que ele fosse conectado novamente. O máximo que podíamos fazer era enviar cartas virtuais um para o outro para receber na próxima vez em que estivéssemos conectados.

Agora, podendo enviar mensagens de texto, estávamos conectados o tempo todo. Tendo já passado inúmeras horas juntos no mundo virtual, sabíamos que tínhamos quase a mesma idade. A primeira pista real de que ela estava interessada em mim como mais do que um amigo jogador veio logo depois que começamos a enviar mensagens de texto.

Certa noite, eu estava deitado no sofá quando meu telefone tocou com uma mensagem dela: "Qual é a sua altura?"

“1,75”, digitei. "Por quê?"

"Eu sou alta para uma garota."

Aprendi duas coisas então - que ela tem 1,72 e prefere homens mais altos do que ela.

Não muito depois, compartilhamos fotos nossas.

Após quase 18 meses de comunicação on-line, decidimos nos encontrar pessoalmente, ou como às vezes chamávamos isso, “no servidor da vida real”. Ela comprou uma passagem de avião para Minneapolis. À medida que se aproximava sua chegada, fui tomado pela ansiedade. E se ela for totalmente diferente pessoalmente? E se não nos sentirmos atraídos um pelo outro? E mesmo se isso não acontecer, qual é a viabilidade de namorar alguém que vive tão longe? Como posso explicar isso para minha família?

Ela também estava preocupada. Ao telefone, ela disse: “Sou gorda e feia”.

“Sou careca e magro", respondi.

"E se você não suportar minha cara de idiota?" ela perguntou.

"Vou apenas colocar um saco na sua cabeça", eu disse, "e fingir que você é Zutki."

No dia de sua chegada, ela saiu do aeroporto com um saco de papel de verdade na cabeça, caminhando às cegas. As pessoas olhavam para ela incrédulas enquanto eu ficava constrangido com a cena que ela estava causando.

Mas quando ela tirou o saco, relaxei. Lá estava minha parceira de jogo com olhos de lua e cauda de gato, exceto que na vida real ela era a mulher que eu tinha visto nas fotos: uma latina de pele clara e cabelos escuros com uma tatuagem de girassol na clavícula.

Um ano depois, após mais algumas visitas, ela se mudou de Miami para Minneapolis para viver comigo. Nosso primeiro ano juntos não foi fácil. Experimentamos todas as brigas e claustrofobia que você não vê no mundo virtual, onde o estresse da coabitação não existe.

De certa forma, conheci a mesma pessoa duas vezes. Na primeira vez, conheci a pessoa por trás do avatar, mas sempre no contexto do jogo: alguém que cumprimentava outros jogadores com um abraço animado, que ficava horas sentada apenas conversando com amigos on-line sobre seus problemas da vida real. Mas conhecê-la pessoalmente revelou a mulher que é voluntária em abrigos de animais, faz questão de preparar o jantar de Ação de Graças para toda a família, toca violão, canta e compõe música.

Quanto mais vivemos juntos, menos tempo passamos juntos no jogo. Às vezes quase me esqueço daquele dia em que Zutki e Nabian se conheceram no mar pixelado. E está tudo bem. Prefiro pensar em Jess e Erik e nas memórias que construímos no mundo real.

Nós nos casamos em Miami em fevereiro de 2020, poucas semanas antes de a pandemia tornar os M.M.O.s um dos lugares mais seguros para se reunir em grandes grupos. No dia seguinte à cerimônia, demos uma longa caminhada por Miami Beach, que estava com uma brisa refrescante e sem pixels. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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