Modern Love: Eu conheci meu marido na maternidade
Kadine Christie, The New York Times - Life/Style

22 de março de 2021 | 05h00

A história do meu nascimento, que também é minha história de amor, começou há quase 40 anos, na cidade montanhosa de Spalding, Jamaica. Ela me foi contada várias vezes por duas mulheres que estavam lá naquele dia de abril - minha mãe, Lorna, e uma estranha, Lurline, que estava prestes a dar à luz na mesma enfermaria.

Minha mãe e Lurline viviam em cidades distantes uma da outra e viajaram separadamente para o hospital em Spalding. Na época, os homens não ficavam na maternidade, então meu pai, Vivian, um agricultor, e o marido de Lurline, Jeral, um pastor, não acompanharam os partos. Esperava-se que Lorna e Lurline dessem conta do trabalho de parto sozinhas, com a ajuda de enfermeiros e médicos, é claro.

Essas jovens eram da primeira geração a ter a opção de dar à luz em um hospital, ambas haviam nascido em casa, em condições precárias. O Hospital Percy Junor, em Spalding, não ostentava instalações modernas. Não havia refeições em bandejas higienizadas. Os pacientes deveriam levar sua própria comida, preferencialmente em recipientes que conservassem a temperatura, se quisessem que estivesse quente. As grávidas também tinham que trazer seus pijamas, lençóis e até fraldas de pano para seus recém-nascidos.

Havia poucos ou nenhum médico que tivesse estudado no país. Cuba tinha as escolas médicas mais próximas. Esses médicos cubanos que haviam estudado em Cuba eram assistidos por enfermeiros jamaicanos que comandavam a maternidade, movendo-se rapidamente entre as cortinas transparentes que separavam as camas. Não havia privacidade.

Lorna e Lurline estavam nervosas em suas camas vizinhas. Embora as cortinas as separassem, elas estavam conectadas pelo medo do parto, e foi esse medo que as levou a começar a conversar.

Minha mãe foi a primeira a entrar em trabalho de parto, que começou com uma dor aguda que só se intensificou. Conforme Lurline conta, minha mãe começou a gemer e chorar e rapidamente passou a murmurar palavras ininteligíveis em agonia.

Lurline já havia ultrapassado a data provável de parto e acreditava que seu bebê deveria estar nascendo. Movendo-se na cama, ela colocou os pés inchados e trêmulos no chão e, segurando seu abdômen protuberante, cambaleou até a cabeceira de Lorna. Com seu marido pastor, Lurline era uma mulher religiosa, uma mulher de oração. Ela e Jeral lideravam uma pequena igreja nas montanhas Cascade, então ela orou por minha mãe ao lado de sua cama.

Mais tarde, ela me disse que testemunhar a agonia de minha mãe era como assistir a um corpo sendo dividido em dois; minha mãe gemia e se debatia como se estivesse possuída. Lurline estava vendo um parto pela primeira vez e isso a aterrorizou de verdade. Ela não orou apenas por sua nova amiga, mas também por si mesma, pelo que ela logo teria que suportar, enquanto segurava a mão de minha mãe durante cada contração e respirava com ela em uníssono.

Essas mulheres tinham crescido em uma época em que assuntos como sexualidade e parto não eram discutidos, nem mesmo entre mães e filhas, então ela não estava nem mentalmente nem emocionalmente preparada. Os enfermeiros não tinham pena das mães de primeira viagem e não ofereciam conforto.

Os enfermeiros não perceberam, entretanto, que minha mãe corria grave perigo. Ela estava com hemorragia e ficando letárgica, com as pernas tremendo. Lurline me disse que o marrom da íris de minha mãe chegou a se mover até ficar visível apenas o branco do olho, e sua mente parecia ir e voltar da consciência para a inconsciência.

Quando o corpo de minha mãe ficou imóvel, os enfermeiros, finalmente cientes do perigo, ocuparam-se ao seu redor enquanto a noite caía. Ainda demoraria muitas horas até que minha mãe ouvisse o choro de seu bebê - meu choro - pela primeira vez.

Na segunda-feira, 13 de abril de 1981, minha mãe acordou ao me ver sendo colocada em seus braços, mas ela estava desesperadamente fraca, e os enfermeiros decidiram que ela precisaria permanecer no hospital mais quatro noites para observação. A felicidade de minha mãe não tinha limites. Minha chegada segura foi o suficiente para acalmar o medo que a havia levado ao limite.

Agora era a vez de Lurline, e o peso de sua gravidez estava começando a esgotá-la. Ela pensava que estava emocionalmente preparada para dar à luz a seu bebê, mas ver o que minha mãe suportou a fez titubear ao pensar em passar por tudo aquilo.

Então o médico chegou com más notícias: seu bebê estava pélvico e precisaria ser extraído cirurgicamente. Lurline não havia pensado nessa possibilidade, mas o médico explicou que sua vida e a do bebê estavam em perigo. Ela talvez tivesse até que escolher entre as duas. As palavras "sua vida ou a de seu bebê" a aterrorizaram.

Lurline lutou com essa escolha enquanto o aviso do médico martelava sua mente. Ela pensou nos dias conturbados, porém carinhosos, de seu casamento, na vida que florescia dentro dela e no momento em que esperava finalmente ter a manifestação física de seu amor e de Jeral. Isso ainda aconteceria agora? Enquanto sua mente oscilava entre as visões de vida e morte, ela se voltou para sua única fonte de consolo - a oração - e, ao fazer isso, tomou uma decisão: a vida do bebê tinha que ser salva.

Lurline sofreu sozinha com a gravidade dessa decisão. Apesar da ausência do marido no hospital, eles administraram a vida juntos e começaram a construir uma casa para a família que estavam formando. Eles cuidavam de uma fazenda e de uma igreja. Jeral havia percorrido um longo caminho até o hospital quando chegou a hora de sua esposa dar à luz, mas ele não teve permissão para ficar na maternidade, então voltou para casa.

Enquanto Lurline estava deitada na cama, ela se preocupou sobre como Jeral reagiria se chegasse para levar sua família para casa e descobrisse que apenas seu filho havia sobrevivido. Ela imaginou seu rosto perplexo com as palavras do médico, viu as mãos dele estendendo-se para ela em desespero e negação, apenas para confirmar que sua esposa estava, de fato, ausente de seu corpo.

Lurline puxou o ar pelo nariz pensando no presente: sua igreja, seu marido e a vida que carregava. Então ela expirou, como se estivesse abandonando tudo o que poderia ter acontecido: um longo casamento, filhos, seu futuro merecido. Colocando a mão na bíblia, ela olhou rapidamente para sua aliança de casamento. Ela não havia sido retirada desde que Jeral a colocara em seu dedo anos antes, mas decidiu tirá-la agora, o que exigiu muito esforço, pois seus dedos estavam inchados.

Assim que conseguiu, ela choramingou ao ver sua bíblia e a aliança de casamento. Em vida, ambos eram sua identidade, mas na morte seriam uma memória.

Se ela morresse, Lurline precisava que Jeral soubesse o que acontecera em seus últimos momentos. Ao se aproximar de minha mãe, segurando sua bíblia e aliança de casamento, ela se sentiu culpada por invadir um momento de tamanha felicidade, mas não tinha outra escolha. Ela não queria chorar, mas ao ver minha mãe me segurando, os olhos de Lurline se encheram de lágrimas. Ela colocou o anel e a bíblia nas mãos de minha mãe com o pedido de que Jeral as recebesse se ela não sobrevivesse à cirurgia.

Esses símbolos de amor e compromisso pareciam cimento nas mãos de minha mãe. Ela respirou fundo e concordou com a cabeça. Mesmo que minha mãe não percebesse o tamanho da preocupação de Lurline, ela sabia o quão profundamente havia aprendido a apreciar a nova amizade entre elas.

Lurline tinha mais um pedido para minha mãe, que era para que ela lesse sua passagem favorita da bíblia, Salmo 35. Enquanto a anestesia viajava pelo corpo de Lurline, as palavras lidas por minha mãe infiltraram-se na consciência de Lurline: "Defende-me, Senhor!"

Na quarta-feira, 15 de abril, dois dias depois de minha mãe ter me dado à luz, uma nova vida emergiu com segurança da cesárea, um menino chamado Ontonio.

Com quase seis quilos, Ontonio era o assunto da enfermaria - ninguém nunca tinha visto um bebê tão pesado. Suturada com pontos, dolorida da cirurgia e incapaz de se sentar ou se mover, Lurline descansou ao lado de sua nova amiga, Lorna. O parto de Lurline foi tão traumático e fisicamente cansativo que ela precisaria de tempo para se curar.

Por isso, a enfermeira tirava Ontonio da mãe e o entregava à minha, que embalava, acariciava e cantava para nós dois - eu, Kadine e o filho de Lurline, que com o tempo, embora vivêssemos a horas de distância, seria meu companheiro de brincadeiras na infância, depois, minha paixão adolescente e, agora, meu marido há 15 anos.

Juntos, Ontonio e eu chegamos a este mundo e, juntos, quatro décadas depois, com três filhos nossos, continuamos a nos deleitar com seus mistérios e milagres. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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