Modern Love: Dois encontros com o cara errado
Kayla Ringelheim, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 05h00

Quando meu match do Hinge disse em nosso primeiro encontro que queria um relacionamento sério, uma casa com cerca e filhos em breve, pensei: “Talvez eu deva apresentá-lo a Zerrin”. Ela, minha amiga querida, também queria algo assim. Eu não poderia saber que mais tarde naquela mesma noite, em uma cidade de oito milhões de habitantes, Zerrin tinha um primeiro encontro agendado com o mesmo homem.

Eu também não sabia o que queria, mas uma casa e filhos com esse indivíduo não me impactaram de imediato. Este foi o meu primeiro encontro como uma pessoa vacinada, ainda virtualmente da segurança do meu apartamento. Era o início de uma noite de sexta-feira, durante a mesma semana em que as flores de cerejeira de Nova York se abriram, e os vibrafones do jardim botânico ressoaram para mim no momento da homenagem às vítimas da Covid.

Naquele fim de semana, sentei-me em meu apartamento por horas fazendo meu trabalho em um local de meditação para cultivar a intuição, fazer amizade com o trauma e me libertar - ou algo assim. Passei a maior parte dos últimos 15 meses sozinha fisicamente e comungando emocionalmente com meus entes queridos em uma tela, então o que seriam mais alguns dias? Passei a maior parte dos últimos 15 anos em relacionamentos sérios com alguns homens diferentes que, em vários momentos, acreditei serem a pessoa certa para mim. Eu tinha certeza disso a cada vez - até não ter mais.

O professor de meditação me convidou a desacelerar o suficiente para ouvir o som da intuição do meu corpo, como se minha vida dependesse disso, porque depende.

"Não é fácil", ele reconheceu. O professor de meditação - um queer, HIV positivo e agora sobrevivente de duas pandemias cruéis - está vivo e grato por cada respiração.

Na noite de segunda-feira, eu concordei com um segundo encontro com o match do Hinge, desta vez pessoalmente. Quando ele perguntou se eu queria uma terceira rodada de bebidas, a voz em meu corpo disse: “Se você quiser ir para o apartamento dele, diga que sim”.

"Claro", eu disse.

A primeira coisa que notei quando entramos em sua casa foram os retratos de mulheres nuas nas paredes. ”

"Será que é seguro?" Eu me perguntei. “Sim”, pensei. "Ele é um artista, e os retratos são bonitos, não assustadores". Então, passei a noite.

De manhã, enquanto ainda estávamos na cama, ele traçou nosso plano para cinco anos, prometendo que eu poderia me “divertir” por mais um ano morando sozinha antes de encontrarmos nossa casa. Um amigo generoso mais tarde me diria como isso era perturbador.

Sentado na cama após seu exercício de planos para cinco anos, perguntei-lhe por quais traumas ele estava passando. Apesar de ser filha de assistente social, ou talvez por causa disso, ainda não aprendi a fazer essa pergunta com delicadeza, ou melhor, ainda não aprendi a não fazê-la.

“Na verdade, estou muito bem”, ele disse.

Eu queria saber sobre a voz em seu corpo, que aprendi que o mantém acordado na maioria das noites com sua tagarelice ansiosa. Morando longe de sua família e divorciado de uma mulher que amou, ele tinha um buraco negro no peito tão evidente que eu já podia sentir sua gravidade tentando me puxar.

A voz em meu corpo disse: "Essa pessoa pode te sufocar".

Na tarde de terça-feira, eu descobriria mais tarde, ele cancelou um segundo encontro com Zerrin no último minuto porque estava com dor de garganta. A dor de garganta era por causa de uma noite longa e uma conexão profunda com outra mulher, algo que ele confessou a Zerrin de forma honesta, mas não solicitada.

Zerrin, é claro, não sabia que a outra mulher era eu. (Nem eu.) Mas ficou confusa e irritada. Ele tinha sido tão afetuoso e proativo com ela - tão decidido a construir uma vida de aventura juntos, o que era música para seus ouvidos depois de anos de encontros em Nova York.

“Isso não parece certo", seu corpo disse a ela.

Naquela mesma terça-feira à tarde, depois de deixar seu apartamento ainda sob o feitiço da conexão humana reativada, pensei: "Bem, vocês têm algumas coisas em comum, e você não pode ter tudo, então talvez ele seja O cara." Afinal, ele gosta de música folk; eu escrevo música folk. Além disso, sempre que ele compra uma camiseta nova, doa uma do armário, assim como eu! E quando ele perguntou com que tipo de fruta eu mais me identifico, e eu disse, "manga", ele disse, corretamente, "Ah, você deve ter uma pele delicada, um interior doce e um núcleo forte."

Às vezes, são esses alinhamentos deliciosos, mas acidentais, que nos enganam a pensar que fomos feitos um para o outro.

Em 24 horas, graças a uma sessão de terapia, ao exame intestinal de um amigo e à minha intuição, eu sabia que ele não era, de fato, O cara - uma correção de rumo da qual me orgulho. Demorou apenas algumas horas desta vez, não anos.

Logo depois que eu disse a ele que era melhor terminarmos, ele remarcou seu segundo encontro com Zerrin, que acredita em segundas chances. Durante o jantar no mesmo restaurante que ele havia me levado, no entanto, Zerrin também sentiu que o amor dele era do tipo que poderia sufocar, então ela foi para casa, e eles também terminaram.  

Duas semanas depois, Zerrin e eu decidimos enfeitar nossos rostos com glitter e batom brilhante para uma noite comendo queijo grelhado em uma esquina tranquila nos deliciando com coquetéis caros sob o pôr do sol. Quando chegamos ao restaurante, ficamos surpresos ao encontrar nossa amiga em comum, Hannah, sentada do lado de fora. Ela estava lidando com um péssimo encontro com um homem que não usava capacete enquanto andava de bicicleta na cidade, embora ele tivesse perdido uma articulação e um dedo do pé em seu último acidente de bicicleta.

Escutei com todo o coração enquanto Zerrin descrevia a recente jornada de congelamento de seus óvulos. O inchaço, a dor nas costas, a exaustão. A canção de amor que ela cantava para seus ovários todas as manhãs. O carinho que os amigos faziam em sua barriga desejando sorte. O privilégio de um local de trabalho acolhedor e dinheiro para consultas médicas diárias. O desejo profundo de nutrir a vida.

Em meio às lágrimas, ela sussurrou sobre o constrangimento de precisar de uma apólice de seguro para o amor. Os médicos colheram 34 óvulos dela, um para cada ano de sua vida, o máximo que eles já tinham visto em um útero. “Sinto que já sou mãe”, ela me disse.

Enquanto isso, Hannah informou ao cara de seu encontro ruim que ela tinha que levar o cachorro para passear e, em seguida, deu a volta no quarteirão até que ele finalmente foi embora de bicicleta sozinho e desprotegido, e nós dissemos que era seguro voltar.

Quando Hannah se juntou à nossa mesa com um grande sorriso e demonstrando insatisfação com o encontro, fiz uma oração silenciosa pelo doce presente que era nossa amizade. Passamos a próxima rodada debatendo se uma faísca é um pré-requisito para a devoção eterna. Se a química pode surgir lentamente ou deve ser sentida ao primeiro toque. Se nossos corpos são confiáveis na busca por alguém digno de nossa energia, de nosso trabalho.

Enquanto conversávamos sobre outros encontros, Zerrin mencionou de passagem o nome do estranho com quem pensei brevemente em me casar depois de um total de 21 horas em sua presença. Eu disse a ela que recentemente tinha saído com alguém com o mesmo nome, um homem que realmente pensei em apresentar a ela antes de perceber que deveria poupá-la.

“Espere,” ela disse. "Você encontrou com ele numa segunda à noite?"

"Sim, eu acho que sim. Nosso segundo encontro foi na noite de segunda-feira. O primeiro encontro foi na sexta-feira anterior. Mas no início da noite - apenas um encontro pelo FaceTime. Por quê?"

Observei Zerrin e Hannah se olharem lentamente e caírem na risada. “Oh meu Deus,” Zerrin gritou. "Você é a outra mulher!"

Em uma cidade de oito milhões de habitantes, 35.000 de nós podem morrer de uma praga, enquanto outros ainda estão "muito bem".

Em uma cidade de oito milhões de habitantes, duas amigas queridas podem, sem saber, começar a namorar o mesmo homem na mesma noite e, de forma independente, ambas concluírem que ele - apesar de dizer algumas coisas certas - não é digno de nosso amor.

Em uma cidade de oito milhões de habitantes, um homem que demonstra falta de cuidado com sua preciosa vida em uma bicicleta no trânsito urbano também pode não saber como cuidar da vida de outras pessoas, e as amigas aparecem exatamente quando precisamos de sua proteção.

Em uma cidade de oito milhões de habitantes, é difícil encontrar O cara. A matemática é vertiginosa - tantas opções, sempre outra opção, nunca a opção certa. Disseram-me para seguir meu instinto e dar segundas chances. Viver um pouco e voltar para casa em segurança. Para congelar meus óvulos e não se preocupar. Nunca se acomodar, mas sempre se comprometer.

Pelo que vale a pena, eu realmente sei que meu corpo é confiável. Ainda estou aprendendo sua  linguagem. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES 

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
casamento

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.