Modern Love: Ela era apenas mais um delivery de dor bem embalado?
Judith Fetterley, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2021 | 05h00

Eu tinha 67 anos. Ela tinha 67. Já sabendo o quanto precisava saber sobre vinho branco, ela não entrou na aula até a conversa mudar para os tintos. Eu estive lá durante a palestra sobre os brancos e as sessões sobre as borbulhas. Agora eu estava pronta para o tinto.

Eu tinha me juntado à classe para ajudar uma amiga doente e quase sempre presa em casa que precisava de estímulo, pensando que as saídas seriam boas para ela, mas nesta noite minha amiga estava doente, então eu fui sozinha.

Depois de entrar no prédio da escola onde o curso ocorria por uma porta desconhecida, me perdi por segundos no labirinto de corredores que os alunos de alguma forma contornavam todos os dias. Eu vaguei, ficando cada vez mais angustiada a cada curva errada, procurando, mas não encontrando a sala em que o curso de vinhos ocorria.

E então eu a vi: esta mulher maravilhosa, lindamente vestida com uma capa de chuva estilosa e botas elegantes, caminhando pelo corredor, decidida, segura de si mesma, seu cabelo branco curto com pontas roxas. Eu tinha certeza de que ela estava indo para o curso de vinhos, então eu a parei para me orientar. Ela me disse qual direita, depois esquerda, depois direita, pegar. Então ela disse: "Você não se lembra de mim, lembra?"

"Sara!" Eu disse, de repente reconhecendo-a como alguém que eu havia conhecido anos antes em uma festa.

Ela entrou no banheiro e eu segui suas orientações perfeitas para a sala de aula.

Depois da aula, a classe se dispersou para uma loja de vinhos local para receber instruções sobre o paladar. Sara e eu nos conectamos enquanto provávamos, descobrindo nosso amor mútuo por vinho tinto, ópera, filmes tarde da noite e jardins.

O curso acabou, mas Sara e eu continuamos nos encontrando para um jantar ou café ocasional. Nós até conversamos sobre ver uma ópera em Nova York quando o Met abriu sua temporada de outono.

Uma tarde, quando combinamos de nos encontrar, Sara se atrasou. Eu estava na cafeteria, olhando pela janela, ansiosamente. Eu pensei ter visto ela chegar, e meu coração disparou. Percebi que não era ela e meu coração afundou.

Tanto entusiasmo seguido de tanto desapontamento - o que isso poderia significar? Só uma coisa: acordei para o fato de que estava me apaixonando.

Eu fiquei apavorada. Não me considerava uma candidata ao amor. Era mercadoria danificada, descartada alguns anos antes pela minha companheira de 17 anos, que me trocou por uma mulher mais jovem. "Judy!" gritou meu amigo, Ron, quando soube da traição. “É tão horrível quanto os homens!”

Eu tinha entendido a mensagem: eu não era digna de amor e não merecia ser bem tratada. Da carnificina, eu também havia decifrado outra mensagem: eu confiava nela completamente e me enganei totalmente.

Achei que soubesse quem seria fiel e verdadeiro. Errado. Achei que soubesse quem seria bom para mim. Errado de novo. Achava que era uma pessoa capaz de manter um relacionamento a longo prazo. Novamente, errado. Em matéria de relacionamentos íntimos, era óbvio que eu não era confiável para escolher bem ou com sabedoria.

Minhas incursões pelo mundo do Match.com e Lesbian Lovefinder apenas reforçaram minha sensação de que relacionamentos íntimos não eram mais possíveis para mim. Se eu sentisse o menor movimento de atração, recuava, convencida de que havia encontrado outro delivery de dor bem embalado. Eu não podia confiar nos outros e não podia confiar em mim mesma.

Desde meu primeiro acampamento de verão, eu sempre estava apaixonada por alguém. Agora, na minha sétima década, eu via o amor como uma zona de perigo e me sentia mais segura estando sozinha, preparada para viver na terra dos amores perdidos pelo resto da minha vida.

Eu tinha visto essa terra alguns anos antes em uma pintura pendurada na sala de jantar de uma pousada em Stratford, Ontário. Enquanto estava sentada tomando café da manhã, olhei para cima para ver uma pintura de uma cena grande e melancólica da pradaria de Alberta, um campo marrom e um céu cinza. No meio do campo havia um tronco de árvore com um machado embutido nele. Na borda da pintura havia um galo, olhando para o tronco.

“Esta pintura tem um título?” perguntei ao nosso anfitrião.

Amores Perdidos”, ele disse.

A terra dos amores perdidos, sem nenhuma galinha, se estendeu diante de mim também. Mas então conheci Sara, e Sara era diferente. Nunca conheci uma pessoa com tanta integridade. Isso me atraiu. Assim como a maneira com que ela franzia o rosto quando ria, e o leve sotaque do Sul que eu podia ouvir quando ela falava sobre Ida Reds, a única maçã que ela usaria para fazer molho de maçã.

Eu queria propor que passássemos para uma conexão mais íntima, mas temia a aceitação quase tanto quanto a rejeição, certa de que meu corpo frágil se quebraria em centenas de pedacinhos se eu tocasse alguém novamente como amante.

Além disso, e se eu propusesse uma conexão mais íntima e ela não estivesse interessada? Eu a perderia como amiga? Eu não queria ofendê-la.

Comecei a me identificar com o homem bom dos romances de Jane Austen, aquele que nunca colocaria uma dama na posição incômoda de ter que rejeitá-lo se ela não retribuísse seu afeto, então ele nunca abordava ninguém até ter certeza de que sua afeição seria correspondida. Já que as damas, entretanto, eram treinadas para nunca mostrar seu afeto até que fossem abordadas por um homem, fazer a corte provou ser uma dança difícil, de fato.

Minha própria dança era igualmente difícil. Procurei por sinais de que Sara pudesse compartilhar meus sentimentos para que eu pudesse falar de minha crescente afeição por ela.

Passamos uma tarde deliciosa visitando um jardim em Beacon, N.Y. No meio do passeio, encontramos uma casa na árvore e subimos nela, depois deitamos nos bancos oferecidos para o descanso. Nesse ambiente íntimo e de alguma forma romântico, tentei falar sobre relacionamentos.

"Sara, quem você diria que foi o amor da sua vida?"

"Por quê?", ela disse com uma voz meio arrastada, "acho que teria que dizer que foi meu gato, Bo." Ela franziu os olhos, desta vez para abafar uma risada.

Eu queria dizer: “Experimente comigo!” Mas não ousei.

Por dentro, eu estava agitada. Por fora, obcecada. Perguntei a amigos com quem nos socializávamos se eles achavam que Sara poderia ter um interesse romântico por mim. Ninguém conseguiu encontrar qualquer sinal de seus sentimentos em relação a mim, positivos ou negativos. Claro. Sara também estava canalizando o Sr. Knightly.

Estávamos em um impasse. Compartilhando minha frustração com minha melhor amiga, que já tinha ouvido tudo isso antes, muitas vezes, acabei provocando-a a falar. “Uma de vocês,” ela anunciou, “vai ter que fazer algo. Está ficando chato. Coragem, baby, diga a ela como você se sente. "

Comecei a escrever uma carta para Sara. Falei de minha admiração por ela, minha atração por ela, meu interesse em explorar um relacionamento romântico com ela. Eu perguntei se ela compartilhava esse interesse. Escrevi e reescrevi, e amigos leram e releram, e então escrevi um pouco mais.

Eu queria ser clara sobre meus sentimentos, mas tinha que dar a ela uma maneira graciosa de recusar meu convite. Finalmente, mais de um ano e meio depois daquela noite na aula de vinho tinto, coloquei a carta no correio, dirigi para o aeroporto e voei para Milwaukee para visitar meu irmão.

“À flor da pele” nem começava a descrever meu estado de nervos enquanto eu pensava nas possíveis consequências de ter falado. Fazendo alguns simples alongamentos de ioga na primeira manhã de minha visita em um esforço para controlar meu estresse, ouvi um estalo na parte inferior das costas. Eu estava inundada na dor, então percebi que não conseguiria me levantar sem ajuda. O centro local de atendimento de urgência forneceu oxicodona e a orientação para que eu fizesse uma ressonância magnética assim que chegasse em casa.

Quando Sara ligou naquela noite para dizer “sim”, eu estava delirando de muitas maneiras.

Não esperava encontrar o amor de novo, e certamente não tão tarde na vida. Especialistas em envelhecimento dizem que se apaixonar é nosso maior perigo. Mas e quanto ao perigo de não se apaixonar?

Claro, minha pele terá inchaços, crostas e manchas marrons, e é claro que minhas mãos terão artrite, mas se elas estiverem presas pelas de Sara, posso enfrentar o que vier. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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