Modern Love: Ele se importava comigo, então terminei com ele

Modern Love: Ele se importava comigo, então terminei com ele

Quando você está acostumada com a montanha-russa de emoções de relacionamentos ruins, fica difícil acreditar em qualquer outra coisa

Jessica Slice, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2021 | 05h00

David disse que sabia que eu estava interessada por causa da minha linguagem corporal. Eu me virei para ficar de frente para ele no pequeno banco de madeira, colocando meus pés embaixo de mim e descansando meu braço no encosto. Ele estava carregando uma mochila e falou sobre Studs Terkel e perguntou se eu queria emprestado o livro de Joan Didion Slouching Towards Bethlehem.

No entanto, ele interpretou mal minha linguagem corporal. Eu não estava tentando mostrar que estava interessada. A verdade é que os bancos machucam meu corpo, e virar para o lado dele era a única maneira de fazer com que sentar ali fosse tolerável. Por causa de minhas doenças - síndrome de Ehlers-Danlos, um distúrbio genético doloroso do tecido conjuntivo e disautonomia, que afeta minha capacidade de sentar, ficar em pé, digerir e regular a temperatura - muitas posições são dolorosas ou impossíveis de sustentar por mais de um minuto ou dois.

Ao inclinar-me para trás contra as ripas de madeira com David naquele dia eu tinha empurrado minhas costelas para fora do lugar, e elas doíam. Minha pelve machucada latejava na superfície firme. Virar para o lado me permitiu ajustar meu peso na parte mais carnuda do meu traseiro e usar meu braço para me afastar da madeira.

Isso foi há seis anos, em Berkeley, na Califórnia, para onde me mudei devido ao seu clima ameno, o que tornava a vida em minhas condições mais toleráveis. Estava frio e ele vestia várias camadas - uma camiseta, flanela, suéter, jaqueta, cachecol e chapéu. Eu usava um cardigan de lã comprido por cima de uma camiseta.

Quando ele viu minhas mãos ficando roxas, ele tirou seu cachecol e o enrolou em volta do meu pescoço. Comecei a contar uma história sobre um incidente assustador no BART (sistema público de transporte rápido) e me interrompi para mencionar que a coisa toda poderia ter sido minha culpa porque sentei em um assento interno, deixando o assento do corredor aberto para assediadores.

Ele me interrompeu aí. "O que quer que tenha acontecido", ele disse. "Você não foi culpada."

Eu tinha começado a história como uma anedota do tipo “A vida na cidade é uma loucura, né?”, mas algo mudou então. Ele já se importava. Ele estava prestando atenção.

Algumas semanas depois, enquanto comíamos tacos de peixe em Oakland, contei a ele sobre minha deficiência. Sobre a tontura e náusea e a cadeira de rodas no meu porta-malas. Ele se inclinou, memorizando cada detalhe, e seus olhos se encheram de lágrimas.

Um mês depois, ele me deixou em um estúdio de música onde me enrolei em um sofá de couro com o cachorro da minha querida amiga Nataly e Um teto todo seu e ouvi a banda dela, Pomplamoose, gravar um álbum. Eu tinha massageado minha têmpora no carro e ele percebeu. Eu disse que estava sem ibuprofeno, mas era só uma pequena dor de cabeça. Quando ele me pegou, uma garrafa de água e um pacote de Motrin esperavam em meu assento.

E então, quatro meses depois de nos conhecermos, terminei com ele. Ele estava do lado de fora de um cinema, vestindo seu cardigan, mochila e sapatos de barco, e eu não aguentava mais um minuto. Seu amor sincero se tornou repulsivo. Imaginar a maneira que ele queria cuidar de mim - a inevitável lealdade, aceitação e proteção - encheu minha garganta de bile.

David é bonito e engraçado. Cada coisa nova que aprendia sobre ele me impressionava mais - sua humildade inflexível desmentia seu intelecto e confiança. Beijá-lo era natural e nossas conversas eram fáceis.

No entanto, eu terminei a relação.

Comparei o que sentia por David com a maneira com que ansiava por homens que me deixavam esperando, e descobri que faltava intensidade em minha paixão por David. Os outros homens evitavam falar sobre minha deficiência. Estavam sempre atrasados. Eu ainda não tinha percebido que incerteza não é a mesma coisa que amor.

No primeiro dia sem David, senti que finalmente poderia respirar. Minha amiga Ellie e eu dirigimos pelo vento das estradas de Marin até Stinson Beach.

“Às vezes as coisas simplesmente não dão certo”, eu disse a ela.

Dia 2, enquanto eu descansava nua em uma plataforma de sequoia no quintal da casa secreta com banheira de hidromassagem de Berkeley, a dúvida começou a surgir.

No caminho para casa, parei em uma loja de fios e comprei um pouco de lã fofa de cor cinza que havia sido colhida de ovelhas locais. Eu faria um cobertor enquanto decidia o que fazer. Usei o primeiro carretel e percebi que precisaria de um pouco mais se quisesse um cobertor maior do que um lenço. Comprei mais dois, rindo de mim mesma pois estava prestes a fazer um cobertor de $90. Eu trabalhava no cobertor e pensava em David.

Eu pensei em enviar uma mensagem de texto para que ele soubesse que eu estava tendo dúvidas sobre minha decisão, mas não fiz isso - não era seu papel lidar com minha incerteza. E o cobertor ainda estava muito pequeno. Comprei fios de novo, de novo e de novo.

No final da semana, havia gasto $390 dólares no cobertor. Uma tolice para uma pessoa desempregada que morava no quarto de hóspedes de um casal. Dobrei-o com cuidado, amarrei-o com uma fita e enviei um e-mail para David: “Podemos conversar?”

Ele concordou em me encontrar no Lago Merritt.

Sentamos em uma toalha perto da água a alguns quarteirões de seu apartamento. O cobertor estava no meu colo e eu ficava mexendo nele, olhando para David e voltando os olhos para baixo. Minha respiração ainda falha quando imagino seu rosto na época, magoado, seguro e cético. Ele esperou, em silêncio, enquanto eu tentava formar uma frase.

“Me desculpe”, eu disse. "Eu deveria ter conversado com você antes de terminar."

“Você tem razão”, ele disse.

"Acho que cometi um erro", eu disse, desviando o olhar.

Minhas palavras estavam confusas enquanto eu tentava explicar que, ao me deparar com o potencial para um relacionamento saudável, meu corpo e mente entraram em pânico. Que, ao invés de me sentir confortada por uma parceria leal, eu me senti enojada e com medo. Eu disse que estava conversando com meu terapeuta sobre isso e acho que era porque o que ele ofereceu não era familiar. Até aquele ponto, meus relacionamentos mais próximos eram marcados por incertezas e perdas, e eles pareciam, perversamente, seguros.

Ele acenou com a cabeça, paciente. E então explicou que fazia sentido para ele. Ele tinha ouvido minhas histórias de relacionamentos anteriores e, depois que terminei com ele, ganhou um livro do Dr. Robert Firestone chamado The Fantasy Bond. Ele pensou que eu poderia estar tentando recriar o trauma e a incerteza de anos anteriores.

O Dr. Firestone diz que, ao invés de questionar suas circunstâncias, as crianças se culpam por sua dor. Não apenas se culpam, mas também começam a esperar perdas e solidão. Diante de uma nova versão na idade adulta, minha visão de mundo ficou ameaçada.

David leu o livro para entender por que eu estava partindo seu coração, sem nenhuma expectativa de que eu iria mudar de ideia ou de que voltaríamos a conversar.

Seis anos se passaram desde aquela conversa. O cobertor agora fica no assento da nossa janela, ao lado dos binóculos que usamos para observar os animais que vagam pelo nosso quintal - raposas, patos, gansos, coelhos e, uma vez, um lobo.

Meses depois de eu ter dado a ele o cobertor e termos saído para comer batatas fritas com alho, eu continuava querendo fugir. Na terapia, lamentava por não estar experimentando uma obsessão que me consumisse. Eu simplesmente me sentia aquecida, segura, em casa. Não foi fácil se apaixonar por David, mas eventualmente tornou-se fácil ficar.

David é bom para mim, todos os dias. E eu sou gentil com ele. Rimos com frequência. Lemos os textos um do outro e conversamos até tarde da noite. Os últimos anos trouxeram incêndios florestais, hospitalizações e a pandemia, mas nosso compromisso não vacilou. Somos gentis e generosos um com o outro.

Às vezes, eu olho para trás com saudade de meus romances montanha-russa com homens que não me ligavam de volta, homens de quem eu tive que me esconder. Onde o amor era apenas desejo e não pertencimento. As palavras cortantes e sentimentos fragmentados. A euforia de ficar junto novamente depois de uma separação.

Crescemos acreditando que o mundo que experimentamos é o mais natural. Questionar nossa experiência imediata não é algo adaptativo quando somos crianças, porque se nossa vida não é segura, para onde podemos ir?

Como adulta, procurei situações que me trouxessem de volta aos meus primeiros anos. Qualquer outra coisa parecia muito estranha para ser confiável.

Pedi desculpas a David por não termos vivido o animado romance inicial que ele merecia. Por causa da minha angústia, ele perdeu os meses mágicos e cheios de hormônios que costumam marcar o início de um relacionamento.

Às vezes, ainda sinto uma pontada quando alguém menciona seus primeiros dias flutuantes de amor, a vertigem, a emoção, a bolha de invencibilidade. Mas há outros tipos de magia. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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