Modern Love: Eu daria qualquer coisa para segurar suas mãos de novo

Modern Love: Eu daria qualquer coisa para segurar suas mãos de novo

Marido e mulher encontram uma maneira de falar com seus filhos sobre um acontecimento indescritível

Jessica Alexander, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 05h00

Poderia ter sido qualquer dia de janeiro - o ar fresco, o céu claro. Mas naquela manhã em Tóquio, onde morávamos na época, acordei com o peso que este dia trazia desde que conheci meu marido, Andy, quase oito anos antes.

Ele já havia saído para correr.

Tirei nossos gêmeos de 4 anos da cama, abri uma caixa de giz de cera e disse a eles que íamos fazer um cartão para o papai. Eles não perguntaram o porquê, e eu não disse a eles que era para que ele sentisse nosso calor e carinho neste dia, o aniversário do pior dia de sua vida. Eles desenharam corações coloridos e eu escrevi “Nós te amamos” em letras grandes.

Quando Andy voltou, um de nossos meninos correu para a porta, com o braço esticado, orgulhosamente entregando-lhe nossa criação.

"Obrigado, gente", Andy disse com um sorriso, seus olhos me perguntando: Por que isso?

“Porque é hoje”, eu disse.

"O que tem hoje?" ele perguntou, enxugando o suor da sua testa.

"Hoje. Você sabe -"

Ele se deu conta: este foi o dia em que sua primeira esposa e seus dois filhos morreram no terremoto no Haiti, dez anos antes. Seu corpo murchou e seu rosto, ainda brilhante da corrida, se enrugou.

Em seguida, as mensagens começaram: “Pensando em você”. "Enviando amor." A cada toque de seu telefone, ele me olharia com uma cara de súplica, como se dissesse: “Como todas essas pessoas podem se lembrar, exceto eu?”

Claro, ele nunca esquece. Ele me diz que eles estão com ele todos os dias; imagino suas memórias como um cobertor pesado enrolado em seu coração, mantendo-o aquecido e em terra firme.

Ele racionalizou que seu esquecimento naquele dia honrou quem eles eram, porque eles não queriam que ele ainda chorasse ao som das risadas das crianças, ainda vacilasse entre a tristeza, a raiva e o vazio.

“Esquecer” também significava que ele estava presente de uma forma que antes era inimaginável - acordar sem pavor, sair para uma corrida despreocupada, sentar-se para comer torradas e ovos com sua família.

Nossos meninos não sabiam sobre o passado de Andy. Ele e eu nos conhecemos dois anos após o terremoto, quando nossos trabalhos coincidiram. Com o tempo, Andy e eu nos apaixonamos, casamos e tivemos filhos gêmeos. Quando os meninos completaram 3, depois 4 anos, descobri-me pesquisando online: “Qual é a idade certa para falar com as crianças sobre a morte?”

Eu me perguntei quando eles perguntariam sobre os outros dois meninos em fotos emolduradas nas nossas estantes ou os reconheceriam na geladeira de sua avó - as fotos que não mudavam a cada nova temporada de beisebol ou recital de dança como as dos outros netos. Esses dois rostos nunca envelhecem.

Quando olhei para meus filhos - seus sorrisos de dentes de leite e os pulsos ainda rechonchudos de gordura de bebê - só pude imaginar quem eles seriam daqui a alguns anos. Andy sempre se perguntava o mesmo sobre seus primeiros filhos. Um mês de agosto recente marcou quando o mais velho, Evan, faria 18 anos. Ele iria para a faculdade? Como sua voz soaria?

Naquela tarde de agosto, tínhamos acabado de almoçar perto de um lago próximo à nossa casa quando Andy se virou para mim e disse: "Vou contar a eles."

Fiquei ansiosa, sem saber como os meninos iriam reagir, mas também tranquilizada pela calma de Andy. Levantamos e começamos a caminhar ao longo da margem do lago quando Andy parou e disse: “Meninos, tenho uma coisa para contar a vocês”.

Eles adoravam suas histórias e correram na direção dele, cada um segurando uma mão.

“Há muitos anos”, ele disse, “quando trabalhava em um país chamado Haiti, eu morava com meus dois filhos e a mãe deles. Meus filhos tinham quase a idade de vocês - Baptiste tinha quase 5 anos e Evan tinha 7. Hoje é o aniversário de Evan, na verdade; ele teria 18 anos. Um dia, houve um grande terremoto.” Ele explicou o que era um terremoto, com placas tectônicas e tudo. “Eu estava no trabalho e Evan, Baptiste e a mãe deles, Laurence, minha esposa antes de sua mãe, estavam em casa.”

Quando o terremoto começou, Andy explicou, eles não conseguiram sair do prédio antes que ele desabasse, e os três morreram.

Fiquei tensa observando se os meninos ficariam com medo ou surpresos, ou se ao menos registrariam o que ouviam.

“O que significa desabar?” um deles perguntou.

“Olha, um peixe!” disse o outro, apontando.

Andy respondeu cuidadosamente a todas as perguntas, então respirou fundo e disse: "Vamos nadar".

Vestimos maiôs e pulamos na água fria, os meninos batendo na água atrás das pedras e rindo. Eles não pareciam absorver a gravidade da perda, ou quão corajoso seu pai era. Provavelmente lhes pareceu apenas mais uma história.

De volta para casa, tiramos as fotos de Evan, Baptiste e Laurence de nossas prateleiras, apresentando aos meninos os rostos que eles sempre tinham visto no apartamento. Nas semanas seguintes, Andy compartilhou detalhes sobre eles que percebi que ele carregava sozinho esse tempo todo.

Logo Andy começou a introduzir as memórias de sua primeira família em nossa vida cotidiana. “Evan e Baptiste adoravam esse livro”, ele dizia antes de se preparar para contar uma história que havia lido para nossos filhos inúmeras vezes antes de dormir. Ou quando nos reuníamos no sofá para assistir a um filme, e ele nos dizia que era o favorito de Evan e Baptiste.

"Eles também ficavam com medo?" perguntou um dos gêmeos.

“Com certeza.”

Uma noite de verão, enquanto caminhávamos do parque para casa, os meninos puxavam nossas mãos com entusiasmo, puxando-nos para um lado e para outro, até que Andy puxou sua mão para longe destes puxões incessantes. Então ele imediatamente se encolheu e estendeu a mão novamente, dizendo-me mais tarde: “Eu fico tão bravo comigo mesmo por fazer isso”.

“Por quê?”

"Porque eu daria qualquer coisa para segurar suas mãos de novo."

Como neste exemplo, às vezes não percebo como suas interações conosco são moldadas pelo arrependimento por coisas que ele gostaria de ter feito de forma diferente e por sua tristeza por coisas que ele ainda desejava poder fazer. Mas também são moldadas pela percepção de que hoje ele tem outra chance.

Muitas vezes penso na ex-esposa de Andy - sou mais velha do que ela era quando morreu aos 40 anos - e como ela teve sua vida roubada. Não deveria ter me surpreendido quando os meninos fizeram o mesmo com seus meios-irmãos.

Depois de perder o primeiro dente, um dos gêmeos perguntou: "O Baptiste alguma vez perdeu um dente?" E eles contavam aos amigos durante o almoço sobre como Evan pronunciava manteiga "manleiga". Quando completaram 5 anos, queriam saber se Baptiste alguma vez teve festa de 5 anos e passaram a pedir mais detalhes sobre o que aconteceu, tentando entender. Mas muito do que aconteceu não é compreensível.

"Por que sua casa quebrou, papai?"

"Por que eles estavam em casa e você não?"

“Por que seu escritório não caiu?”

Essas perguntas perseguiram Andy durante anos, mas quando saem da boca de seus filhos inocentemente curiosos, ele me diz que consegue enfrentá-las com mais facilidade, o que ajudou a aliviar sua culpa persistente. Um dia eles podem perguntar sobre seu desespero, e talvez ele explique as muitas dimensões de sua dor. Por enquanto, poder falar dos fatos é o suficiente.

Certa manhã, depois que um dos amigos dos meninos dormiu em casa, todos nós nos sentamos para comer panquecas quando o amigo notou uma foto emoldurada de Evan e Baptiste em uma gangorra e disse: "Quando você foi lá?"

“Não somos nós”, disse um dos gêmeos. “São os outros filhos do papai, Evan e Baptiste. Eles morreram no terremoto no Haiti quando o prédio caiu em cima deles.”

“Ah, como quando o urso foi esmagado pelas pedras naquele desenho animado”, o amigo disse. Ele tinha apenas 5 anos - que outra referência ele poderia ter?

“Não é um desenho animado”, disse nosso filho. “Foi real. E não é engraçado. ”

Eu pensava que ele e seu irmão haviam perdido a noção da gravidade do ocorrido, mas ele entendeu. E pela primeira vez, Andy não teve que respirar fundo e reunir forças para contar a história novamente. Seu filho tinha feito isso por ele.

Neste ano, na noite anterior ao aniversário do terremoto, Andy estava triste, disperso, enquanto preparava o jantar.

"O que há de errado, papai?" perguntou nosso gêmeo mais velho.

“Amanhã é o aniversário do terremoto”, ele disse. "Estou pensando em Baptiste, Evan e Laurence."

"Amanhã vai ter um terremoto?"

"Não, querido, amanhã é apenas o aniversário. E estou triste."

“Ah", disse nosso filho, e acrescentou rapidamente: "Mas você também tem sorte, papai."

Andy olhou para cima. "Sorte?"

"Sorte de ter encontrado a gente." Sua voz estava alta e sua cabeça inclinada, como se estivesse perguntando.

Andy me olhou incrédulo. Nosso menino pode não ter entendido o significado de um aniversário, mas podia compreender a ideia de renovação.

Andy o pegou nos braços. “Sim, meu menino”, ele disse. “Eu sou o mais sortudo.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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