Modern Love: Minha vida entre duas casas e várias mochilas
Natalie Muñoz, The New York Times - Life/Style

28 de março de 2021 | 05h00

Tenho 15 anos e sou filha única. As pessoas que me conhecem geralmente não pensam que sou filha única porque falo com a velocidade de alguém que sempre teve que competir por espaço em uma conversa, como se eu tivesse dez irmãos. Mas não é isso, simplesmente sou assim.

Cresci na Califórnia, em um bairro legal, com bons amigos e dois pais amorosos, brincando ao ar livre com meu pai nos fins de semana e lendo livros com minha mãe durante a semana. Tenho estado muito sozinha, mas não solitária. Eu nunca precisei de nada que não tenha recebido e tudo o que desejo frequentemente se torna realidade. E tudo isso, eu acho, é o motivo pelo qual o divórcio dos meus pais me afetou tanto.

Há sete anos, meus pais entraram na sala de estar uma noite e desligaram a TV. Eu estava assistindo meu programa favorito, um reality show em que pessoas acima do peso competem para ver quem perde mais quilos, The Biggest Loser. Fiquei aborrecida no começo e, depois, confusa quando eles começaram a explicar como seu casamento não estava funcionando e como iriam se separar, mas continuariam amigos.

Processar o divórcio dos pais para qualquer filho, mas especialmente para um filho único, é muito parecido com passar pelos estágios do luto. E não quero ser dramática demais ou menosprezar a dor de perder um ente querido, mas quando você não tem um irmão ou irmã que lhe lembre de como era a vida um dia, que pode servir como um elo do passado para o presente, mantendo pelo menos parte da família inteira de alguma forma, existe apenas a dura realidade do agora. O divórcio, para mim, parecia como se algum familiar imaginário tivesse morrido, alguém que eu nem sabia que existia, mas que tinha o papel singular de unir nossa família.

No primeiro estágio, a negação, eu me recusava a aceitar que o divórcio dos meus pais estava acontecendo. Ia sem vontade nenhuma ver os imóveis que eles pensavam em alugar. Com um livro na mão ou comendo uma barrinha de cereal, eu fugia da realidade e acreditava verdadeiramente que eu voltaria para casa naquela noite, eles preparariam o jantar juntos na cozinha e sorrindo me diriam: “Desculpe-nos por ter feito você se preocupar com isso, querida. Está tudo bem agora”.

Só depois que cada um deles fechou negócio com imóveis diferentes e vendeu metade dos nossos móveis é que percebi que essa fantasia nunca se tornaria realidade. E assim que essa vida entre duas casas se tornou permanente, minha esperança rapidamente se transformou em inveja, principalmente no final do dia na escola, quando eu via amigos com ambos os pais. Ou durante a feira de ciências do sexto ano, quando eu tive que transportar meu vulcão inacabado entre as casas enquanto outros deixariam o deles intocado e guardado em seu porão ou garagem, esperando o momento de trabalhar nele de novo.

Então veio a depressão, exceto que não tenho certeza se era realmente depressão. Eu estava passando pelos primeiros estágios da puberdade, e quem pode dizer que foi o divórcio dos meus pais, e não os hormônios, que desencadearam meus sentimentos de desesperança? Durante esse período, passei muito tempo sozinha e me sentindo indiferente. Sempre respondia ao que me perguntavam com “Claro” ou “OK”. Eu não tinha opinião sobre nada, porque mesmo se tivesse, isso realmente mudaria alguma coisa? Não. O divórcio ainda seria definitivo e meu dever de casa ainda teria que ser entregue na manhã seguinte.

Passei boa parte das minhas noites imaginando uma vida diferente na qual meus pais não tivessem se divorciado. E como não havia ninguém por perto para colocar meus pés no chão nesses momentos, minha imaginação se tornou bastante criativa. Pensava em nós vivendo ainda juntos, na mesma casa, e eu podendo sentir a mistura do cheiro do perfume suave de minha mãe e do desodorante de meu pai durante as manhãs ao se esbarrarem enquanto se apressavam para começar o dia de trabalho. Ou na minha festa de aniversário de 10 anos, quando estive cercada por amigos e familiares sem qualquer tensão ou constrangimento.

Demorou muito para eu me libertar dessa fase de fantasia, e mesmo hoje não tenho certeza se estou totalmente livre dela. O luto não é linear. Você não recebe um cartão perfurado com um novo furo toda vez que passa por outro estágio. Mas com a ajuda de meus amigos e filmes e músicas de muitos grandes artistas, posso sem dúvida dizer que não estou deprimida.

Durante o verão, entre o quinto e o sexto ano, mudei de escola, saindo da bolha confortável de minha minúscula escola primária particular para a realidade escancarada de uma grande escola pública de ensino fundamental. Conforme o primeiro dia de aula se aproximava, não pude deixar de ficar animada com a oportunidade de me reinventar. Ao sair de um lugar onde todos conheciam cada detalhe da minha vida para uma escola onde ninguém sabia nada sobre mim, eu poderia me tornar quem eu quisesse.

Esse “novo eu” começou com o mágico desdobramento dos meus pais se casando novamente. Ou, na verdade, nunca tendo se divorciado. Não é que eu inventasse histórias, eu apenas excluía qualquer menção dos meus pais se separando das minhas conversas. Minha boa memória me ajudava a recontar férias em família que tiramos, lugares em que vivemos e tradições que tínhamos, como se isso ainda acontecesse. Fiz um acordo comigo mesma de que se eu pensasse que tudo isso era verdade, então se tornaria novamente.

O terceiro estágio, a barganha, continuou durante o ensino fundamental, mesmo quando outras crianças começaram a descobrir a verdade. As mochilas que eu levava para a escola, cheias de roupas e produtos de higiene pessoal, com certeza levantavam dúvidas. Mas continuei a esconder a verdade como uma forma de lidar com a situação. Descobri que se pudesse inventar o suficiente para criar a vida que queria, poderia me convencer de que ela era verdade. Mas isso nunca realmente funcionou.

Conforme meus pais se distanciavam e se acomodavam em suas próprias vidas, a minha ficou cada vez mais complicada. Sem a regularidade de ter pais com quem conversar na mesma casa, afastei-me mais deles e passei a confiar mais em mim para lidar com meus sentimentos. E se eu não conseguisse lidar com minhas emoções por conta própria, um programa ou filme teria que fazer as vezes de uma conversa profunda.

Essa experiência não é única, muitas crianças não sentem que têm um lugar dentro de suas famílias. No meu caso, eu não sabia se havia mesmo uma oportunidade para eu ter um lugar, porque eu não entendia como me encaixava quando se tratava da mudança de território com a minha família divorciada. Há algo sobre ouvir seus pais discutindo a respeito de quem pode estar com você nas férias de primavera que lhe faz sentir que não há espaço na conversa para suas próprias preocupações.

Agora, no segundo ano do ensino médio, ainda luto com a realidade do divórcio dos meus pais. Não é algo que jamais desaparecerá completamente, mas se tornou mais familiar e fundamentado do seu próprio jeito. Até comecei a me sentir confortável e com orgulho das rotinas que tenho de dominar: as mochilas que carrego e os ciclos de lavagem apressados que estou sempre escolhendo para ter certeza de que terei as roupas certas para usar na casa onde estarei. E sou grata por poder escrever sobre minha vida com o apoio de meus pais.

Ainda invejo meus amigos cujos pais permaneceram casados. A solidão e o ressentimento podem surgir durante as férias, mas aprendi a encontrar alegria neles também, agarrando-me às novas tradições que meus pais e eu estamos criando, mesmo que essas tradições ocorram em momentos separados e em lugares diferentes. Eu escolho apreciar as constantes em minha vida: a maneira como minha mãe estoura sua bola de chiclete (o que costumava me incomodar) e a obsessão de meu pai por luzes de Natal - todas as coisas peculiares que eles fazem que os tornam quem eles são.

Perder algo também permite que você abra espaço para novas pessoas e tradições. Aprendi a amar minha vida ao mesmo tempo em que aceito que esse aspecto importante dela nunca mudará. E as novas memórias que sou capaz de criar superam meu desejo de manter o que era antes.

Eu costumava chorar pela morte daquele familiar imaginário que desapareceu há sete anos, a presença que mantinha nossa família unida, a pessoa invisível que nos unia. E, desde então, percebi algo - essa pessoa sou eu. Eu sou o elo. Eu sou a maior constante em nossas vidas. Estive aqui desde o início e estou feliz que sempre estarei. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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