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Modern Love: Fazendo danças com minha mãe idosa na pandemia
Erika Shimahara - The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2021 | 05h00

Quando vejo minha mãe na tela segurando os seus alteres pink vivo de 450 gramas cada um, eu começo a tocar a música Circle of Life do cantor que ela chama “Elton Johns”. Começamos fazendo movimentos circulares com os ombros seguidos por círculos com os braços, passos laterais básicos e os socos para frente, os seus favoritos.

Ela está usando o blusão de ciclista do meu irmão dos dias em que estudava na universidade, há quase trinta anos. Sempre foi largo, mas agora a engole como um saco de lixo.

Há apenas um ano, minha mãe, uma mulherzinha atarracada de 84 anos, conseguia subir comigo os íngremes morros de São Francisco. Mas desde a pandemia, ela vacila um pouco, até caiu algumas vezes. Agora, na tela, ela tenta exercitar-se comigo, mas seus movimentos são lentos.

Escondendo minha angústia, grito por sobre a música: “Consegue levantar a perna mais um pouco, mãe?”

Antes do coronavírus, caminhávamos juntas todos os fins de semana até um café ou até o Lafayette Park, onde os cachorros brincavam e as pessoas praticavam tai chi, tendo como pano de fundo a Baía de São Francisco. Mas fazia um ano desde que a clínica de repouso dos meus pais entrou em lockdown, o que significava que fazia um ano desde que tínhamos nos visto pessoalmente.

Nos primeiros meses, eu a chamava várias vezes ao dia para saber como ela estava. “Mãe, você está bem?”, eu implorava para que ela mantivesse a mente e o corpo ativos. “Se você não se movimentar, vai se tornar um vegetal!”. “Veja o noticiário!”.

Perto do Dia de Ação de Graças, quando ficou claro que não poderíamos nos encontrar para o feriado, começamos a nos reunir no FaceTime para fazer ginástica, que chamamos em seu japonês nativo de taiso. Logo, descobri que não podia apenas chamá-la e  esperar que ela clicasse na tecla do seu computador para nos conectarmos. O processo exigia instruções passo a passo, lembretes e planejamento complicado.

Bem antes da pandemia, instalei uma câmera no apartamento dos meus pais na clínica para ficar de olho neles. Meu pai, que tem 85 anos, sofre de demência e é incapaz de andar sozinho, e estou preocupada com minha mãe também. Agora, tomo o cuidado de olhar no vídeo antes de chamá-la para ver se está cochilando, lavando roupa ou cuidando do meu pai adoentado.

Se ela está livre, chamo: “Oi, mãe! Quando vamos fazer taiso? E lembro a ela que busque os seus óculos de leitura de modo que, quando o computador ligar, ela possa clicar nas opções corretas. A câmera permite que eu veja se está no computador, mas não o que está na tela.

“Mãe, o que você está vendo?”, pergunto, “Uma tela preta? Alguma coisa verde que diz FaceTime?”

“FaceTime? Que botão?”

Nas primeiras semanas, eu precisava repetir as instruções cinco ou seis vezes. Se eu levantava a voz, minha mãe gentil e sempre tranquila se queixava. Imaginando mensagens dos meus colegas de trabalho acumulando-se em outra janela, meu coração acelerava.

“Não consegue ver?” dizia, então, sabendo que estava perguntando coisas que ela havia perdido a capacidade de fazer e eu me arrependeria de criticar.

Nos dias em que conseguimos nos conectar rapidamente, saboreio a vitória: “Ótimo, mãe! Conseguiu na primeira tentativa”.

Ela aparece na minha tela de óculos de leitura cor de turquesa que tornam os seus olhos exageradamente ampliados, como um desenho. O seu cabelo preso para trás é uma capa branca sobre uma camada de preto tingido, lembrança de quanto tempo faz que ela não consegue ir ao cabeleireiro.

O seu computador era o lugar que mais se sentia feliz. Durante horas, ela escrevia mensagens para as amigas ou fazia o rascunho do seu tanka, um gênero de poesia japonesa. Antes de ir para a cama, ela mandava mensagens para meu irmão e para mim, desejando-nos uma boa noite de sono, embora já tivéssemos falado por telefone. Mesmo quando já adultos a visitávamos, muito depois de termos nos mudado, ela gostava nos dar todo o aconchego, perguntando se estávamos suficientemente aquecidos. Agora, ela faz isto com meu pai.

Levou apenas alguns meses de lockdown para que ela perdesse todo interesse em seu computador. Quando começamos o taiso, eu precisava lembrá-la de onde estava o botão de ligar.

Agora que vivemos nessa situação há meses, ela precisa de menos orientação minha. Nos bons dias, conseguimos ouvir seis ou sete canções sem que o Wi-Fi congele ou a equipe interrompa ou meu pai precise de atenção.

Não conversamos muito durante o taiso. Eu aceno com um movimento e ela me segue. Começamos com músicas lentas e deixamos de lado os nossos pesos para as músicas mais rápidas. Eu a atraio com Circle of Life. Ela balança os braços acima da cabeça.

“É uma música triste”, ela diz, “mas gosto dela. O Elton Johns continua vivo?” e então: “Olha, meu braço não sobe tanto”.

Às vezes, ela corrige os meus movimentos, agitando os dedos como uma bailarina boba. Quando ela se sente particularmente bem, agita os braços na direção do teto, pedindo uma música mais rápida.

“Mãe”, falo. “Você pode fazer a sua imitação da lavadora?”. Ela era uma mestra de mímica. Sem hesitação, agita o tronco de lado, as mãos batendo, impassível. Indubitavelmente, ela ainda dá conta. “Vamos fazer este movimento”, digo, “então preste atenção”. Durante o coro de I Love You Always Forever de Donna Lewis, eu grito: “Lavadora!” e começamos a sacudir os nossos torsos em um ritmo agitado.

Em dezembro, enquanto agitávamos os nossos braços na musica Do They Know It’s Christmas? lembrei de quando era adolescente e berrava esta música com os meus amigos da escola. Fui jogada de volta ao meu quarto de criança – o tapete cor de pêssego, as paredes repletas de posters de Bruce Springsteen e da Nike: “Just Do It”.

Naquela época, enquanto o rádio tocava na nossa casa de Nova Jersey, mamãe estaria dobrando a roupa no sofá, enquanto fritava os legumes em óleo fervente para o tempurá, ou borrifava canela sobre bolos de café que havia preparado.

Agora, está se arrastando em casa com pequenos alteres vermelhos, olhando para mim com tal concentração que tenho de engolir as lágrimas.

Vejo muitas histórias no rosto de minha mãe: sua infância em um Japão devastado durante a Segunda Guerra Mundial; a mais nova e única menina de quatro irmãos; perdendo a adorada mãe para uma doença quando tinha 10 anos, trabalhando em fábrica nos Estados Unidos para manter a carreira de professor do meu pai na Rutgers; sendo insultada por colegas de trabalho por seu sotaque e por comer bolinhos de arroz no almoço.

As rugas ao redor dos seus olhos falam dos muitos anos durante os quais teve de levantar da cama às 5h30 da manhã para pegar a condução até Manhattan, onde era assistente em um escritório. À noite, seu trabalho continuava em casa, onde a aguardavam horas cozinhando, trabalhos domésticos e o cuidado dos filhos.

Quando eu trabalhava na cidade depois da faculdade, ela e eu pegávamos o metrô perto de casa juntas e ocasionalmente nos encontrávamos para um lanche, comendo nossos bolinhos de arroz no banco perto de uma janela no World Financial Center. Em ocasiões especiais, nos regalávamos com o bufê do almoço do Hilton onde nos empanturrávamos até que as nossas saias pareciam cintos.

Agora, sua testa franzida denuncia a preocupação constante por meu pai, que tem dificuldade de comunicar suas necessidades. Ou sua confusão acumulada pelo longo confinamento: “Não sei mais o que está acontecendo”, ela diz. “Quando é que isto vai acabar?” Mas em seus momentos de taiso seu rosto diz: “Estou com você. Sei fazer isto”.

Aproveito o momento. “Mãe, consegue fazer ainda a sua imitação do leão marinho?”

Ela começa, os cotovelos colados nas costelas com as mãos batendo desleixadamente com os seus bobs na cabeça.

“Isso!”, digo, e ambas rimos.

No final de uma boa sessão, ela se acomoda em sua poltrona com os braços largados, fecha os olhos e sorri.

“Isso aí, mãe!” digo, mas o que quero é abraçá-la.

O taiso nem sempre sai bem. Quando minha mãe está deprimida ou confusa, ou quando eu fico frustrada por suas lutas com a tecnologia, fazemos caretas durante os movimentos ou os pulamos. Mas faço este esforço quase todos os dias, na esperança de reviver uma parte de minha mãe que temo estejamos perdendo. O taiso não substitui as nossas conversas nem me livra da minha paranoia sempre presente, mas nos concede uma recuperação momentânea, uma espécie de santuário virtual.

Se não fosse a covid, nunca teria sabido que eu e minha mãe podemos nos divertir juntas sem na realidade estarmos no mesmo lugar. Recentemente, começamos a trabalhar os movimentos do leão marinho no início de Open Your Heart, de Madonna. Ela é o leão marinho mãe, e eu sou o bebê, e nós nos conectamos, não importa o que aconteça. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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