Modern Love: Nadando contra a corrente de salto alto e calças skinny
Rachel Stevens, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2021 | 05h00

Não consigo parar de pensar nos salmões. Recentemente, tivemos a temporada de desova de salmão aqui em Seattle, e eu pude vê-la pela primeira vez. Não sou uma cientista, muito menos bióloga marinha, especialista em peixes ou mesmo uma aquarista educada pelo YouTube, mas aqui está o que aprendi: é lindo.

Os salmões devem saber que estão perto da morte, então eles nadam contra a corrente com o que sobrou de sua energia. Lá, as fêmeas encontram um local seguro para construir um ninho, o que fazem com a cauda, movendo-se em torno de lama e pedras para fazer um lar perfeito. O macho então vem cortejá-la, e quando a fêmea encontra um macho de que gosta, põe seus ovos no ninho e seu macho preferido os fertiliza.

Deixada sozinha com seus ovos recém-incubados, a fêmea então se deita em cima ou ao lado de seu ninho e morre para que os nutrientes de seu corpo possam alimentar seus bebês.

Ela literalmente morre por eles. É incrível.

A primeira vez que engravidei, assisti - angustiada - ao aborto espontâneo que ocorreu no banheiro da agência de publicidade onde trabalhava. A gravidez foi precoce, mas eu já estava apaixonada. Minha negação foi forte naquela manhã. Senti que algo estava errado, mas fui cedo para o escritório mesmo assim, esperando que tudo desse certo. Essa sempre foi minha maneira de conseguir o que queria. E eu queria tanto um bebê. Logo me vi no banheiro, olhando para o que tinha saído de mim. Berrando.

Se eu pudesse morrer e dar meu corpo para manter a gravidez, teria morrido. Em vez disso, minha vida continuou. Limpei minha maquiagem, voltei ao trabalho, participei de uma reunião importante, depois pedi licença e fui ao meu médico. A gravidez acabou e eu fiquei nadando em águas escuras, me perguntando o que fiz de errado.

Seis meses depois, eu estava grávida de novo. Eu estava duas vezes mais grávida do que quando houve o aborto, o que significa que ainda era uma grávida muito recente, o que significa que poucas pessoas sabiam. Meu chefe, que não estava entre eles, perguntou se poderia conversar comigo. Havíamos perdido nosso maior cliente. Eu estava sendo dispensada. Às 11 da manhã, caminhei por um longo corredor, saindo do trabalho para o mundo. Eu estava perdida.

Em termos de salmão: eu estava nadando contra a corrente de salto alto e calças skinny, com um drink em uma das mãos e um clicker de PowerPoint na outra. E quando chegou a hora de ter um bebê, e o rio me disse que eu tinha que deixar tudo isso para trás para que meu antigo eu morresse de forma difícil, eu virei um peixe chocado.

Eu engravidei, fui despedida e senti como se estivesse morrendo. Saí do escritório e me vi vagando pelo centro de Seattle. Liguei para meu marido, contei a novidade e disse: “Existe um virgin manhattan?”

Minha filha nasceu no início da pandemia - 17 de março de 2020. Família logo significou algo completamente diferente para nós. A sobrevivência parecia mais real do que nunca. Nós nos recolhemos e nos tornamos uma família unida em nosso ninho, ficando o mais seguro que podíamos.

Nunca havia sido um ninho, mas agora eu me movia em torno de sujeira e pedras para fazer de nosso apartamento um ninho seguro e aconchegante. Foi aqui que me apaixonei de verdade por minha filha Marcelline. Também descobri um novo amor por meu marido, Evan, quando, depois de uma noite particularmente difícil, sugeri que mudássemos o berço de Marcelline de seu lado da cama para o meu. Já que ele estava apenas passando o bebê para que eu alimentasse, não fazia sentido que perdesse tanto sono quanto eu.

Evan balançou a cabeça e disse: "Eu gosto que ela fique perto de mim."

Quando minha mãe veio nos ajudar por quatro meses, também vi seu amor de uma maneira nova. Ela nunca se frustrou com Marcelline, que chorava sem parar enquanto minha mãe a abraçava e cantava para ela. Quando Marcelline adormecia, minha mãe pedia um travesseiro para apoiar o braço que segurava a cabeça do meu bebê. Então elas se sentavam e se balançavam por horas.

“Você fazia isso comigo?” Eu perguntei.

Ela acenou com a cabeça e sorriu. Não me lembro da minha resposta, mas tenho certeza que estava chorando. Eu chorava muito nessa época. Eu fui a primeira filha de minha mãe, e ela não pôde deixar de rir de minhas aflições e de me abraçar com mais força durante minhas reais preocupações. Ela havia aprendido comigo, e agora eu aprendia com ela, assim como o salmão retorna anos depois para desovar no mesmo riacho em que eclodiu. Eu acho que há uma atração natural para voltar ao lugar de onde você veio, quando você estiver pronto para construir sua própria vida.

Eu realmente alimentei meu bebê com meu corpo. Entendi, salmão. Daremos tudo para ajudar este ser que amamos a sobreviver e prosperar. E eu sei que para alguns pais, é uma fórmula; para outros, é o leite materno de outra pessoa. Para mim e minha filha, foram meus seios.

Eu consegui outro emprego, em uma rádio pública. Tive que tirar meu leite materno no estúdio para manter Marcelline alimentada. Para fazê-la pegar a mamadeira, tive que me esconder no chão do meu quarto enquanto minha mãe passeava com ela pelo apartamento, tentando fazer com que essa nova forma de alimentação fosse ingerida sem a fonte original de leite à vista.

Durante uma reunião pelo Zoom para meu novo emprego, me convenci de que poderia trabalhar um pouco mais sem tirar leite, apenas para vê-lo escorrendo pela minha camisa. Naquele dia, morri de vergonha. Posso não ter me tornado uma carcaça de ossos sobre meu bebê, mas morri de vergonha para alimentar minha filha.

Poucos dias depois de ver a desova do salmão, ficou claro que Marcelline não queria mais mamar no peito. Já fazia um tempo que ela havia pedido para mamar - "ma?" - e eu pude sentir meu corpo secando. Na cama com ela naquela manhã, decidi perguntar diretamente para ela. Puxei minha camisa e disse: "Você quer mamar?"

Marcelline olhou para os meus seios nus da mesma forma que olho para um cardápio de tapas, pensando: “É isso que eu quero? Isso vai me ajudar? "

“Na maaa!” ela disse, e eu fechei minha camisa e foi isso. Alimentar meu bebê com meu corpo havia acabado.

Naquela noite, eu tomei um verdadeiro manhattan. (OK, tomei dois. Tudo bem, três.) Evan juntou-se à comemoração por eu ter meu corpo de volta, erguendo seu próprio manhattan. Mas também havia uma tristeza em não ser mais capaz de mostrar esse tipo de amor físico, de alimentar o corpo do meu bebê com o meu.

Ao imaginar a eclosão de um ovo de salmão, vejo-me perguntando: este bebê peixe sabe que os ossos próximos pertenciam à sua mãe? Que ela deu seu corpo para que seus filhos pudessem viver? Ou o bebê sai nadando, perguntando-se que cheiro é aquele, só para perceber mais tarde, no final da vida, que agora lhe é pedido o mesmo: “Ah, eu realmente tenho que morrer por essa nova vida que estou criando. O que deve significar que minha mãe teve que nadar contra a corrente e morrer por mim também. ”

Essa bela tradição da desova é algo que vai ficar comigo. Na maioria dos dias, me sinto completamente irreconhecível em relação à pessoa que era há apenas três anos. Mas então Marcelline chega ao meu lado com um livro, ou vejo-a tomar mamadeira com uma das mãos enquanto dança uma música que toca no rádio, e penso: “Ah, aí estou eu”.

Já morri várias vezes pela minha filha e só posso imaginar quantas vezes minha própria mãe teve que morrer por mim. Mas estou pronta. Nadar é difícil, nosso ninho é uma bagunça, mas esta vida que estou dando a minha filha - a qualquer custo para meu corpo, sanidade e orgulho - é a melhor maneira de morrer. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
mulher

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.