Eu tinha desistido de arranjar um namorado. Aí entrei num aplicativo de encontros casuais

Eu tinha desistido de arranjar um namorado. Aí entrei num aplicativo de encontros casuais

E se o caminho mais rápido para o relacionamento sério for evitá-lo com todas as forças?

Gregory Walters, The New York Time - Life/Style

09 de novembro de 2020 | 05h00

Já perto dos 25 anos em Vancouver, concluí que minhas opções de encontro casual na cidade estavam esgotadas. Tinha pescado muito no aplicativo Plenty of Fish e usado todas as minhas flechas no OkCupid. Uma lesão boba na mão me forçou a me aposentar da liga gay de vôlei e me via caminhando sozinho sempre que aparecia para uma caminhada gay marcada no aplicativo Meetup.com.

Embora estivesse me sentindo ousado o bastante para fazer contato visual com homens no calçadão da cidade e nos cafés – finalmente – era só porque eles haviam parado de olhar na minha direção. Eu podia olhar – ou até encarar, se quisesse – mas ninguém notava.

Eu precisava terminar aquele relacionamento com a minha cidade. Mais de duas décadas antes, tinha decidido me mudar para Vancouver vinte minutos depois de chegar de Los Angeles para passar o fim de semana. Agora, ao decidir partir, já não me deixaria levar por sonhos e caprichos.

Meu instinto muitas vezes se provara ser uma bússola nada confiável. Eu precisava basear as decisões na lógica e no planejamento. Comecei rejeitando Victoria e Ottawa, por serem menores que a cidade onde já estava, e eliminei Montreal, porque meu francês era muito fraco. Sobrou Toronto.

Voei para lá no início de agosto para passar três dias, caminhei pela Queen Street e fiquei maravilhado com a diversidade da cidade. A costa do Lago Ontário não combinava muito com o oceano e as montanhas de Vancouver, mas, sim, era Toronto. Eu faria tudo para dar certo.

Por razões financeiras, defini 1º de abril de 2020 como minha data de mudança, mas meus planos eram mais grandiosos. A transportadora guardaria meus pertences por três meses e, enquanto eu estivesse temporariamente livre de pagar hipoteca ou aluguel, usaria o dinheiro extra para viajar pela Europa. Só lá eu deixaria meus caprichos ressoarem, seguindo as recomendações dadas de passagem no café turístico do dia. “Já esteve no Algarve?”. “Você deveria ir para Bucareste”.

Eu não tinha, mas teria, finalmente, aos 55 anos, um espírito livre. Quando 2020 chegou, decidi que meus últimos três meses em Vancouver também seriam mais livres. Suspendi minhas contas em sites tradicionais de namoro on-line e criei um perfil num aplicativo de encontros casuais.

Como assumi em 1989, no auge da crise da Aids, nunca tinha espantado meus medos e conflitos sexuais. Mas agora seria o momento de lidar com eles, antes de botar os pés na minha nova cidade. Mas não foi fácil ser “fácil”. Enquanto me preparava para a possibilidade de trocar os nomes, eu ainda queria algum tipo de significado nas interações.

Bloqueei o cara que ficava me mandando mensagens obscenas sobre cuspe e ignorei os homens que não conseguiam escrever frases completas. Mas manter os padrões significava ficar em casa. Foi então que, no primeiro dia de fevereiro, cedi – finalmente. Um cara da minha idade com uma única e respeitável foto de rosto mandou a mensagem “Bom dia” – sem verbo, sem pontuação, mas, pô, pelo menos não tinha saliva. Ao meio-dia, já tínhamos combinado de nos encontrar num café que ficava mais ou menos no meio do caminho entre nossos bairros. Encontrar num lugar público parecia seguro.

Cada um tinha uma saída. Fiquei chocado quando David – será que era seu nome de verdade mesmo? – sugeriu que nos sentássemos e tomássemos nosso café. Se era só uma transa, não era para a gente pegar um café para viagem e voltar para a casa dele? Talvez ele quisesse um momento para falar sobre suas preferências e confirmar a ausência de doenças sexualmente transmissíveis. Muito responsável. Mas não.

Nós conversamos sobre nossos dias, passamos a falar sobre viagens, e me contive antes de fazer um comentário desdenhoso sobre meu ex. “Fica para a próxima”, eu disse. Até parece. Conversamos por uma hora inteira, até o café fechar. “Você quer pegar o meu número?”, ele perguntou.

Trocamos os celulares para inserir os números. Na calçada, fizemos uma despedida cordial, um abraço meio constrangido, iniciado por mim. Aí ele voltou para a casa dele e eu voltei para a minha. Sem saber muito bem como, eu tinha mandado mal naquele negócio de sexo casual.

Passamos a trocar mensagens esporádicas e, uma semana depois, nos encontramos novamente. Segunda chance. Mas, desta vez, ele tinha feito reserva para um restaurante tailandês da moda. Até onde eu sabia, jantares chiques não faziam parte do pacote do sexo casual. Enquanto dirigia até lá, revisei o plano de jogo. Não era encontro. Não era namoro. A gente ia comer alguma coisa e, depois, sexo. Só isso.

Não tínhamos nem acabado de comer a salada de mamão verde quando deixei escapar que estava indo embora da cidade em menos de dois meses. Mesmo assim, continuamos comendo. Pedimos o prato principal, a bebida, a sobremesa. Apesar de minha intenção de manter as coisas leves, deixamos para trás os comentários sobre os temperos do pad thai e começamos a falar sobre relacionamentos anteriores, sobre o que o apaixonava no trabalho e, sempre hesitante, sobre minhas aspirações no meu novo caminho como escritor.

Nenhuma palavra sobre preliminares. Dois dias depois, meu apartamento foi vendido com a data de entrega prevista para o início de abril, conforme planejado. David foi a primeira pessoa para quem mandei uma mensagem. Não quis contar para lembrá-lo de que eu estava indo embora: só queria compartilhar minhas boas notícias. Naquela mesma noite, entrei na internet e reservei uma passagem só de ida para Estocolmo.

Mesmo assim, nossas trocas de mensagens aumentaram e continuamos os encontros semanais. Uma aventura de verão, disse a mim mesmo no final do inverno de Vancouver. Eu tinha sido franco. Nós dois ganharíamos algo com isso. Eu iria embora um pouco menos amargo e ele teria encontrado um vislumbre de esperança, voltando ao mundo do namoro depois de um relacionamento de 25 anos. Nós dois poderíamos curtir o momento.

Em 14 de fevereiro, ele mandou uma mensagem com a imagem de um coração sobre um fundo de arco-íris e as palavras: “Feliz Dia dos Namorados”. “Feliz sexta-feira”, respondi. As noites de sábado viraram noites de sexta e os jantares viraram finais de semana. Na segunda semana de março, descobrimos nossa compatibilidade nas quadras de tênis e comecei a compartilhar meu estresse com um mundo estava cada vez mais nervoso por causa do coronavírus.

E se eu não pudesse voar para Estocolmo? Seria tolice me mudar para Toronto e correr o risco de cair numa lacuna da providencial cobertura do plano de saúde? “Você pode ficar no meu segundo quarto”, disse David. A oferta parecia muito e muito pouco, ao mesmo tempo. Rachar apartamento não era exatamente um jeito da relação evoluir, mas por que eu estava sequer pensando numa coisa dessas? Eu tinha meu plano. Ia viajar e depois me mudar de cidade.

Teriam que fechar as fronteiras para me impedir. E foi o que fizeram. Ainda assim, eu barganhei. Era só uma medida radical de duas semanas. Logo logo iriam controlar o vírus. E, mesmo que isso não acontecesse, eu me despediria conforme o planejado e encontraria um Airbnb a mil quilômetros ao norte de Yukon.

Continuei alimentando meu cérebro planejador, ainda que me sentisse cada vez mais bobo por isso. Meus preparativos se concentravam em reduzir, não em acumular. Tinha passado meses consumindo os suprimentos até as batidas finais no fundo da lata de canela e o último rolo de papel higiênico. Ainda poderia ter meus três meses de viagem.

Sete semanas depois, David e eu tiramos nossa primeira selfie, meu cabelo ainda relativamente domesticado, duas semanas inteiras antes de ele raspar a cabeça. Caminhamos muitos quilômetros naquele dia, apreciando o sol, as praias e um ao outro. O tempo ao ar livre parecia um privilégio especial. O país entraria em lockdown, como a França e a Itália?

Com as mudanças no horário de trabalho e uma bela economia no transporte de ida e volta do escritório, começamos a nos ver todos os dias, caminhando pelas partes mais pitorescas da cidade, oferecendo um pouco de escuta e distração um ao outro enquanto David acompanhava os números diários do coronavírus na província de British Columbia e eu surtava com as malas por fazer e o lugar onde cairia depois de ser expulso da minha casa.

As pressões para ficar em Vancouver aumentaram à medida que as regiões vizinhas barravam pessoas de fora potencialmente contaminadas e as implacáveis mensagens de distanciamento social reduziam minha rede pessoal a David. Num velocíssimo período de 24 horas, assinei um contrato de seis meses de aluguel para um apartamento no notoriamente estrito mercado imobiliário de Vancouver e diminuí minha mudança de mais de 3 mil quilômetros para menos de 2.

O coronavírus estragou oito meses de planejamento para uma grande mudança de vida, mas trouxe consigo algo decididamente não planejado. David e eu continuamos nossa aventura. A cada café e cada passeio pelas ruas favoritas da cidade, caminhamos um pouco mais perto, unidos em nossos esforços para manter o resto do mundo a dois metros de distância. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.