Modern Love: O curioso caso do Sr. Couve
Felice Neals, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2021 | 05h00

Conheci o Sr. Couve na fila do caixa do Whole Foods em Tribeca, há mais de dois anos. Estava escrito nas cartas - mais ou menos.

Algumas horas antes, minha amiga Stephanie me disse ao telefone que ela agora era uma wicca praticante - uma bruxa moderna que se envolveu com a “magia branca”, oferecendo orientação e previsões por meio de velas e leituras de tarô.

Isso era novidade por vários motivos - um deles era que ela sempre foi cética em relação a qualquer coisa fora do “comum”; a outra era que durante o dia ela era uma séria advogada no sistema de varas de família da cidade de Nova York.

Ela explicou, para minha surpresa e dúvida, que se especializou na cura com velas, acrescentando: “E eu já tenho clientes”.

"Verdade?" Eu estava muito intrigada.

“Todos nós temos acesso a essa energia”, ela disse. O som de um fósforo sendo aceso do outro lado da linha preencheu a pausa em nossa conversa. “Eu simplesmente sei como canalizá-la.”

Ela sabia que eu seria toda ouvidos. Afinal, sou uma crente ávida em tudo o que é visível e invisível - o assunto de vários debates durante nossos anos de graduação, duas décadas antes.

“Então, quer que eu faça uma leitura?”

Eu quis, é claro, embora não tivesse certeza se poderia confiar nisso. "Então, quando tudo isso aconteceu?" eu perguntei.

“Já faz um tempo. Você sabe que sempre fui um pouco vidente. ”

Isso era verdade. Ela sempre parecia saber quando alguém estava prestes a ligar. E uma vez ela acertou os números da loteria e ganhou US$ 5.000.

“Então, respire, relaxe e concentre-se”, ela disse.

“Em quê?”

“No seu coração”.

“Ah, no terceiro chacra,” eu disse, esperando impressioná-la com meu conhecimento esotérico.

Ela inalou profundamente e exalou. Eu fechei meus olhos. Um longo silêncio me fez perceber a água fervendo em minha chaleira.

“Ok”, ela disse. Eu podia ouvi-la apagando a vela.

“Foi rápido,” eu disse. “Eu deveria ter feito um pedido ou algo do tipo?”

“Não. Só vou te dizer o que vejo.”

Eu tomei fôlego. Meu coração disparou.

"Você vai conhecer um homem alto e bonito."

Eu ri. “Essa é original.”

“Você vai conhecê-lo logo. Pode ser essa semana.”

Ela estava séria.

“Ele tem um sotaque. É tudo que vejo agora.”

No final da tarde, parei no Whole Foods e comprei uma batata-doce, leite de amêndoa, molho de macarrão, outros produtos e alguns petiscos sem glúten. Quando fui me aproximando do caixa, fazendo malabarismos com os itens em meus braços, um caixa acenou para mim e disse: “Aposto que você estava planejando comprar apenas algumas coisas, certo? E então você vê uma coisa, depois outra”.

"Sim", eu disse. “Eu sempre saio com mais do que planejo comprar.” Também tenho uma aversão irracional a carrinhos de compras, mas não achei que valesse a pena compartilhar isso.

Coloquei os petiscos na esteira enquanto o molho de macarrão e o leite escorregavam desajeitadamente de meus braços. Quando minha batata-doce caiu na esteira do outro lado da divisória de plástico, o cliente atrás de mim disse: "Acho que isso é seu?"

“Ah, desculpe,” eu disse, pegando de volta.

“Sua comida saudável está envergonhando a minha”, ele disse, com o que percebi serem traços de sotaque britânico. Olhei para trás enquanto a esteira trazia suas batatas fritas, carne moída e água Pellegrino.

"Isso é couve?" ele perguntou.

"Sim", eu disse, encarando agora um homem que era, sim, alto e bonito.

“Você se importa em me dizer como preparar?” o homem disse.

Logo estávamos examinando os benefícios dos chips de couve, da salada de couve, da couve à la mode, da história da couve, do futuro da couve. Até chegarmos à saída, onde nos apresentamos (“Sam”, ele disse) antes de continuar nossa conversa do lado de fora. A estranha não-troca de telefone pesou fortemente na brisa que levou uma mecha de cabelo sobre meu olho esquerdo (que eu esperava que aumentasse meu fascínio).

“Estou sempre aqui”, ele disse. "Tenho certeza de que verei você aqui novamente."

"Sim", eu disse, tentando conter meu espanto de que isso estava realmente acontecendo.

Então liguei para Stephanie. "Aconteceu! Ele é alto. Tem sotaque. Fofo. Mais que fofo. Mas por que ele não pediu meu telefone? ”.

“É claro que aconteceu”, ela disse e se ofereceu para jogar o tarô.

Sentei-me em um banco e observei um pombo circundar uma migalha de pão aleatória enquanto Stephanie fazia a leitura.

“Bem, não tenho certeza se você vai vê-lo novamente", ela disse. "Talvez."

“O quê?”

“As cartas não dão certeza”.

No dia seguinte, voltei ao Whole Foods por volta do horário em que Sam e eu nos conhecemos. O calor do verão tornou minha perambulação pela área de congelados menos notável. Eu examinei os balcões do caixa e esperei enquanto o cara que abastecia as prateleiras começava a reabastecer os biscoitos no corredor. Nenhum sinal de Sam. Chegou a hora de comprar meu sorvete de frutas vermelhas com soja.

Andei até o parque e tomei metade do sorvete. Eu daria mais alguns dias.

Dia 2, mesmo horário. Compra de hoje? Iogurte de leite de coco. Novamente, caminhei em direção ao balcão do caixa. Um homem alto estava procurando seu cartão de crédito. Legal, mas não era Sam.

No Dia 3, chamei uma amiga para ir junto.

"Por que você não me chamou antes?" ela disse. "Talvez devêssemos ficar perto da couve."

"Sim!" Eu poderia ter dado um abraço nela. Isso estava ficando constrangedor.

Coloquei um pouco de couve em um saco plástico. Um homem se aproximou. Então outro. Nada de Sam. Eu não tinha percebido quantos homens na cidade gostavam de couve.

Dia 4: fiz uma corrida rápida pelo corredor de produtos de papel. Sempre se precisa de toalhas de papel. As filas do caixa eram dolorosamente curtas. Fui até a fila mais longa, onde o mesmo caixa que testemunhou nosso primeiro encontro disse: "Ei, você estava aqui ontem, certo?"

Ele tinha me visto espreitando. Esta foi minha hora mais sombria. “Nenhum carrinho ou cesta, certo?”

“Sim, essa sou eu,” eu disse.

“Quer uma sacola?”

"OK." Eu queria perguntar se ele tinha visto Sam e hesitei antes de pegar minhas toalhas de papel.

“Posso ajudar em algo mais?”

Eu recusei delicadamente e liguei para Stephanie.

"Eu fiz outra leitura", ela disse. "Não sei por que eles não querem que você saiba."

Os dias 5 e 6 foram visitas rápidas. Acho que comprei detergente.

No dia 7, eu decidi evitar o Whole Foods, que agora servia como um lembrete de cada erro, conexões e chances perdidas que eu já tive na minha vida. O Sr. Couve era agora um símbolo de todas as minhas separações, de todas as vezes que desejei ter me defendido, do meu ex recente, do meu desejo de procriar, da minha quinta caminhada pelo corredor como dama de honra, da minha última visita à Victoria's Secret (onde foi sugerido que eu experimentasse inserções estilo costeleta de frango no sutiã) e, finalmente, do meu desejo de ter um Sr. Couve em minha vida.

Um mês se passou. Eu precisava de vitaminas. O Whole Foods era a opção mais próxima. Eu havia conhecido um designer de software excessivamente zeloso, mas brilhante em uma festa e pensava ter esquecido o Sr. Couve, mas enquanto eu caminhava para o caixa, não pude deixar de olhar ao redor para ver se ele estava lá. Ele não estava.

Fui até o parque e sentei na grama. O ar estava quente. Eu estava observando uma balsa balançando no rio quando ouvi um homem com um leve sotaque britânico dizer: “Onde você esteve? Estive procurando você por toda parte."

Não era Sam (é claro), mas algum outro britânico que se estatelou no cobertor de uma mulher sentada por ali.

No entanto, meu coração deu um salto com a possibilidade. Eu estrelara minha própria comédia romântica que contava a história de um breve encontro no Whole Foods com um homem alto e bonito que gostava de couve e alimentou minha crença no acaso ou destino ou algo que me deixou tão ansiosa para encontrá-lo novamente.

Talvez eu deva agradecer a Nova York e seus milhões de estranhos, um lugar onde encontros casuais podem acontecer todos os dias, se você deixar. Suponho que, de alguma forma, dei um sinal ao universo de que estou aberta a esse tipo de coisa. Aqui, a magia da sincronicidade está sempre pronta para se desdobrar, e continuo ansiosa para nadar em suas ondas até onde elas me levarem. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
namoro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.