Modern Love: Os benefícios de brigar no casamento
Nicole Walker, The New York Times - Life/Style

17 de janeiro de 2022 | 05h00

Ninguém gosta de sair com casais, como nós, que brigam. Meu marido, Erik, e eu geralmente começamos nossas conversas com boas intenções.

Um dia, no verão passado, eu disse a ele: “Em que ano a monção não chegou a Flagstaff? Quero dizer, além do ano passado e do ano anterior?

“2015”, ele disse.

"Não, não pode ser", eu disse. “Bob e Karen tinham acabado de começar a namorar. Acho que foi em 2012.”

“Foi em 2015,” ele disse.

“Podemos pesquisar.”

“Ou você pode acreditar em mim.”

Claro, eu poderia acreditar nele, mas o que isso faria com a minha compreensão das tempestades das monções que passam pelo Arizona todo verão - ou para onde elas foram em julho de 2012 ou 2015? Tenho que sacrificar minha própria narrativa do tempo a serviço de um casamento mais tranquilo e gentil?

Nosso conselheiro diz: “Vocês dois têm uma tendência a brigar”. A palavra “bicker” (discutir, brigar) vem do Holandês médio, que significa cortar, esfaquear ou atacar, mas uma história do Inglês médio da palavra sugere que significava “brigar, lutar com petulância com as palavras”, mudando mais tarde para significar “um barulho ruidoso e repetido.”

Com Erik e eu o que mais ocorre é o barulho, embora quando nossos filhos praticavam taekwondo duas vezes por semana, ele e eu consideramos fazer aulas para adultos porque passávamos muito tempo lá. Na época, meu sogro disse: “Eu adoraria ver vocês dois brigando no ringue”.

Eu sei que deveria pensar nisso como uma crítica ao nosso relacionamento, mas me pergunto sobre casais que não discutem - que não fazem barulho, que não lutam com palavras. Como eles combinam suas histórias individuais em uma única compartilhada? É possível que alguns casais sempre concordem em tudo?

Sempre acreditei que estar em um relacionamento a longo prazo, incluindo a amizade, é criar uma narrativa compartilhada. Para chegar lá, você terá que acertar os detalhes.

Minha amiga artista Rebecca Campbell e eu também discutimos sobre os detalhes de nossa narrativa compartilhada. Em que ano vimos Jane's Addiction? Quantas vezes fui a Los Angeles para visitá-la? Nós brigamos como pessoas casadas.

Rebecca me apresentou a Erik em Salt Lake City no Zephyr Club, o bar onde seu marido, Todd, tocava em uma banda chamada Fistfull. Esse clube é onde Erik e eu começamos nossa história.

Em uma mesa para oito, sentei-me ao lado dele, um cara magrelo cinco anos mais novo, enquanto comparávamos os shows que havíamos assistido: Black Flag em Saltair, no Great Salt Lake. Fugazi no Autódromo. Também compartilhamos nossos traumas: nossos pais haviam morrido nos últimos dois anos de alcoolismo.

Como ambos crescemos como não mórmons em Utah, abraçamos a subcultura radical que é tipicamente forjada entre os forasteiros. Então nossa história começou como jovens punks apaixonados.

Mas os jovens punks envelhecem. As pessoas mais velhas costumam ter casas e cães e gatos e crianças. Quando nossa filha, Zoe, nasceu prematuramente, Erik levou leite materno de nossa casa para a unidade de terapia intensiva neonatal em seu skate, o que significa que ele ainda era um pouco “punk”, mas agora era dono de uma propriedade e tinha que lidar com um estresse prolongado.

É difícil ser verdadeiramente punk quando você passa dias a fio em um hospital esperando os pulmões da sua filha ficarem grandes o suficiente para poder voltar para casa. Talvez haja algo um pouco punk rock em ver seu bebê com um cateter na testa? Ou talvez isso tenha tornado Zoe um pouco punk rock.

Mesmo em nossa maturidade e parentalidade recente, permanecemos fiéis às nossas histórias individuais. Discutimos sobre de quem era a vez de limpar a bombinha de tirar leite e discordamos sobre qual de nós havia se levantado mais cedo para ter certeza de que Zoe ainda respirava em seu berço do outro lado da parede.

Nosso segundo filho, Max, não foi condicionado a acordar a cada três horas para ser trocado e alimentado, e depois voltar a dormir, como Zoe foi na UTI neonatal.  Ele acordava em intervalos completamente aleatórios e imprevisíveis.

Discutimos sobre de quem era a vez de trazê-lo para nossa cama. Nossa história mudou a cada nova criança e animal de estimação. Nós somos pessoas que gostam de cachorro. Somos pessoas que gostam de gatos. Somos pessoas de um filho, depois de dois. E a cada mudança, tínhamos que renegociar quem éramos.

“Se tivermos dois cachorros”, Erik disse, “eles terão um ao outro”.

“Se tivermos dois gatos,” eu disse, “então terei que limpar a caixa de areia duas vezes.”

“Se você não pensar na caixa de areia”, ele disse, “nós ainda teremos um gato?”

“A caixa de areia de Schrödinger”, eu disse.

Brigamos porque discordamos, mas acho que em alguns casos também brigamos porque concordar com certos fatos - de que sofremos com as secas em 2012 e 2015 - era muito assustador.

Antes das crianças, quando estávamos na pós-graduação, fomos de Utah a Yosemite pelo Lago Tahoe. Perguntei a Erik como ele queria que nossa vida fosse.

"Assim", ele disse, apontando para as montanhas, as árvores, o lago tão azul quanto seus olhos.

Quase uma década depois, chegamos perto dessa vida quando nos mudamos para Flagstaff, Arizona, e consegui um emprego de professora na Northern Arizona University. Aqui temos árvores e montanhas. Temos um lago, mas não é gigante nem muito azul - é o reservatório que fornece água para a cidade.

No verão passado, ele foi fechado para que os helicópteros pudessem mergulhar seus baldes nele e levar água para despejar no fogo a oeste da cidade. O condado também fechou as florestas para caminhadas, ciclismo e acampamentos - as principais coisas que fazemos para nos divertir quando não estamos varrendo as folhas de pinheiro que as Ponderosas sacodem no outono e na primavera ou regando a macieira que compramos quando nossa narrativa compartilhada incluía aprender a cultivar um pomar e fazer cidra neste lugar onde planejamos ficar para sempre.

Nada muda sua história como a morte de seu sonho compartilhado.

Todo verão em Flagstaff, como em Tahoe, o fogo ameaça. Todos os anos as chamas se aproximam mais da cidade. A queda de neve agora é medida em polegadas em vez de pés. As tempestades das monções não ocorreram em um verão, e depois novamente. Erik e eu brigamos sobre que quantidade de chuva é suficiente. Quanta neve é suficiente? Mas sabemos que em algum momento esta cidade estará muito queimada ou ressecada demais para que possamos ficar.

O que você faz quando sua história se torna uma história de seca? Talvez seja um tipo de existência Mad Max, punk rock para nós vivermos nesta cidade desértica de altas montanhas, mas perdemos nossa credibilidade nas ruas como punks assim que começamos a dizer “bomba de tirar leite” diariamente. Agora, as únicas bombas de que falamos são aquelas que extraem água de poços que devem ser perfurados cada vez mais fundo a cada ano.

Minha amiga Rebecca diz: “Mude-se para Oregon comigo”.

Eu iria em um segundo. Eu já morei lá. Rebecca, Todd e eu poderíamos juntar nossas velhas histórias de vida em Portland: Todd tocando sax, Rebecca pintando em um closet pequeno, eu passeando na livraria Powell, vagando pelos corredores de literatura ansiosamente. Mas Erik não tem história lá. Poderíamos escrever uma nova?

Embora pudéssemos escrever uma nova história no Oregon, ainda estamos ligados à nossa história no Arizona. Estamos nos adaptando ao incômodo fato de que não vamos sair daqui, mas também não podemos ficar. Um tipo de amor de gato de Schrödinger que diz que devemos viver em duas histórias simultaneamente - uma que diz que a mudança climática já está aqui e outra que diz que estamos aqui, nossa família está aqui, nosso amor está aqui.

Como Erik disse, 2015 foi o ano seco. Como eu disse, 2012 foi o ano seco. Nós dois estamos certos. Os anos ficam cada vez mais secos. Talvez não precisemos mais brigar sobre secas e monções porque, com as mudanças climáticas, os detalhes serão importantes até que não importem. Com a mudança climática vem a percepção de que toda a humanidade compartilha uma história.

Essa narrativa comum será tão ampla quanto um casamento na medida em que pode conter, como uma, nossas histórias individuais - neste caso, o valor de um planeta inteiro de histórias individuais? Uma história não importará mais do que qualquer outra, e vamos precisar ouvir todas elas. E vamos precisar fazer muito barulho. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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