Modern Love: Ouvir a voz do meu pai pela primeira vez mudou tudo
Michèle Dawson Haber, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2021 | 05h00

A primeira vez que ouvi a voz do meu pai, ele já estava morto há 53 anos. Tudo começou quando minha prima, que vive em Jerusalém, deu 25 rolos de áudio em latas redondas de metal para mim. Ela os havia encontrado enquanto limpava a casa dos pais lá.

“Elas são do seu pai cantando ópera”, minha prima me disse em uma de minhas raras visitas a Israel. “Também encontrei as partituras dele, os negativos e as fotos. Você e sua irmã deveriam ficar com tudo isso.”

Depois que meu pai morreu no Canadá em 1965, a família dele agarrou-se a esses pertences restantes; o apego evitou ter que perdê-lo completamente.

“Olhe essa foto dele”, minha prima falou ao mostrar a imagem de um jovem desajeitado com olhos profundos, uma monocelha espessa e uma tentativa de sorriso. “Com quem ele se parece?”

“Acho que ele se parece um pouco comigo”, respondi pouco à vontade.

Meu pai se suicidou quando eu tinha três meses de vida e, ao contrário de minha irmã mais velha, Ruth, não me sentia tão conectada a ele.

“Mais do que um pouco!”, disse ela. “Você tem o mesmo sorriso tímido. Não percebe isso?”

“Um pouco”, respondi.

Depois de voltar para Toronto com os pertences de meu pai, enviei tudo para Ruth, que então estava vivendo em outro país. Não pensei mais a respeito da foto daquele jovem.

“Ele é mais seu pai do que meu”, disse para ela como uma justificativa para não ficar com nada.

Dois anos após o suicídio de nosso pai, nossa mãe casou com outro artista em dificuldades - dessa vez, um poeta. Mas as semelhanças acabavam ali. Nosso padrasto adotou a Ruth e a mim, o que levou à remoção legal de nossos sobrenomes. Ao crescer, nunca entendemos isso como significativo. Não nos considerávamos como adotadas. Adotados “de verdade”, presumíamos por ignorância, eram as crianças que tinham ido morar com outras famílias por causa de circunstâncias desesperadoras.

Nasceram mais duas crianças e nossa nova família de seis pessoas extremamente unidas seguia com o olhar em direção ao futuro. Nossa mãe limpou as lembranças do passado o máximo que pôde, na intenção de escrever novas memórias por cima de nossa vida anterior.

No entanto, permanecia um sentimento de alteridade que unia a mim e a Ruth. Minha irmã mais velha era atormentada por sua incapacidade de se lembrar de nosso pai e obcecada em querer saber mais a respeito dele. Nossa mãe se recusava a falar, sempre rebatendo as perguntas de minha irmã adolescente com lágrimas e adiamentos. “Outra hora”, ela dizia; ou “Quando você for mais velha”.

Arrasada, Ruth vinha até mim, chorando. Eu assumi o papel de consoladora de minha irmã desde muito nova. Mesmo depois de crescermos e vivermos em países diferentes, ela ligava sempre que seus sentimentos de perda vinham à tona e eu a escutava e a consolava. Ela nunca teve que se preocupar em retribuir; nunca senti algo semelhante. Não havia espaço para minha perda e, portanto, presumi que ela não existia.

Há três anos, Ruth encontrou um engenheiro de som para digitalizar os 25 rolos de áudio de nosso pai. Fiquei curiosa, mas também preocupada que Ruth se decepcionasse com o que estava ali. Conforme escutava, ela me enviava atualizações regulares por WhatsApp. Os rolos eram, em sua maioria, dele tocando piano e cantando em uma variedade de idiomas.

Um dia, Ruth me ligou por Skype enquanto eu estava no trabalho. Ela estava em uma sala com o engenheiro de som. “Você precisa escutar isso agora”, ela disse. “É realmente incrível.”

Fechei a porta do escritório e Ruth tocou para mim um dos rolos que havia sido gravado em 1963. Ruth tinha três anos, ela e nosso pai estavam olhando fotos juntos. As vozes eram tão claras que era como se eles estivessem no mesmo cômodo que eu.

"Quem é esse - é o papai?”, podia-se escutar.

“Não!”, Ruth respondia.

“É a mamãe?”

“Não!”

“É a Rutinha?”

“Eu!”

Escutamos ele rir de alegria e, depois, houve um som molhado, de boca em pele, como se ele estivesse vibrando os lábios na barriga dela, seguido por uma explosão de risos. A risada de meu pai era alta e animada, mas sua voz de fala era mais grave - um melífluo barítono marcado.

Ao escutar a voz dele, minha indiferença desapareceu. Até aquele momento, não sabia como era a voz de meu pai. Tinha passado a vida inteira sem me dar conta de que não a conhecia.

Ruth e o engenheiro de som estavam me encarando na tela do Skype, esperando por minha reação. Não quis desabar na frente deles.

“E aí?”, perguntou Ruth.

“Uau”, respondi.

“Uau o quê?”

“Uau, isso é interessante.”

Percebendo que eu não estava pronta para conversar, ela preencheu o silêncio com suas reações de alegria e admiração. Dei a desculpa de que precisava voltar a trabalhar para desligar. Em meu escritório, chorei sozinha, primeiro, de raiva por ele ter nos deixado, e, depois, coloquei para fora uma saudade há muito reprimida.

Eu tinha visto fotos de meu pai e escutado algumas histórias, mas nenhuma delas o trouxe para mais perto de mim. Mas o homem que ouvi, tão íntimo e próximo - aquele era meu pai! Escutá-lo falar e rir tirou minha alma de uma profunda dormência, e isso era tanto assustador como revitalizante. Não havia volta. Precisava saber mais.

Agora eu tinha me tornado a filha obcecada, procurando por ele por todos os cantos. Li as centenas de cartas que ele escreveu ou recebeu e minha mãe guardou em uma caixa de papelão. Elas pintavam o retrato de um homem sensível que estava sempre se esforçando para progredir. Nas cartas que meus pais escreveram um para o outro, as dificuldades do tumultuado casamento deles foram expostas.

Meu próximo passo foi localizar e entrevistar amigos e familiares idosos que lembravam de um homem nobre e amigável que amava cantar músicas country americanas na varanda da casa da mãe em Jerusalém. Então, embora eu soubesse que ler isso fosse ser doloroso, passei um ano lutando pelo direito de ver o relatório policial detalhando as informações lúgubres de seus últimos momentos.

Quão contraditório era sentir gratidão por todas essas coisas e, mesmo assim, senti; conforme as lacunas da linha do tempo de minha família eram preenchidas. Descobri mais sobre meus pais do que muitos filhos adultos jamais descobrirão. Entretanto, não estava satisfeita e não conseguia explicar o motivo para ninguém, nem mesmo para minha irmã.

“O que mais você espera encontrar?”, perguntou-me Ruth.

“Eu realmente não sei, talvez uma foto”, disse e senti o nó na garganta, percebendo o quanto eu queria exatamente aquilo. “Só uma foto dele me segurando - então posso parar.”

Cheguei na vida do meu pai no pior momento possível, pois sua vida estava se desmoronando, então, não era surpreendente que não houvesse fotos comigo. No entanto, essa esperança ínfima era tudo que eu tinha, então implorei a Ruth para digitalizar os milhares de negativos de nosso pai de seus anos como fotógrafo amador que estavam com ela. Meses depois, ela me enviou uma mensagem com um emoji chorando. “Digitalizei tudo e você não está em nenhum deles”, escreveu ela. “Sinto muito.”

Não havia mais nada para descobrir. Havia seguido todas as pistas, lido todas as cartas e examinado cada lembrança. Deveria ter ficado contente de ter descoberto tudo aquilo, mas, em vez disso, sentia-me desolada.

Um dia, depois de contar meus esforços para uma amiga, ela me falou a respeito de um psicólogo que havia entrevistado para o podcast dela. “Escute”, disse ela, “acho que talvez possa ser útil”.

No dia seguinte, enquanto me exercitava no porão de casa, escutei e fiquei desconfiada em relação à relevância do que Michael Grand chamava de “a constelação da adoção”. Claro, tinha sido adotada por meu padrasto e isso fazia de mim sua filha adotiva - e daí?

Como se me respondesse, Grand explicou que muitos filhos que foram adotados pelos novos parceiros de seus pais têm dificuldades com as mesmas questões existenciais que aqueles tradicionalmente definidos como adotados, aqueles que eu pensava serem diferentes de mim.

“Sem a informações sobre suas origens, o filho adotado pelo novo parceiro tem uma narrativa incompleta - como se sentisse falta do primeiro capítulo de sua vida”, afirmou.

Foi então que me dei conta de que não estava apenas em busca do meu pai, também estava em busca de mim mesma. O que Grand disse depois fez com que eu parasse o agachamento e caísse de joelhos, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

Ser importante para alguém é a chave, ele explicou. O filho adotado pelo novo parceiro quer saber que ele tinha importância.

Ali estava a minha resposta. Apesar de minha investigação e da extraordinária abundância de artefatos escritos, em áudio e fotográficos que descobri, nunca encontrei ou jamais encontraria qualquer prova de que eu existi no mundo de meu pai. De que eu importava para ele.

Era hora de parar a busca.

Não sei se eu tive importância para ele e nunca saberei, mas o que eu percebi é que ele é importante para mim. Não sou mais uma espectadora da perda, encontrei meu pai e isso não é qualquer coisa.

Aprendi o suficiente para preencher o primeiro capítulo da minha vida e, embora ele continue incompleto, posso escrever sobre mim mesma na história da minha família, interligada às histórias de meus pais e minha irmã. E posso decidir usar meu sorriso tímido com orgulho, grata por ter algo que ele deu apenas para mim.

Se você está tendo pensamentos suicidas, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo número 188. O atendimento é gratuito, totalmente sigiloso e está disponível 24 horas por dia. No site do CVV (cvv.org.br) você pode conversar também por e-mail e via chat. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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