Modern Love: Queríamos nos separar, mas o 'OKCupid' tinha outros planos
Gayle Brandeis, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2021 | 05h00

Quatro anos após nosso casamento, meu marido me encontrou no OkCupid.

Eu só tinha entrado no site para conferir o perfil dele. Ele entrou para encontrar outra pessoa.

Uma amiga me ajudou com o longo processo de inscrição depois que voltamos para minha casa após uma taça de Moscato que tomávamos toda semana no bar Mission Inn. Nenhuma de nós bebia muito - eu era novata no álcool por volta dos meus 40 anos - e isso era o máximo que nos permitíamos, esse pequeno gole de doçura.

“Que nome devo usar?” eu disse, enrolada no meu sofá enquanto minha amiga estava sentada em minha escrivaninha com meu laptop, sentindo-me relaxada e agradavelmente cansada por causa do vinho. “Definitivamente, não quero usar o meu próprio nome.”

"Que tal Glittergirl?" ela disse. Ela era uma grande fã de glitter; muitas vezes eu ficava cheia de brilho em minha pele e cabelo depois de abraçá-la. Eu não gostava de glitter ou qualquer coisa relacionada à maquiagem, mas deixei ela usar o nome. Eu não estava planejando usar o site para nada além de uma checagem.

Já havia uma “Glittergirl”, então escolhemos uma alternativa um pouco vulgar. Como isso não é pra valer, pensamos, então por que não se divertir um pouco?

Meu marido e eu estávamos separados há alguns meses naquele momento, e ele tinha começado a sair recentemente com uma mulher que conheceu no site e que estava em um casamento aberto. Havíamos pensado em abrir nosso próprio casamento depois que desenvolvi uma obsessão por um homem que conhecia e que morava do outro lado do país. Meu marido até encomendou livros como Opening up, e eu os li com grande interesse, mas ficou claro que não era capaz da comunicação profunda e honesta necessária para fazer tal arranjo funcionar.

Eu estava focada na paixão, desejando que meu coração estivesse fora daquelas paredes estreitas, preso pelo marido por quem eu estive perdidamente apaixonada não muito tempo antes. Decidi me mudar, indo com nosso filho de 3 anos primeiro para um motel, depois para um apartamento na comunidade de aposentados do meu pai e, finalmente, para a pequena casa de campo onde minha amiga e eu agora estávamos sentadas, preenchendo meu perfil de namoro.

Eu não tinha namorado muito na minha vida. Tive um namorado sério no colégio e alguns romances na faculdade antes de conhecer meu primeiro marido, quando eu tinha 19 anos; ficamos juntos por 20 anos antes de nos divorciarmos. Dezoito meses depois, fiquei grávida do meu então namorado e decidimos nos casar. Em breve, passaríamos por uma série de crises - minha mãe morreu logo depois que nosso bebê nasceu, e a mãe de meu marido morreu menos de quatro meses depois, levando nosso casamento recente ao colapso. Minha obsessão por este outro homem o fez desabar.

O OkCupid nos conduziu pelo que parecia ser um questionário interminável, perguntando sobre várias coisas que nos atraem ou não e maneiras de ver o mundo. Minha amiga leu as perguntas de múltipla escolha em voz alta, algumas das quais - como "Sob determinado ângulo, a guerra nuclear não seria emocionante?" - me fez balançar a cabeça. Em resposta à pergunta sobre quem eu estava procurando - homens, mulheres ou ambos - marquei “ambos”.

Havia algumas perguntas sexy e escolhi as respostas mais selvagens para me divertir, mas essas respostas também pareciam verdadeiras em sua selvageria, respostas que falavam de desejos que eu poderia ter seguido se não tivesse me comprometido aos 19, se não tivesse me tornado um mãe aos 22 anos. Eu não teria feito nada diferente, mas fiquei me perguntando: e se eu tivesse me permitido brincar mais, para chegar ao que eu realmente queria? E se eu tivesse me permitido um gole maior de doçura?

Aí minha amiga leu uma pergunta que me atingiu em cheio: Você se casa. Cinco anos depois, você percebe que foi um erro. Discussão e aconselhamento não fizeram diferença. Você simplesmente não ama mais o seu parceiro. Ele / ela ainda te ama. Você decide continuar tentando - casamento significa compromisso - ou decide se divorciar?

"Vamos pular essa", eu disse, contendo as lágrimas. A separação era claramente melhor para nós do que vivermos juntos, mas algo em meu corpo resistia à palavra divórcio.

Ela me olhou antes de passar para a próxima pergunta: "Quanto carinho você pode aguentar?"

Escolhi a primeira resposta: “Infinito”.

Quando finalmente terminamos, o site gerou uma lista de correspondências recomendadas. Fiquei chocada ao ver meu marido no topo, quase 100% compatível. Aparentemente, ele se permitiu ser honesto sobre seus desejos mais selvagens também. Seu perfil era sério e atencioso - ele estava estudando para ser um instrutor de yoga e aprendendo violão, jornadas nas quais havia embarcado após nossa separação. A foto que ele usou era uma foto bonita que eu havia tirado dele em uma árvore, olhando para o céu.”

Também no topo da minha lista estava a mulher com quem ele namorava, cujo perfil a fazia parecer alguém que eu gostaria de conhecer. Isso ofereceu algumas possibilidades intrigantes, mas eu estava muito empenhada em nossa separação e em minha fixação romântica para propor o trio tão óbvio.

As possibilidades surgiam em todos os lugares que eu ia. Tirar minha aliança de casamento foi como tirar um escudo invisível, que me protegia de olhares diretos, de estranhos puxando conversa em lugares públicos. Por mais que quisesse expandir meus horizontes, não achei essa nova atenção divertida, bem-vinda ou libertadora. Parecia predatório.

Também foi assim que a repentina enxurrada de mensagens do site de namoro pareceu, todas as imagens ousadas e descrições explícitas do que esses estranhos queriam fazer com o meu corpo, um corpo que eles só podiam imaginar, já que eu não tinha postado uma foto. Eu me perguntei se meu nome vulgar de usuária encorajou esse fluxo interminável de proposições, mas aprendi com amigos que isso combinava com o território.

Eu não respondi para ninguém; talvez eu não tenha sido feita para isso.

Então, recebi uma mensagem doce: “Vejo que somos 98% compatíveis. Você gostaria de se encontrar e ver o que a vida tem a oferecer? ”

Era do meu marido.

Eu podia sentir um canto do meu coração começar a descongelar, eu podia ouvir "Ele é um bom homem" sussurrar do mesmo lugar, mas rapidamente congelou de novo. Eu não estava pronta para me deixar amolecer em relação a ele, não estava pronta para abandonar minha teimosa atração em direção a este outro homem, mesmo que eu tivesse começado a pensar que eu não significava tanto para ele quanto ele significava para mim, uma suspeita que logo se confirmou durante uma viagem de cinco dias juntos, e em sua frieza comigo depois. Enquanto lidava com essa rejeição, comecei a entender o que havia feito meu pobre marido passar.

Nenhum de nós estava bem no período que antecedeu e durante nossa separação de seis meses. Tornei-me reservada e indiferente quando minha atenção foi atraída para outro lugar; ele se tornou passivo-agressivo.

Minha amiga sugeriu que eu ignorasse a mensagem do meu marido da mesma forma que tinha ignorado todo o resto, mas uma parte de mim - talvez aquela parte que não conseguia dizer "divórcio" em voz alta - queria dizer ao meu marido que ele havia escrito para mim, queria dizer a ele por que eu havia entrado no site.

Achei que ele iria achar isso hilário. Mas quando de fato contei a ele, ele ficou com raiva e magoado, e quando contou à mulher que estava namorando, ela também ficou.

"Ela sente que você está perseguindo-a", ele disse, e eu me senti péssima. Eu não queria aborrecê-la. E, apesar do meu mau comportamento, nunca quis aborrecê-lo também. Eu tinha acabado de ficar viciada na onda de endorfina da paixão, uma limerência que roubou meu bom senso assim como estancou minha própria dor e tristeza.

Demorou alguns meses para que encontrássemos nosso caminho de volta um para o outro, e muito mais tempo, é claro, para reconstruir a confiança entre nós. Estamos em um bom lugar agora, gratos pelo que realmente parece ser 98 % de compatibilidade, gratos por termos tido outra chance de ver o que a vida tem para nos oferecer juntos.

Não estamos mais interessados em abrir nosso casamento; estamos na verdade comprometidos em ser abertos um com o outro, em ouvir nossos corpos e deixar o outro saber a doçura que desejamos. Ainda não bebo vinho com muita frequência, mas quando bebo, tomo uma dose generosa. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
casamentodivórciomulhernamoro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.