Modern Love: Por que minha filha se casou (temporariamente) aos 13 anos

Modern Love: Por que minha filha se casou (temporariamente) aos 13 anos

Envergonhada de minha sexualidade quando jovem, estava determinada, como mãe, a celebrar os desejos românticos da minha filha

Stephanie Grant, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2021 | 05h00

Cinco anos atrás, quando minha filha estava na oitava série, apaixonou-se por um menino com pais rígidos e religiosos. Alto e esbelto, com um cabelo exuberante que caía elegantemente por seu rosto delicado, ele se parecia com um tímido e bem educado Justin Bieber. Ambos jogavam futebol nos times de ensino fundamental da escola.

Minha filha – alta para a idade – tinha sido recrutada pelo técnico de futebol da escola, que tinha assistido a um jogo de basquete feminino no qual ela tinha sido expulsa. O técnico disse que o time das meninas precisava de uma durona (ela nunca havia jogado futebol). Durante o namoro, esse tímido sósia de Justin Bieber prometeu ensinar-lhe a fazer gols se ela lhe ensinasse a ser durão. Eu estava encantada com o match.

Mais velha por um minuto, ela é a única heterossexual da nossa família; sua irmã gêmea é lésbica e suas duas mães também. Sua sexualidade exuberante era evidente desde cedo – seu prazer com seu próprio corpo era quase sempre canalizado para meninos. Na escola primária, no playground, ela sempre escolhia aqueles que gostava e andava com eles como troféus, o que precisou de conversas precoces e frequentes sobre consentimento.

Embora ansiasse por conexões emocionais com meninas e meninos, seu interesse pareceu sempre direcionado a pessoas de convicção masculina. Por anos tivemos um santuário em nossa casa para Cory Monteith, a falecida estrela de Glee; ainda marcamos o dia de sua morte no calendário da família. Como cresci em uma casa católica e irlandesa onde os desejos sexuais eram, na melhor das hipóteses, contidos, e na pior, anulados, gostei muito de ver a sexualidade dela florescer.

Os pais do namorado não estavam tão encantados como eu pelo romance escolar. Pelo que entendi, eles tinham sido criados em outras religiões e converteram-se ao islamismo. Eles insistiam no cumprimento rígido das leis religiosas. Significado: seu menino de cabelo exuberante não tinha permissão para namorar, e nem mesmo para contato físico com meninas que não eram de sua família.

Fiz o que nenhum pai ou mãe deveria: virei cúmplice para que contornassem as proibições dos pais dele levando minha filha para encontros na sorveteria e parques locais. Mais de uma vez, ela escondeu um cobertor na bolsa que levava com ela.

Ninguém precisa de um diploma de Psicologia para supor que a desaprovação de minha própria família com relação aos meus desejos lésbicos alimentou esse comportamento indecoroso da minha parte. Quando, em torno dos 20, finalmente tive coragem para me abrir com meus pais, eles expressaram sua repulsa com minha sexualidade com grande clareza, minha mãe dizendo tudo que achava que sabia sobre lésbicas – solitárias, perversas, um perigo para crianças – para mim, sua terceira e outrora filha favorita.

Ela começou o que seria uma infinita e vitalícia campanha para me mudar. Quando meus pais foram à Europa pela primeira vez, ela rezou pela minha transformação, acendendo velas em cada catedral que visitaram.

Aos 13, minha filha estava muito entusiasmada em ter um namorado, mas também, eu suspeito, entusiasmada com a natureza clandestina de seu amor. Em casa, começamos a brincar que ela era a única pessoa na família com um relacionamento “no armário”. Eu lhe disse para ter cuidado: se ela e o namorado fossem pegos pelos pais dele, ele provavelmente teria muitos problemas e ela provavelmente nunca mais o veria.

É claro que eles foram pegos. Ao invés de proibirem o romance, os pais fizeram algo que eu não esperava: propuseram um casamento temporário entre minha filha de 13 anos e o filho deles, embora eu não soubesse disso até momentos antes da cerimônia.

Uma espécie de casamento muçulmano, o contrato Mutah une um casal por um período determinado. Historicamente foi usado para que viajantes pudessem ter uma esposa temporária quando estivessem longe de sua família por muitos meses ou mesmo anos. Hoje, alguns jovens muçulmanos fazem o casamento Mutah para namorar sem quebrar as leis islâmicas.

A cerimônia ocorreu em uma cafeteria mexicana local, perto da escola. Os pais do menino estavam presentes, mas eu era a única representante da família de minha filha porque ela não mencionou a natureza exata do evento quando me pediu para ir. Eu achei que estava simplesmente indo conhecer a mãe do menino.

Minha filha sussurrou os detalhes relevantes no meu ouvido enquanto eles passavam pela porta.  Todos sorrimos de forma constrangedora durante as apresentações, o pai colocando a mão em seu coração quando eu, sem pensar, fui apertar suas mãos. A mãe do menino era extremamente bonita e, no mínimo, uma década mais jovem que eu.  

Depois que todos tomamos nossos chocolates quentes, ela pegou seu Alcorão e explicou que o casamento temporário era uma forma de permitir que nossos filhos tivessem algum contato físico sem pôr em risco a alma de seu filho. Se temporariamente casados, eles poderiam andar de mãos dadas e até mesmo se beijarem sem que o menino estivesse condenado a um estado de pecado. Imediatamente vi que, assim como minha mãe, ela era o centro moral em torno do qual a família se juntava.

Conforme a mãe dele falava, ela me olhava fixamente, seus grandes olhos castanhos brilhavam com intensidade e seriedade de propósito. Eu estava completamente consciente da ironia de nossa situação: uma mãe muçulmana negociando o casamento de seu filho com uma mãe lésbica; eu achava que ela também sabia disso. Como eu, estava tentando viver em um país no qual nem todos partilhavam de seus valores. Sem falar, ela estava pedindo para que todos nós respeitássemos as contradições inerentes ao nosso negócio distintamente americano com muito cuidado.

E assim, consenti. Consenti sem ligar para casa e consultar minha companheira de 20 e poucos anos, um lapso de julgamento que se tornaria um ponto de conflito entre nós. No café lotado, eu estava, talvez não surpreendentemente, inundada de pensamentos sobre minha própria mãe, que até sua morte ficou preocupada com a situação de minha alma. Eu pensei no que significaria para ela, para nós, se ela tivesse ido a uma cerimônia religiosa que legitimasse meu desejo, uma cerimônia que, mesmo temporária, teria transformado meu toque em outra mulher em algo que não fosse pecado.

Eu não queria que o menino ou sua mãe sofressem da mesma forma que minha mãe sofreu. Eu podia ver que suas crenças, embora diferentes das minhas, eram defendidas com paixão. Ao mesmo tempo, não queria que minha filha fosse proibida de tocar o menino que amava. Eu não queria que o que tinham feito comigo fosse feito com ela.

Então eu consenti, e os pais do menino leram as frases do ritual em Árabe, e as crianças concordaram com a cabeça e, sem que eu entendesse uma palavra, eles estavam casados. Quando a cerimônia terminou, minha filha e o menino deram-se as mãos por cima da mesa.

Seu casamento temporário durou até que terminassem um ano depois. Nesse momento, estavam no ensino médio e viraram objeto de grande fascínio para seus colegas, dos quais não mantiveram segredo sobre o casamento temporário. Minha filha teve que enfrentar uma enxurrada de questionamentos sobre como e se faziam sexo, um nível de curiosidade que ela achou perturbadoramente invasivo e, de fato, transformado em algo exótico, embora ela não tenha usado essa palavra na época ou entendido como ela se aplicava ao seu novo contexto.

Quando o primeiro amor esvaneceu, não houve cerimônia subsequente para terminar o casamento, apenas os rituais adolescentes comuns de recriminações e lágrimas.

Embora minha companheira goste de provocar que teria negociado um dote melhor para nossa filha que a bolsa de presentes simbólica oferecida – uma antropóloga, ela era a única pessoa da família que conhecia o contrato Mutah antes que ele fosse proposto – ela ficou genuinamente desapontada que eu não tivesse insistido em sua presença no dia do casamento improvisado. Ela sentiu que deixei os pais do menino muito confortáveis – minha participação solitária permitindo que eles omitissem seu conhecimento a respeito de nossa relação lésbica.

Ao não ligar para casa, deixei que a família dele ignorasse a verdadeira realidade da nossa, fingindo que as famílias eram mais parecidas, mais alinhadas do que de fato eram. Eu havia facilitado tornando iguais as diferenças e contradições que o ritual sagrado deveria conter.

Eu não acho que minha companheira esteja errada mas, ao mesmo tempo, não me arrependo da minha decisão. Eu sabia na época, como sei agora, que meu consentimento imediato ao casamento temporário era um presente que estava dando a minha filha exuberante, um reconhecimento explícito de que seus sentimentos românticos e sexuais deveriam ser honrados. Na verdade, celebrados.

Participando do ritual, estava sinalizando que não via seu corpo e alma como entidades separadas. Estava sinalizando que entendia seu desejo como sagrado, ao invés de profano e tão importante para quem ela é, e para quem se tornará, quanto meu próprio desejo tem sido para mim. /TRADUÇÃO DE LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.