'Por favor, Deus, permita que esse homem tenha 27 anos'
Heather Von Rohr, The New York Times – Life/Style

05 de outubro de 2020 | 05h00

Ele estava em Los Angeles há um mês, mas disse que não tinha visto muita coisa. O oceano, umas lojas de discos e o trecho de concreto que percorria para ir à biblioteca onde eu trabalhava. Emprestei-lhe meu exemplar de The Day of the Locust e me ofereci para ser o seu cicerone. Eu tinha quase 37 anos. Ele era muito mais jovem. Quanto mais jovem? Tive medo de descobrir.

Um ano e meio antes, eu me mudara para L.A. com uma série de aspirações: cumprir minha promessa de me tornar uma roteirista, me apaixonar, casar e ter um filho. Precisando de um emprego, aceitei o cargo bem modesto no setor de pesquisa da biblioteca de uma prestigiosa academia cinematográfica, imaginando que logo poderia subir de degrau. Mas, até aquele momento, nada tinha ido conforme os meus planos.

Embora o meu trabalho fosse humilde e o salário baixo, o emprego tinha seus pontos positivos: prateleiras cheias de roteiros encapados, tesouros da história de Hollywood e projeções de filmes clássicos, esplendidamente restaurados. Então permaneci naquele cargo, enquanto à noite, em casa e nos finais de semana eu fazia intermináveis revisões do meu roteiro atual.

Nick apareceu na biblioteca em meados de setembro, com um sorriso que deixava ver seus dentes espaçados e membros pálidos saindo dos seus shorts, e da camisa abotoada. Ele havia viajado 10 mil quilômetros de Edimburgo até ali para pesquisar a respeito de uma biografia do diretor de cinema Hal Ashby, dos anos 1970. Com um quarto alugado nas imediações da biblioteca e uma passagem de volta para três meses depois da sua chegada, Nick tornou-se um frequentador assíduo das coleções especiais da sala de leitura.

Dia após dia, lá estava debruçado sobre o material de Ashby, então chegava até a minha mesa com pedidos de fotocópias ou de ajuda para decifrar o rabisco em um manuscrito, mas também para conversar sobre filmes, choque de culturas, as bobagens de sua senhoria maluca. As nossas conversas foram adquirindo uma intimidade brincalhona, e quando ele voltava para a mesa dele, eu me pegava olhando para ele.

“Senhor, permita que ele tenha 27 anos”, eu pensava enquanto ele datilografava suas notas concentrado, a língua entre os lábios. Se ele fosse mais de 10 anos mais novo do que eu, decidi, a diferença em termos de maturidade e experiência seria excessiva. Começamos a almoçar juntos sentados em um banco, na frente da biblioteca; falávamos sobre as nossas preferências em matéria de livros, de música e de filmes como se as nossas identidades dependessem daquilo.

Fiquei aliviada quando soube que Ensina-me a viver – a história de amor de um jovem de 20 anos e de uma senhora de 79 – não era a sua obra favorita de Ashby. Em pouco tempo, eu estava levando Nick para o Griffith Park e para exibições na academia. Não perguntei quanto anos ele tinha.

Naquela altura, havia decidido que isto não importava. Ele logo iria embora, e a história acabaria ali. Mas em casa, eu ouvia a ode de Big Star ao amor adolescente, Thirteen [Treze, em português], vezes sem fim, com ardor que sugeria que, sim,  importava. Na véspera do meu aniversário de 37 anos, tivemos o nosso primeiro encontro de verdade, e enquanto o levava para casa de carro, admitimos a nossa recíproca paixão (era o termo).

Estávamos no Venice Boulevard, perto da rua da sua casa em um silêncio de incerta antecipação, quando a música no rádio mudou, e eu reconheci as primeiras notas de Thirteen. Virei para ele, sem fôlego, e disse: “Vou continuar dirigindo”. Ele não fez nenhuma objeção enquanto nos aproximávamos da praia, tendo como música de fundo a serenata de Big Star: “Vai me deixar acompanhá-la até em casa depois da escola? Vai deixar que eu a encontre na piscina?”

Treze, agora eu sabia, não era apenas uma idade que lembrava o clima do nosso romance incipiente; também se revelou a diferença entre as nossas idades. Então, ele não tinha 27 anos, mas pouco mais de 24. Antes de vir para L.A., ele morava com os pais. Era uma diferença de idade que poderia achar aceitável em uma relação se ele tivesse pouco mais de 30 e eu mais de 40, mas por enquanto a nossa única opção razoável era uma aventura.

Na praia, transamos, com areia nos sapatos e nos cabelos. Assim começou o nosso romance secreto – secreto porque não iria compartilhar minha vida amorosa com minhas colegas, e muito menos tolerar as inevitáveis piadas sobre Ensina-me a viver. Passamos o feriado do Dia de Ação de Graça no bangalô de uma amiga em Los Feliz onde fiquei tomando conta do gato dela. Numa caminhada pelos morros fomos até a cidade com uma vertiginosa surpresa, enquanto os seus horizontes refletiam a inesperada expansão dos nossos sentimentos. Quando voltei para casa, ele veio comigo.

Nos dias de semana, criamos uma rotina de largar e pegar, de olhares de reconhecimento e almoços íntimos, emocionados com a mentira inocente que nos unia. Nos finais de semanas, explorávamos a cidade, íamos a museus e livrarias, restaurantes e taquerias, praias e trilhas.

À medida que a sua partida se aproximava, a questão do futuro pairava sobre nós, até que deixei claro o que nós já sabíamos: eu queria uma família, e se continuássemos o nosso relacionamento, teria de ser com a intenção de explorarmos isto.

Passamos os últimos minutos juntos antes do seu voo sentados nos pés de um mastro da LAX, os nossos dedos estreitamente entrelaçados, uma ternura indescritível no ar. E, então, ele foi, com a promessa de que viria me visitar em março. Quando retornou, começamos a fazer planos: ele moraria comigo por alguns meses, procurando não assumir grandes compromissos, ainda que tenhamos imprimido a requisição de visto para noivos.

Então, ele aceitou uma permissão de artista residente na Escócia e deixamos os nossos planos em suspenso. Continuamos a trocar visitas, mas a cada mês ele ficava mais distante, e eu mais ansiosa. No Natal, nos encontramos em Nova York. Lá, assim como tínhamos mapeado a certa altura o nosso relacionamento recente, pelas ruas e parques de L.A., mapeamos a sua tácita dissolução. Em um telefonema, depois que regressamos às nossas casas tão distantes, ele disse: “Não posso fazer isto”.

Com o seu livro escrito apenas pela metade, e o nosso baixo poder aquisitivo, a perspectiva de nos mantermos, e ainda mais começar uma família, foi demais para ele, e a minha confiança de que daríamos um jeito não foi convincente. Ambos infelizes, dissemos adeus.

Por alguns dias, fiquei na cama, deixando que o meu corpo fizesse o luto para mim. Antes de rompermos, eu já temia que o nosso relacionamento estivesse condenado desde o começo, e o nosso futuro imaginado fosse uma loucura. Agora, sentia apenas a perda – não de algo condenado desde o começo, mas de algo que estivera quase ao nosso alcance.

Voltei para as minhas rotinas sentindo-me vazia, mas gradativamente comecei a reviver – à luz do sol, com o tempo e o crescente problema do meu sustento. A ansiedade de Nick a respeito da nossa capacidade de nos sustentarmos ficara comigo como um desafio diante dos temores e da resistência que me mantinha desempregada e não realizada. Durante meses, andei considerando soluções possíveis. Então decidi agir.

Mudei-me para Brooklyn, em Nova York, onde tinha amigos e família, fiz minha matrícula em um curso de edição de filmes, e uns dois meses mais tarde consegui meu primeiro emprego de editora. Pagava pouco, mas eu sabia que havia encontrado uma profissão – e uma cidade – na qual poderia progredir. Fiz estas mudanças por mim mesma, na minha trajetória de auto-atualização, mas ao fazer isto, me tornei uma parceira potencial mais viável e possivelmente mais digna. A mudança para a costa leste também cortava pela metade a distância física que me separava de Nick.

No seu aniversário de 26 anos, liguei para ele. Trocamos alguns e-mails exploratórios, e depois concordamos em conversar, por telefone. Não nos falávamos havia oito meses. Quando a coisa ficou mais calorosa entre nós, ele falou de repente: “Quero ver você”. Eu disse "não", preocupada com a possibilidade de voltarmos sem intenções claras. Ele ficou calado, depois algo aconteceu com ele: “Quero viver com você”.

Ele havia concluído um esboço de sua biografia de Ashby naquele dia. Pela minha antiga avaliação, ainda era muito jovem para mim, mas projetar uma vida do começo ao fim lhe dera uma nova confiança e clareza. Ouvindo que eu também tinha mudado, ele veio. Nick e eu estamos casados há 13 anos e temos uma filha de 10.

A duração do nosso casamento agora compensa a diferença das nossas idades, e, se esses anos de vida em família preencheram o hiato da idade, mal o percebemos agora. No ano passado, voltamos para a biblioteca para uma visita e para mostrar à nossa filha o lugar onde nos conhecemos. Muitas das pessoas que conhecemos ainda estavam lá, mas não fiquei preocupada com as piadas sobre Ensina-me a viver. Nós temos a nossa própria história agora. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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