Modern Love: já esperar pelo fim de um relacionamento faz doer menos?
Jessie McNellis, The New York Times - Life/Style Portuguese

19 de abril de 2021 | 05h00

Tudo começou com uma mensagem no Facebook de um garoto que eu tinha conhecido superficialmente no restaurante da escola, ou encontrava nos corredores e, principalmente, nas aulas de dança do sétimo ano.

Na nossa escola, as aulas de dança eram um horror para mim porque não eram os professores que escolhiam os pares, o que pelo menos diminuía o nervosismo. Pelo contrário, os garotos escolhiam uma parceira – uma experiência humilhante para aquelas que ficavam por último ou nem eram escolhidas. Eu já media mais de 1m80 de altura, era mais alta do que todos os meninos, o que me colocava em risco de ficar entre as não escolhidas.

Bem, ele me escolheu, apesar de não nos conhecermos. Aquela aula foi nosso único encontro importante, um encontro em que cada um de nós foi embora acreditando que o outro tinha sido o salvador.

Agora, já não éramos mais escolares: estávamos com 27 anos de idade. E do nada chegou uma mensagem dele no Facebook lembrando o trauma de sermos forçados a aprender dança de salão nos nossos anos mais difíceis. O nervosismo de ficar alinhado contra a parede esperando para ver se alguém nos escolheria ou se seríamos aleatoriamente divididos para nos juntarmos com outro casal quando o número de alunos era desigual. O alívio de um rosto amigo para tornar a experiência um pouco menos horrível.

Talvez supostamente fosse isto – um momento de gratidão por estar diante de um rosto amigo. Mas não.

Começamos a falar mais, sobre como eram nossas vidas agora, para onde enveredamos, como ele acabou se mudando para a Austrália, meus planos de sair dos Estados Unidos no ano seguinte.

Quando disse a ele que não sabia como continuar minha carreira no exterior, ele me deu uma dezena de ideias diferentes. E quando disse que não gostaria de perder eventos marcantes da minha família – como casamentos, nascimentos e assim por diante – ele respondeu que esses acontecimentos nunca acabam. “Você tem de se ater ao que é importante”. Quando ansiava por obter um visto, ele me enviou informações sobre todos os lugares para os quais eu tinha direito a viver e me encorajou sobre como valeria a pena a mudança.

Ele acabou com todas as minhas desculpas. Na época não tinha ninguém que compreendesse o caminho nada convencional que eu pretendia seguir. Havia mais pessoas me chamando a atenção e dizendo para eu ficar pelo menos para a festa de formatura, ou depois da próxima promoção ou, como disse minha colega de quarto, esperar mais um ano da nossa locação. Ele foi a primeira pessoa a me chamar a atenção para a minha relutância.

E talvez supostamente era isso – uma centelha de inspiração de uma pessoa que estava fazendo o que eu queria fazer e me encorajava a realizar meus sonhos. Mas não.

Ele retornou aos Estados Unidos em algumas semanas e estaria em Chicago, então decidimos nos encontrar para beber alguma coisa e retomar os velhos tempos. Ele foi de trem para o centro vindo da casa dos pais que moravam no subúrbio da cidade. Sua mãe o obrigou a mudar sua camisa e pegar um trem mais cedo para não chegar atrasado ao nosso encontro. Nós nos sentamos num bar, pedimos vários tipos de cerveja e ele seguiu minhas regras de degustar cada uma e escolher as favoritas.

Falamos sobre sua vida na Austrália e seus planos de ir para Nova Zelândia e depois para a Antártida, Irlanda, Noruega, Frankfurt e Ilhas Malvinas. Ele me deu mais conselhos e parecia genuinamente empolgado comigo, um raro investimento de um garoto que, apesar de termos crescido na mesma escola e feito a mesma aula de dança, era basicamente um estranho. Observei que eu me sentia mais relaxada com ele, que podia ser eu mesma sem nenhuma consequência.

E talvez supostamente fosse apenas isto – uma minirreunião do ginásio. Mas não foi.

Deixei-o na estação, desejei a ele um bom retorno à casa, e ele respondeu com um amigável “sim, senhora”, desejando que ele tentasse me beijar. Foi por pouco.

Uma semana e algumas mensagens depois, decidimos nos encontrar uma última vez antes dele voltar para a Austrália. Ele novamente veio de trem, saímos para beber algo e conversar.

Desta vez, eu não fui deixada na plataforma querendo mais. Ele não pegou o trem e tivemos uma grande noite. Perfeita. Uma noite espontânea sem nenhuma expectativa ou confusão ou tempo para pensar demais. Foi tudo tranquilo e natural, e simplesmente aconteceu.

Apenas o que supostamente deveria ser – uma relação ocasional. Mas não foi.

Fiquei aguardando o momento em que ele partiria. Ele voltou para a Austrália e procuramos manter contato através de uma enorme diferença de horário, e nada mais foi jamais prometido. Quanto tempo vai levar para ele ficar entediado?

Meus namoros sempre terminaram depois de dois meses – normalmente junto com uma declaração de que ele encontrou uma nova pessoa. Mas neste caso, dois meses se passaram, depois seis, depois nove e continuamos a falar quase todos os dias. Nunca de uma maneira que indicasse um relacionamento sério, mas com certeza éramos mais do que apenas amigos. Eu agora conhecia seu projeto de 15 anos, suas ideias sobre casamento e relações passadas, como ele passava os verões na fazenda, sua destreza poética e seu ódio irracional pelo filme Frozen.

Ele conhecia meus sonhos de abandonar o emprego e viajar pelo mundo, minha obsessão por música depressiva e cada frase que me fazia corar. Eu sentia que realmente havia alguma coisa entre nós, e parecia que, talvez, alguma coisa vinha se formando. Esperava que um dia teríamos a chance de descobrir.

Um ano depois, em fevereiro de 2020, nós nos vimos em pessoa novamente, nos encontramos em um hotel em Chicago, uma parada antes do seu próximo contrato levá-lo para algum outro lugar distante. Desta vez houve expectativas, confusão e muito tempo para refletir – pelo menos do meu lado. Mas quando ficávamos juntos, eu era arrastada para aquela zona de conforto novamente.

No início falei a ele numa conversa por telefone que compreendia como a carícia se transforma em algo sufocante realmente rápido, mas que sou doida para andar de mãos dadas. Quase podia ver seu ar de irritação.

Aquela noite eu fingi dormir e então vi quando ele chegou ao meu lado, entrou embaixo das cobertas e procurou minha mão, segurando-a o resto da noite.

Algumas semanas depois o mundo estava em lockdown por causa da covid-19 e ele seguiu para Nova York para trabalhar como enfermeiro temporário. Nossa comunicação começou a ficar mais escassa uma vez que ele trabalhava longas horas num trabalho tão intenso que eu era incapaz de compreender. E assim permaneci por meses, tentando enviar mensagens positivas e não ser chata, e ele às vezes respondendo educadamente.

E então aconteceu. O momento que eu tinha previsto para os dois primeiros meses, depois seis, depois nove. Ele conheceu uma outra pessoa. Alguém pela qual estava realmente empolgado, com quem ele se via viajando pelo mundo e aquilo se transformar numa relação real.

Desde o início tentei manter minhas expectativas sob controle, dizendo a mim mesma que havia uma chance de 99,999% de que nosso caso acabaria exatamente desse modo, com ele encontrando outra pessoa e seguindo adiante. Afinal, para mim isso nunca não tinha acontecido desta forma. E este relacionamento foi mais logisticamente desafiador do que qualquer outro que tive antes. Mas o 0,001% nunca pareceu mais possível. E eu me dei permissão para me entusiasmar com ele.

E talvez era isso o que deveria ter acontecido – eu abrir meu coração de novo. Porque, no final, é isso. Outro caso de "quase deu certo". E eu estou tão cansada dos "quase deu certo". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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