Modern Love: Alguns reformam imóveis, eu reformo homens
Kelly Sundberg, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 05h00

Eu sou uma reformadora de homens. Conheço um homem, o conserto e o troco com outra pessoa. Ao contrário das pessoas que investem em imóveis - compram casas para reformá-las e vendê-las por um bom lucro - eu não vejo lucro nenhum neste tipo de atividade, somente prejuízo.

Não quero fazer isto, mas algo me atrai nos homens emocionalmente retraídos, e tenho talento para fazê-los desabrochar. Ao que tudo indica, para as suas futuras namoradas e esposas.

Certa vez, vi um meme sobre "opções de namoro" na meia idade, que mostrava uma piscina vazia com espreguiçadeiras, e cheia de lixo. Ri porque aquilo era a mais pura verdade. Nunca esperara voltar a namorar na casa dos 40 anos. Pensei que havia evitado este destino quando me casei com pouco mais de 20 anos.

O meu primeiro amor foi um acadêmico que gostava de beber demais e parou depois que rompemos e acabou se acomodando com uma esposa e uma criança e um acre de terra no Noroeste do Pacífico. O meu segundo amor foi um biólogo emocionalmente atordoado que dirigia uma Toyota Tacoma e ouvia Kid Rock, mas em quem identifiquei, e alimentei, uma profunda ternura. Rompeu comigo um dia depois de finalmente me dizer que me amava (acho que isso o assustou), e mais tarde casou com a mulher com quem eu morava quando namorava com ele.

Depois desses dois desgostos, meus amigos brincavam dizendo que o meu talento secreto era ensinar aos homens a amar alguém - só que não eu. Pensei ter quebrado o padrão quando casei, mas o homem que se tornou meu marido revelou-se um indivíduo volúvel e cruel. Tivemos um filho juntos, mas por mais que eu me esforçasse, nunca consegui consertá-lo. Pelo menos, não para mim.

Depois do nosso divórcio, ele casou com uma mulher dez anos mais nova do que eu; me perguntei se todo o trabalho que tive para que ele assumisse o seu comportamento e compreendesse que a necessidade de mudar significaria que a sua nova esposa seria poupada do tratamento mesquinho que eu recebi. Desejei um casamento mais calmo para ela, o que aparentemente aconteceu.

Os anos se passaram e, na minha vida depois de casada, voltei a querer reformar homens. Houve o ex-monge que se abstinha de todas as coisas, inclusive do sexo, mas quando parei de vê-lo, ele começou um relacionamento com uma acupunturista. Depois veio o bombeiro que apagava incêndios florestais que me caçou durante anos e desapareceu quando finalmente eu fiquei disponível. Todos estes fracassos me tornaram uma mulher desiludida, celibatária e prestes a desistir.

Então, aos 40, conheci Rich. Ele estava sentado do lado oposto do bar e aparentava 25 anos (na realidade eram 32). Alto, magro, olhos suaves, me pareceu o tipo certo de alguém pelo qual jamais me apaixonaria - não de maneira a perder o controle.

Convidei-o para a minha casa, fizemos sexo, disse a ele que deveríamos fazer isto de novo, em algum momento, e marquei o seu telefone no meu celular. Sabia que era arriscado, mas ele era tão doce e sincero. Aquele sentimento de segurança era algo completamente inusitado para mim.

Como sou uma mãe divorciada e protetora do meu filho, só encontrava com Rich quando ele ia para a casa do pai, por isso nós nos víamos a cada quinze dias. Foi um arranjo casual, mas também estranhamente estável. Não eram convites para sexo casual; eram visitas planejadas. Eu preparava o jantar, e nos acariciávamos.

Gostávamos um do outro, mas nossa dinâmica era que eu tomava conta dele. Sabia que para um relacionamento sério, precisava de alguém que também tomasse conta de mim. No entanto, gostava dos momentos que passávamos juntos, e queria que isto durasse.

À medida que fomos nos conhecendo, constatei que ele era antiquado nos assuntos do coração. O mais novo de sete irmãos, ele era o caçula da família. Era estritamente monogâmico, e eu nunca me preocupei se ele estava vendo mais alguém porque ele era honesto - quase ao extremo, pela maneira como expressava suas hesitações e dúvidas.

Tampouco tentava fazer charme, elogiar ou dizer o que eu desejava ouvir, algo ao mesmo tempo persuasivo e estranhamente bonito. O casamento fez com que fosse difícil para mim confiar nos homens, mas eu confiei em Rich.

A primeira vez em que quase rompemos foi quando ele chegou e disse: “Acho que deveríamos terminar. Tenho a sensação de que isto vai acabar de uma maneira horrível”.

Olhei para ele por um bom tempo, então disse: “E se não for assim?”

Alguém certa vez me perguntou se eu sabia de onde vinha a minha resiliência, depois disse: “Acho que frequentemente, no caso das mulheres, erramos porque adaptação, na realidade, não passa de resistência”.

Não sei se minha resistência me serviu como deveria. É preciso ter um tipo especial de resistência para olhar para o trem se movendo e dizer: “Mas e se ele não me atingir desta vez?”

Rich e eu tivemos outras separações depois daquela. Eu comecei a querer mais, mas as nossas vidas eram incompatíveis, por isso rompemos e continuamos amigos. Então aceitei um emprego a 120 quilômetros de distância, e pareceu que seria bom fazermos sexo “só mais uma vez” antes que eu me mudasse. Mas eu não estava me mudando para muito longe, então pareceu certo que ele viesse me visitar ocasionalmente.

Então as visitas eram tão interessantes que se tornaram regulares, passamos quatro dias juntos enquanto meu filho estava com o pai no feriado de Ação de Graças, e durante esta visita, eu tive um começo de gripe, Rich foi passear com o meu cachorro, me levou chá e cozinhou para mim.

De repente, estava sentada à mesa da cozinha enquanto ele fazia pão de milho e pensei: “Oh, não. Ele está tomando conta de mim agora. Este é um território perigoso”.

E o que posso dizer sobre mim mesma se quando um relacionamento começa a ir bem é quando o medo começa a se insinuar? O que dizer a respeito da minha história de sofrimento amoroso, que presumo que os homens me deixarão quando finalmente aprenderam a me amar? Nos filmes de horror, as coisas são sempre mais calmas pouco antes de o monstro pular do seu armário. Passei a maior parte da minha vida adulta antecipando os monstros.

E eles chegaram. Em janeiro do ano passado, pouco antes da pandemia, ele teve uma crise de confiança e rompeu comigo. Dessa vez, durou. Nenhum de nós entrou neste relacionamento pensando que seria para sempre, mesmo assim fiquei arrasada.

Há algo de bom e ruim em viver com o coração partido durante o inverno, ainda mais durante o distanciamento social, sozinha com meu filho. Continuei esperando acordar e não sentir falta de Rich, mas cada manhã era uma decepção.

Ocorre que ele também sentia a minha falta, portanto em julho, enquanto meu filho passava parte das férias com o pai, voltamos de novo, e fomos honestos um com o outro; nós não sabíamos aonde nossas vidas nos levariam, mas poderíamos estar comprometidos um com o outro enquanto guardávamos o espaço para esta incógnita.

Nunca me senti muito bem em um espaço de incerteza, mas o divórcio me ensinou que não há garantias nos relacionamentos. Talvez, pensava, só desta vez, o trem sairia dos trilhos antes do impacto. Mas se não saísse, eu sabia que teria a capacidade de suportar para sobreviver.

Nesses mais de oito meses em que estamos juntos, finalmente dissemos “eu te amo”, e ele conheceu meu filho (eles se adoram). Também conversamos a respeito de fazer uma casa juntos. Mando a lista da corretora e ele faz os seus comentários. Sei que nenhum de nós jamais amou o outro desta maneira, e que o que nós temos é especial.

No entanto, ele me disse que acha que quer ter filhos algum dia, e mais filhos não estão no meu futuro. Os monstros estão pondo a cabeça para fora. Preciso viver com esta incógnita. Minha resistência me mantém aqui: olhando o trem e esperando que ele saia dos trilhos. Ele me disse recentemente: “Você me ajudou a crescer. Eu sou uma pessoa diferente daquela que era quando te conheci”.

Eu sei que é verdade, e quando olho para ele, posso ver o seu futuro com alguém de muita sorte, e é por isso que não quero reformar esse aqui ainda. Quem sabe, desta vez, aquela pessoa de muita sorte seja eu mesma. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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