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'O fantasma foi o menor dos problemas nessa casa assombrada'

'O fantasma foi o menor dos problemas nessa casa assombrada'

Após coisas horripilantes começarem a acontecer na nossa nova casa, uma coisa assustadora aconteceu no nosso casamento

Allyson McOuat, The New York Times - Life/Style

29 de novembro de 2020 | 05h00

Meu fantasma é uma mãe. Convenci-me disso por causa do seu comportamento e da história da nossa casa. Sabemos que uma mãe morreu aqui, na propriedade. Disseram-nos que a casa de três andares do período vitoriano seria vendida “no estado atual” após a trágica morte dos antigos proprietários, um casal.

“Não morreram dentro da casa", disse o corretor, sem entrar em detalhes. Não xeretamos. Somos canadenses. Minha mulher adorou o desafio que a reforma da casa representaria. Eu adorei a localização, perto de amigos queridos. Depois de sermos superadas em várias propostas de compra de outros lugares, ficamos animadas em saber que nossa oferta fora aceita. Eu tinha acabado de engravidar, e a casa tinha um preço ótimo.

A compra incluía todos os eletrodomésticos, as luminárias e um fantasma cheio de opiniões — cuja presença só seria detectada meses mais tarde. Afastamos do caminho as preocupações e nos concentramos na construção de nossa nova vida. Minha mulher começou a reformar tudo enquanto eu me concentrava no barrigão, cada vez maior. Mas, relembrando, percebe-se que o azar nos encontrou já na porta da frente. Fui mantida em repouso por causa da aparente “incompetência" da minha cervix e permaneci na cama durante quase sete meses.

Quase tudo na casa precisou ser trocado. O encanamento foi refeito e toda a fiação foi repassada pela estrutura de madeira. A história foi demolida e a ordem restaurada graças às mãos capazes da minha mulher. Ela não precisou da minha ajuda, a não ser para responder ocasionalmente as perguntas gritadas: “O que faço com todos esses crucifixos pregados nas paredes? Jogo fora?” Ficar de repouso não foi tão mau. A casa estava cheia de amigos e parentes que opinavam e participavam da reforma. Nossa felicidade só aumentou quando nasceu nossa menininha.

A maternidade me deixou intoxicada. Sentia-me como uma super-heroína. Criei uma vida no meu útero, de longe o feito mais notável de qualquer um dos meus órgãos. Às vezes, minha simples presença era suficiente para acalmá-la. Mas não éramos as únicas mães da casa.

Fantasmas são especialistas em praticar o gaslighting. Logo começamos a questionar nossos olhos e ouvidos.

Quando a porta do nosso quarto abriu com um rangido durante a mamada das três da madrugada, pensei que fosse algum problema na fechadura, como um bebê com dificuldade em encaixar a boca no seio. Mas tive a sensação de alguém ter entrado no quarto balançando um dedo enquanto eu dava a mamadeira. Então, de repente, a televisão foi desligada, como se dissesse, “Se não vai amamentá-la no peito, pode pelo menos prestar atenção no bebê?”

Fiz pouco do episódio, imaginando ser resultado de problemas na fiação somados à falta de sono. Mas, alguns meses mais tarde, o “problema na fiação” ficou mais atrevido. Decidi colocar a bebê na cama mais cedo certa noite, e apaguei a luz ao entrar no quarto. Mas, assim que a coloquei na cama, a luz se acendeu novamente. Perplexa, fui até o interruptor, que estava na posição de “ligado”. Curioso.

Desliguei a luz, mas, assim que a bebê tocou o colchão, a luz se acendeu novamente. Em vez de ficar assustada, aquilo me irritou. As opiniões maternas desse fantasma tinham extrapolado os limites. Estava discutindo comigo, dizendo que era cedo demais para colocá-la na cama. Será que eu não percebia isso? Bem, eu já era mãe há seis meses. Sabia o que estava fazendo. Reuni minhas forças e anunciei ao quarto: “A bebê vai dormir. Agora."

Assim que as palavras deixaram meus lábios, fomos mergulhadas na escuridão. Gritei e saí correndo com a bebê escada abaixo, em direção aos braços da minha companheira, que tinha ouvido tudo. Ela acalmou meus nervos frágeis, deu uma olhada no quarto e voltou para explicar, calmamente, que eu tinha enlouquecido. Fantasmas não existem. Ela tinha razão. O botão provavelmente escorregou.

Ou talvez o fusível estivesse queimando. Uma coincidência. Seria tolice duvidar da explicação dela. No dia seguinte, minha mulher investigou um pouco. Quando cheguei em casa, ela estava andando pela casa com um maço de sálvia em chamas, para afastar os espíritos malignos.

Nossa segunda filha nasceu três anos e meio depois. Mais espirituosa que a primeira, ela trocava a noite pelo dia, mas era engraçada e charmosa, e seus olhos azuis e sorridentes nos faziam esquecer tudo. De todo modo, já estávamos nos acostumando às noites em claro naquela casa. Certa vez, um pesadelo me fez despertar. Enquanto meus olhos se ajustavam à escuridão, vi um vulto escuro acima de mim, exatamente do tamanho de uma cabeça humana. Sob as cobertas, procurei a mão da minha mulher, que ainda dormia, e sussurrei, “Ainda estou dormindo?”

Ela abriu um pouco os olhos, e em seguida os arregalou. “Jesus!” disse ela, levantando de um salto e acendendo a luz. Não era uma cabeça, é claro, mas um balão de hélio meio murcho que sobrou da festa da nossa filha, uma bagunça que eu ainda não tinha arrumado. O balão veio flutuando da sala, atravessou o corredor, entrou no nosso quarto e foi parar justamente sobre meu rosto enquanto eu dormia. O tipo de coisa que vive acontecendo com balões. O maço de sálvia flamejante voltou.

Com o passar dos anos, as coisas ficaram mais difíceis para nós. O dinheiro era curto. Os mesmos desgastes aos quais sobrevivíamos antes agora tinham muito mais peso, com duas filhas para criar. O tempo que tínhamos juntas foi engolido pelas intermináveis tarefas e reparos que a casa exigia. Já as ocorrências estranhas… Quase não pensávamos mais nelas.

Um copo deslizando por todo o comprimento da mesa de janta? Condensação. Uma cadeira de balanço balançando sozinha? Desnível no piso. Ignorei muitas das ameaças invisíveis ao nosso redor pensando serem benignas. Diariamente, dizíamos a nós mesmas que tínhamos tudo que desejávamos. Éramos felizes, certo? Mas eu não conseguia afastar a sensação de que algo tinha morrido. Será que nosso amor, tão celebrado, tinha se tornado apenas um balão meio murcho? Não!

Nossa história de amor era sólida e verdadeira. Tinha certeza que nos reencontraríamos depois que a primeira infância chegasse ao fim. Em vez disso, milha mulher desapareceu. Bem, ela não desapareceu de verdade. Ela simplesmente foi embora. Chamam de divórcio-tsunami: talvez enxerguemos uma onda de problemas no horizonte, mas não acreditamos na sua magnitude até ser tarde demais.

Nesse novo mundo, a vida parecia um borrão de pesar. As crianças cresceram. A guarda compartilhada começou. Às vezes, poderia jurar que ouvia os passos de minha ex-mulher no corredor. Com frequência, eu me via sozinha em uma casa assombrada cheia de lembranças e perguntas. Onde eu errei? Mais alguém percebeu que isso aconteceria? Para onde foi todo mundo? A própria casa parecia morta.

Como se toda a vida tivesse ido embora, e não apenas uma pessoa. Eu a preenchi novamente com novos amigos, novas amantes, bichos de estimação e jantares, mas a sensação era como se tudo tivesse uma animação falsa. Até o fantasma tinha desistido de mim. Nada de quadros caindo das paredes. Nada de portas batendo. Apenas silêncio.

Até que, um dia, enquanto eu assistia TV de madrugada, a cadeira giratória de meados do século, cheia de roupas tiradas da máquina, começou a girar sozinha. Ela estava de volta — e queria que eu arrumasse as roupas limpas! Jamais saberei se ela era real, ou se eu simplesmente precisei que ela fosse real — talvez perguntar se fantasmas são reais ou não seja a questão errada. A questão certa era: eu me sentia próxima àquele fantasma.

Éramos um estranho casal sobrenatural, duas mães cujos planos de vida tinham mudado dramaticamente sem que fôssemos consultadas. Talvez tenhamos nos rendido às circunstâncias, mas não estávamos prontas a deixar nosso lar. Recentemente, depois de enfrentar a mais sombria das forças das trevas (o advogado do divórcio), a placa de “vende-se” foi colocada do lado de fora, os quadros foram tirados das paredes e finalmente me despedi do meu fantasma.

Agradeci a ele por acreditar em mim. Segui adiante. Agora, amo me sentar na nova varanda, sob as luzes, assistindo a vida passar. Às vezes minha ex-mulher vem visitar em seu jipe, música alta, crianças no banco de trás e a noiva ao seu lado. E eu sorrio, lembrando como foi emocionante ser a passageira da vida dela. No fim, tudo que eu queria era que nossa família fosse feliz, não importava de que jeito. Se essa não é a realidade que imaginei, ao menos podemos nos deitar em nossas casas separadas e descansar em paz. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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