Modern Love: Um casamento sobrecarregado por obsessões e compulsões
Nicole Comforto, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 05h00

Uma manhã, quando nosso filho tinha quatro meses, meu marido notou uma pequena mancha vermelha no nosso bebê. Como qualquer pai que tem dificuldade para domir, meu marido foi para o computador e pesquisou “mancha vermelha no lábio do bebê” no Google. Vinte minutos mais tarde, voltou pálido e hiperventilando; teve de colocar a cabeça entre os joelhos para não desmaiar. Ele tinha entrado em um buraco negro na internet e encontrado a história de um bebê com uma mancha vermelha no lábio que acabou adoecendo tragicamente.

A mancha do nosso filho desapareceu em questão de horas. Mas na realidade, aquele foi o primeiro sinal de algo terrível - o transtorno de ansiedade do meu marido.

Na noite em que conheci Mike, ele me encantou em um popular jogo de curiosidades em um bar de Seattle com o seu conhecimento enciclopédico. Sou terrível nas curiosidades, mas fiquei com vontade de aprender tudo a respeito deste cientista da computação de 25 anos com o sorriso fácil que compartilhava o meu amor por criar letras bobas para canções pop. Frequentemente, ele perdia coisas e tinha um refrigerador repleto de comida vencida, mas era confiável nas coisas que importam: tratava as pessoas com carinho, falava a verdade, e gostava de estar presente.

Imediatamente, combinamos de ir a festivais de música em vilarejos remotos na América do Sul e acompanhar meus estudos universitários em Paris.

Estas são algumas das coisas que ele me ensinou naqueles anos de aventuras:

Todas as linguagens de computador são feitas de zeros e uns.

A couve-flor é realmente uma flor.

Leva oito minutos para a luz solar chegar até a Terra.

Eu não sei o que o fez reagir daquela maneira por causa da mancha no lábio do nosso filho naquele dia. Foi talvez a exaustão de um pai de primeira viagem? Nenhum de nós dois dormiu mais de cinco horas seguidas durante meses. Certa preocupação parecia normal. A questão era: quando é que demais era, de fato, demais?

Nos anos seguintes, Mike revelou aquele grau de ansiedade que o tornava incapaz muitas outras vezes, quando descobertas insignificantes provocavam o fim do mundo. Toda vez, ele entrava em pânico e depois ficava desanimado, como se o pior resultado possível já tivesse acontecido. Toda vez, eu o tranquilizava até que o medo passava. Horas mais tarde, meu marido lógico e confiável voltava.

Então, fiquei grávida de novo. Assim que soubemos que havia outra criança a caminho, a ansiedade de Mike se tornou mais do que um visitante ocasional: ela realmente se instalou entre nós. Recentemente, havíamos comprado em Seattle uma casa tamanho família com um quintal, e de repente ele começou a ver perigos em toda parte.

Em um dia de fevereiro, ele jogou um pedaço de madeira deixado pelos donos anteriores ~dentro do fogão a lenha e depois correu para ver na internet sobre os perigos em potencial de queimar madeira de sobras. Vinte minutos mais tarde, ele apareceu com o rosto meio cinzento e tremendo. “Ah, não”, ele disse, despencando no chão.

“O quê?”

“Me desculpa. Sou um completo idiota. A madeira que coloquei no fogo? Provavelmente foi tratada com arsênico”.

O que significava? Nunca tinha ouvido falar de pessoas que morreram por queimarem madeira em seu fogão a lenha, mas o que é que eu sabia? “Por que você não pensou nisso antes de queimar a madeira no fogão?”

“Não sei!”

“Não vai ter nenhum problema”, eu disse. “Não vamos morrer por causa disso”.

“Você tem certeza? Me prometa que eu não acabei de envenenar a nossa família”.

Eu prometi, várias vezes, mas levou dias para ele se acalmar. Nós não pudemos tocar no fogão a lenha por todo o resto do inverno.

E não foi apenas o fogão. Mike passou a se apavorar com qualquer coisa que, segundo ele, poderia nos fazer mal. Quando chegou o verão, ele nos proibiu de comer os mirtilos dos arbustos do nosso deque porque a madeira nos canteiros poderia ter sido tratada com arsênico e este poderia ter absorvido pelo solo. As preocupações com envenenamento de comida e de botulismo significaram que nós tínhamos de jogar os alimentos perecíveis perto da data do vencimento. Sempre que saímos para viajar, ele sempre precisava voltar em casa para verificar o forno e as portas. Ele via plantas venenosas no nosso bairro e nos fazia ficar bem longe delas.

Algumas coisas que aprendi sobre medos racionais (e irracionais):

O arsênico pode realmente envenenar as pessoas, mas são necessários anos de exposição, mais comumente por água contaminada.

O botulismo leva cerca de 72 horas para começar a paralisar os músculos.

O veneno da cicuta (planta) pode começar a matar no prazo de uma hora.

Quando uma pessoa na qual confiamos começa a agir de modo irracional, a coisa se torna desestabilizadora. É claro que havia sempre um pouco de verdade em suas preocupações. Por outro lado, eu não tinha nenhuma razão para acreditar nas horríveis coisas que ele temia viessem a acontecer, mas também não podia provar que não pudessem. E, se você procura na internet para justificar os seus medos, ela em geral o faz.

Eu sabia que os seus temores eram uma decorrência do seu amor e do desejo de nos proteger, mas era impossível conviver com isso. Várias vezes ao dia, ele surtava a respeito de alguma ameaça obscura que jamais teria passado pela minha cabeça. Tentava tranquilizá-lo, encarando a coisa de maneira lógica, enfatizando que os seus medos eram ridículos.

Pela primeira vez no nosso relacionamento, comecei a esconder coisas dele (pois é, eu comia os mirtilos do deque). Enquanto Mike se preocupava por tudo que pudesse nos prejudicar, eu me preocupava com ele. A nossa vida se tornou uma questão de sobrevivência diária, superando as crises do momento. As pessoas preocupadas não fazem planos e nem vão em busca de aventura.

À medida que a minha barriga crescia, a ansiedade de Mike se tornava mais frequente e maior. Ele começou a falar com um terapeuta, mas isso não adiantou. As minhas tentativas de tranquilizá-lo não eram mais suficientes; ele mergulhava numa espiral de medo, vasculhando a internet durante horas. Comecei a pensar se deveríamos viver separadamente, porque ele aparentemente não conseguia suportar o medo de viver conosco.

A ironia é que a obsessão com a segurança pode, na realidade, tornar as pessoas menos seguras porque elas se tornam tão concentradas em um problema imaginário que não veem o problema real. Quando ele deixava o nosso filho na pré-escola, Mike temia que ele machucasse acidentalmente alguém, sem se dar conta. Em vez de prestar atenção na estrada, ele passou a olhar obsessivamente no espelhinho do retrovisor.

Pedia para ele parar de se preocupar e prestar atenção na direção.

Quando expliquei a situação ao meu terapeuta, ela recomendou que procurasse alguém especializado em transtorno obsessivo-compulsivo, TOC, que Mike e eu conhecíamos um pouco. Mas o que imaginávamos saber era a versão cinematográfica; lavar as mãos com frequência, ligar e desligar as luzes, evitar de pisar nas rachaduras. Estes não eram os problemas de Mike.

Além disso, as pessoas muitas vezes associam o TOC a uma “esquisitice”. Como poderia meu marido distraído, com suas pilhas de roupas sem dobrar, ter TOC?

Um especialista explicou que a obsessão de Mike não era a limpeza, mas a segurança, principalmente a respeito de contaminação e envenenamento. As suas compulsões eram a pesquisa e a busca de reconfirmação. Como uma droga que vicia, a reconfirmação tinha cada vez menos efeito, portanto ele exigia cada vez mais para superar o medo.

Por isso, sempre que eu prometia a ele que tudo acabaria bem, na realidade, estava alimentando o seu distúrbio.

O que aprendemos com o TOC:

Os sintomas em geral surgem durante a infância ou a adolescência, mas também podem surgir na vida adulta.

Uma vez que os sintomas começam a aparecer, costuma levar diversos anos para as pessoas receberem o diagnóstico e o tratamento corretos.

Felizmente, o tratamento pode ser muito eficiente.

Na nossa primeira consulta com o especialista, fizemos uma lista de todas as coisas que mais preocupavam Mike e as colocamos em ordem de importância. Depois, começando com as mais fáceis, ele passou a encarar os seus medos e a sentir apenas desconforto.

Ele comia uma amora não lavada. Começou a levar sapatos sujos de lama (e germes) na entrada da nossa casa. Acendia o nosso fogão a lenha há muito tempo em desuso. Com a ajuda de ansiolíticos, ele conseguiu mudar as suas reações a essas situações e a outras que anteriormente o deixavam imobilizado.

Mike ainda tem surtos de ansiedade, mas agora temos um protocolo, e isso provavelmente salvou o nosso casamento, principalmente no estresse da pandemia. Quando ele fica ansioso de maneira que é possível virar problema, ele usa uma frase como um código para se afastar das crianças (”Papai precisa consertar alguma coisa no quarto”).

Depois de sair, ele chama um amigo ou um membro da família para ouvir “uma  perspectiva de uma “pessoa razoável” a respeito do que fariam nessa situação. Depois, ele deve fazer o que essa “pessoa razoável” faria, o que, em geral, é absolutamente nada.

Também compartilha amplamente a sua história, e me encoraja a fazer o mesmo, na esperança de que os outros possam beneficiar-se disso.

Os nossos filhos agora têm 6 e 2 anos. Ambos herdaram o enorme sorriso de Mike, o seu dom da palavra e o seu prazer em aprender como as coisas funcionam. Também podem ter herdado a sua predisposição ao TOC.

Aqui estão as lições mais difíceis que aprendi:

Nem sempre podemos proteger as pessoas que amamos, por mais que nos conheçamos.

Os nossos planos – e as nossas vidas – podem se desfazer em um instante. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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