Um homem (e refeições) por quem vale a pena se perder o sono

Um homem (e refeições) por quem vale a pena se perder o sono

O cozinheiro chegava depois da meia-noite e preparava algo digno do guia Michelin. O que era ótimo, até que eu não consegui mais manter meus olhos abertos no trabalho

Rebecca Bohanan, The New York Times - Life/Style

14 de dezembro de 2020 | 05h00

Ele dizia que era cozinheiro, o que parecia um título muito informal para alguém que trabalhava na cozinha de um restaurante com três estrelas. Mas cozinhar era o que ele fazia, preparando as receitas de outro chef como um trampolim no caminho para seus maiores sonhos culinários.

Nós nos conhecemos anos atrás em um bar do Flatiron Building quando a noite de quinta-feira se transformava em manhã de sexta-feira. Ele tinha acabado de sair do trabalho. Eu estava indo para casa dormir.

"Você está indo embora?", ele perguntou. "É tão cedo."

Ele parecia revigorado, mas acho que isso era mais pela adrenalina por ter passado um ótimo dia na cozinha trabalhando do que qualquer energia que eu tinha levado para o encontro. E isso foi o suficiente para eu ficar um pouco mais. Quando não consegui mais manter os olhos abertos, fechei o zíper do casaco e ele pediu meu número. Alguns dias depois, por volta das duas horas da manhã, ele entrou em contato.

Você já recebeu uma mensagem de texto no meio da noite com: “Ei! Tenho os ingredientes para preparar dois Miyazaki Wagyu grelhados no carvão com cebolinhas e jus gras”? Eu também nunca tinha recebido.

Consegui sair da cama e esperei na porta. Quando ele chegou, carregando sacolas cheias de comida, perguntei-me se ainda poderia estar sonhando - um encontro tarde da noite saído de alguma comédia romântica esquecida. Um encontro comendo quando eu não estava com fome e conversando quando deveria estar dormindo, tudo pelo prazer de realizar essa extravagância. Além disso, a comida era boa.

Foi assim que ele me cortejou: só depois que a cozinha fechou. Algumas vezes por semana ele vinha entre meia-noite e duas da manhã, geralmente algumas horas depois de eu ter ido para a cama, e ficávamos até o amanhecer cozinhando, comendo e rindo. Em seguida, ele seguia em sua longa viagem de metrô do meu apartamento no Upper East Side de volta ao Brooklyn. Poucas horas depois, chegaria a hora de eu ir trabalhar, o que mal conseguia fazer.

Estava exausta a ponto de quase delirar. Uma atividade totalmente nova tinha sido adicionada às minhas noites, enquanto as atividades dos meus dias permaneciam as mesmas. Eu acordava no horário normal (embora não precisasse mais do café da manhã), tomava banho, vestia-me e ia para o trabalho, pegando o metrô entre a rua 82 e avenida York até o Chelsea Market, onde me sentava à minha mesa das 9h às 18h, verificando as informações dos guias de restaurantes Zagat enquanto sonhava com as refeições que pareciam ter sido preparadas em um restaurante sendo feitas em meu próprio apartamento.

Embora a cidade estivesse cheia de blogueiros gourmets, eu não era um deles. Aceitei o emprego no Zagat como um meio para um fim, uma forma de pagar minhas contas para poder escrever sobre o que queria. Todos os dias, eu logava no meu computador e passava os olhos pelo nome de usuário “achlumsky”, pertencente a Anna Chlumsky, que havia trabalhado no mesmo emprego que eu por alguns meses e a quem agora assistia todos os domingos à noite em Veep.

“Ela também tinha outros sonhos”, pensei. “Eu chegarei onde deveria estar em algum momento.” Esse “em algum momento” era deixado para um futuro ainda mais distante quanto mais tempo eu passava com o cozinheiro. Ficar acordada com ele o tempo todo me deixava muito cansada para fazer qualquer outra coisa além de trabalhar, dormir e comer.

Ao mesmo tempo, era revigorante vê-lo, à medida que inventávamos maneiras de nos conhecermos enquanto o resto do mundo dormia. Logo ele estava me ensinando como os pratos eram preparados. Permaneci no calor de meus sentimentos crescentes e do fogão a gás aprendendo a aquecer minha frigideira a uma temperatura que o guia Michelin considerava aceitável para um corte de carne de primeira com cinco centímetros de espessura.

Nenhum dos meus amigos estava em um relacionamento assim. Era uma relação rebelde, como duas crianças acordadas depois da hora de dormir. Sempre que o cozinheiro me visitava, ele chegava com novas escoriações nos braços - danos causados por chamas, o maior perigo de seu trabalho. Certa noite, ele chegou com uma queimadura particularmente forte que se estendia do pulso ao cotovelo.

“Você deveria passar algo nisso,” eu disse.

“Nah.”

"Mas vai deixar uma cicatriz."

“Cicatrizes são boas”, disse ele.

“Elas são lembranças do que você fez.”

“As suas dão uma ideia um pouco equivocada”, eu disse. "Parece que você já esteve em um combate corpo a corpo."

"Estive. Todas as noites naquela cozinha, luto pelo que realmente importa para mim. ”

"Um emprego?"

“Não,” ele disse.

“Não é um emprego. Vou abrir meu próprio restaurante. Onde farei meu próprio menu. Vai ser meu lugar, do meu jeito. Vou estar na minha cozinha, dizer a algum outro iniciante idiota o que cozinhar, então vou olhar para essas cicatrizes e me lembrar de tudo que fiz para chegar lá. Mas talvez você não entenda isso. Talvez você só entenda de empregos”.

Foi um nocaute e tanto. Claro que entendia, também tinha sonhos. Mas eu estava sacrificando o meu por um cara que não estava cedendo nada do dele. Estávamos fazendo tudo seguindo seus horários, o que me deixava exausta demais para fazer qualquer outra coisa. Eu não achava que tinha escolha.

Eu me perguntava se tudo mudaria caso eu insistisse em uma mudança. Poderíamos nos encontrar no meu horário de almoço, nas horas vagas dele. Ele poderia estar exausto, ficando acordado durante sua única oportunidade de dormir. Eu poderia manter meu tempo livre usando o dele.

Algumas vezes tentei forçar uma mudança, mas nunca funcionou. Depois de termos nos encontrado de acordo com seus horários por meses, ele conseguiu um segundo emprego em outro restaurante. Com ele trabalhando sete dias por semana, tentamos sair durante sua janela de descanso em um sábado, mas ele não conseguia manter os olhos abertos.

"Como você conheceu sua última namorada?", perguntei.

“No trabalho.”

“Ela também era cozinheira?”

“Hostess.”

“Ah”, eu disse. “Então vocês saíam quando o restaurante fechava?”

“Quando mais seria?”

“Sim, quando mais.”

Eu o acompanhei até o metrô enquanto o sol nascia sobre o East River. Sob a luz do amanhecer, eu o vi de uma nova maneira e ele deve ter me visto do mesmo jeito. "Você tem algumas cicatrizes", disse ele, apontando para o meu joelho. “Só das minhas quedas de bicicleta”, eu disse. “Nenhuma por ir atrás da minha missão de vida.”

Naquela noite, sentei-me para escrever. E quando o cozinheiro enviou uma mensagem para saber se eu estava acordada, não respondi. Alguns dias depois, perguntei se poderíamos nos ver antes dele começar a trabalhar e não depois, mas ele não respondeu. À medida que meus horários se reajustavam, nossos mundos se separavam. Tentei ligar para ele uma última vez em alguma estranha tarde de terça-feira, mas ninguém atendeu.

E me senti aliviada. Comecei a mergulhar em meu próprio sonho novamente, por mais limitado que fosse. Voltei a ir para a cama na hora normal e a dormir a noite toda. No entanto, meu tempo com o cozinheiro tinha mexido comigo.

E nos restaurantes, lanchonetes e food trucks de taco em que passei todos os dias, conheci outro mundo. Sim, os chefs eram o centro das relações; intransigentes em suas visões e disciplina, enquanto seus entes queridos se adaptavam às suas regras e horários - uma tarefa nada fácil.

Mas isso era apenas parte disso. Viver na órbita de cada chef é um universo entre muitos outros. Alguns, como eu, simplesmente procuram um meio para um fim em seu setor específico. Eles sacrificam seu potencial para encontros “normais” nas noites de sexta-feira e fins de semana com suas famílias para pagar suas contas. Para alimentar o resto de nós durante nosso tempo livre.

Em março deste ano, quando os restaurantes fecharam as portas por causa do novo coronavírus, pensei no cozinheiro (e na nova namorada hostess que imaginei para ele) fechando um restaurante vazio. Depois, eles iriam para casa e preparariam juntos, pela primeira vez desde que estavam juntos, um jantar às 19h, antes de irem para a cama e adormecerem em um horário razoável.

Quão sufocante é ser forçado a mudar drasticamente de um horário para outro sem qualquer aviso. Sem fazer escolha. Como devia ser difícil ter que frear no meio do caminho do que mais importava para ele. Todos os dias passo por restaurantes do meu bairro e vejo como eles estão se adaptando para nosso benefício.

Vejo as janelas improvisadas para entrega de pratos, a fita adesiva no chão mostrando aos clientes onde cada um deve estar para garantir dois metros de distância. Vejo os ingredientes de suas receitas sendo vendidos como itens de um supermercado. Vejo cadeiras empilhadas em mesas com placas que dizem “Proibido sentar” e os funcionários que tiveram a sorte de serem mantidos na folha de pagamento com luvas e máscaras.

Todas as feridas visíveis da batalha que estamos travando contra este vírus. Algumas irão sarar mais cedo ou mais tarde, mas não sem cicatrizes - desta vez, um lembrete indesejado. Penso em todos os sonhos que estão terminando e aqueles que nunca começarão. Penso em todos os sacrifícios que estão sendo feitos e me pergunto se algum deles será suficiente. E me sinto grata pelo cozinheiro, seus sonhos e até pelo sono que perdi por ele. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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