'Como confrontei o impostor que usava minhas fotos em golpes românticos'

'Como confrontei o impostor que usava minhas fotos em golpes românticos'

Um sujeito estava usando minha imagem para enganar mulheres na internet, e decidi mandar uma mensagem a ele. As coisas não saíram como o planejado

Michael McAllister, The New York Times - Life/Style

07 de dezembro de 2020 | 05h00

No segundo trimestre, minha caixa de entrada começou a receber uma porção de mensagens de mulheres desiludidas. As primeiras chegaram pelo Instagram: “Olá, sou Lina. Moro na Alemanha. Alguém está usando suas fotos para aplicar golpes!”.

O perfil dela revelou uma mulher que parecia ter a minha idade, chegando nos 50 anos, usando óculos de armação preta. Ela me disse que tinha conhecido o sujeito no Tinder. Mas, depois de trocar mensagens durante alguns meses, ela começou a suspeitar das suas motivações, e então sua filha fez uma busca por imagens no Google, o que as levou ao meu perfil.

“Eu me apaixonei um pouco por você", disse ela. “Mas agora sei que você é gay. Pensei que tinha a sorte de conhecer uma pessoa maravilhosa da Inglaterra”. O falso eu era “Simon", um banqueiro investidor dos arredores de Londres. Ele mandou a Lina fotos mostrando eu e minha cadela, Agnes, que ele apresentou como Pom Pom.

Alguns fatos elementares: sou um redator solteiro de Massachusetts e acho o nome Pom Pom constrangedor. Além disso, como Lina deduzira corretamente, sou gay. “Foi tudo falso", escreveu Lina. “Só quero ser feliz — Acho que meu dia vai chegar. Está procurando por um companheiro? É triste pensar que um sujeito bonito não tem interesse em mulheres”.

Na semana seguinte, uma mulher da Hungria entrou em contato. “Fui enganada pelas suas fotos. Ele se apresentou como Harvard, do Colorado. Pensei que você fosse o cara. Me apaixonei". Uma mulher de Santa Barbara enviou uma mensagem: “Tenho até vergonha em dizer que fiquei meio obcecada por ‘você’. Não sei por que senti a necessidade de compartilhar isso, talvez seja uma forma de superar minha obsessão. Não estou em busca de nada".

Amigos me disseram que eu deveria me sentir lisonjeado por alguém me considerar atraente a ponto de me usar como isca, mas fiquei enojado ao pensar que uma versão minha estaria explorando pessoas vulneráveis. Tudo começou no segundo trimestre, quando o medo do vírus, o crescente desemprego e a solidão da vida digital se combinaram para criar o ambiente perfeito para os golpes românticos na internet. Essas mulheres não me pareceram especialmente ingênuas; estavam apenas procurando amor a partir dos limites de casa, como tantas outras pessoas.

Eu estava solteiro há anos depois de ter me divorciado. Olhando para minhas fotos, um desconhecido talvez visse alguém tentando parecer feliz. Mas, como disse uma mulher que escreveu de Nebraska, “Você tem olhos tristes". Elas foram generosas em me contar a respeito dos golpes, mas as mensagens continham camadas complicadas. Durante meses, cada uma delas tinha construído algo com esse falso eu e, na esteira do colapso do golpe, o eu real era tudo que restava para absorver sua amargura e oferecer aquilo que lhes tinha sido negado: sinceridade.

Não tive dificuldade em me colocar no lugar delas. Muitos anos atrás, quando um bagre ainda era chamado simplesmente de peixe, eu era um jovem de vinte e tantos anos em São Francisco e me apaixonei por um colega blogueiro que vivia a muitos estados de distância. Ao longo de dois anos, ficamos cada vez mais próximos nos comunicando por e-mail e telefone, mas todos os planos para nos conhecermos cara a cara acabavam misteriosamente frustrados.

No fim, consegui descascar as camadas de suas mentiras. Não era o curador de um museu de Pittsburgh; ele vivia no porão da casa dos pais em Dubuque. Essa experiência me devastou, mas também me ajudou a entender bem como essas mulheres puderam se apaixonar por um desconhecido na internet, e como ele conseguiu usar a esperança delas contra si mesmas.

Disse a elas que sentia muito por alguém ter usado minhas fotos e lhes causado tanta dor. Corri o risco de aborrecê-las ainda mais revelando que não tinham sido as únicas vítimas, mas me pareceu que mereciam saber a verdade. Minhas fotos estavam circulando por toda parte, criando novos personagens: um corretor de ações de Chicago, um guarda florestal do Oregon, um passeador de cachorros chamado Larry. Era impossível deter aquilo. Não conseguiria nem mesmo confrontar o impostor. Ou será que conseguiria?

Em meados do ano, eu pensava no e-mail de uma mulher que tinha compartilhado o número de telefone usado pelo impostor para chamá-la no WhatsApp. Reconheci o prefixo estadual da minha cidade natal, Minneapolis, mas números de telefone podem ser falsificados.

Decidi mandar a ele uma mensagem de texto. Não foi nada fácil para mim. Sou do tipo que faz de tudo para evitar um confronto. Mas eu tinha que saber. Eu tinha uma conta no WhatsApp, mas me aproximei do sujeito — supus que fosse um sujeito — menos diretamente, ocultando meu nome e foto de perfil. A mensagem continha uma só palavra: “Oi".

Um minuto se passou. A palavra pendia como um anzol com isca. Então, uma resposta: “Quem é, por favor?” Pensei em dar um golpe no golpista — me passar por mulher solitária antes de finalmente revelar minha identidade. Mas meu objetivo era chegar à verdade e, abruptamente, decidi que a verdade seria a melhor abordagem.

“Quando eu disser quem sou", escrevi, “não tenha medo”. Enviei a ele minha foto.

Ele respondeu apenas: “LOL".

“Acho que agora sabe quem eu sou", escrevi. “Não vou perguntar seu nome real, e não vou lhe causar problemas.”

Foram necessários vários minutos de uma troca tensa até que ele acreditasse na minha identidade (irônico, eu sei). Ele perguntou como o encontrei, e eu revelei sem indicar quem tinha sido. Ele insistia em saber qual das mulheres tinha revelado seu número, mas respondi: “Você já as maltratou o bastante".

“Bem", respondeu ele, “na verdade, sinto muito por usar suas fotos".

“Entendo”.

“Só fiz isso para conseguir dinheiro para minha família pobre. Infelizmente, ninguém me deu dinheiro. Continuei tentando. Mas não dá certo”. Quando o pressionei, ele disse que primeiro estabelecia uma relação e então “fazia com que me amassem". Depois de algumas semanas, pedia dinheiro para uma cirurgia de hipertireoidismo: “Dois mil dólares. Mas ninguém me pagou".

Quando perguntei a respeito do telefone de Minneapolis, ele disse que morava no Brasil.

“Você é casado?”

“Por que pergunta?”, indagou ele. “Sei que você é gay.”

“Acho que estou me perguntando se você também se sentia solitário.”

Ele me disse que tinha uma namorada e um filho de dois anos, e perdeu o emprego de caixa quando a pandemia começou. “Estamos a salvo", escreveu ele. “Mas temos fome”. Ele me disse que encontrou minhas fotos no Instagram, gostou das minhas tatuagens e pensou que elas serviriam como uma isca crível. “Espero que não esteja bravo comigo", ele disse.

E eu não estava, de verdade. Não conseguia acreditar totalmente na história dele, e não sabia como me sentir a respeito de tudo aquilo. Então ele fez a pergunta que eu temia: “Pode me ajudar?”

O homem que tinha roubado minhas fotos para dar golpes em pessoas solitárias estava agora me pedindo dinheiro. Muito da nossa disposição em ajudar os outros depende do quanto sabemos a respeito de suas vidas. Sem poder confirmar nada do que ele tinha dito, como acreditar na sua história? Sem chance. Ainda assim, ele tinha respondido minhas perguntas. Qual o valor disso?

Disse a ele que mal ganhava o bastante para viver. “Não precisa ser muito. Talvez US$ 25.”

“Pode mandar um cartão do iTunes?”

“Pensei que estivesse com fome”.

“Sim, mas US$ 25 é pouca coisa, amigo.”

De fato, é.

Descobri que ele só tentou dar um golpe em uma das mulheres que entraram em contato comigo, mas ele tinha uma lista de dez outras a respeito de quem eu nada sabia. E, se isso for verdadeiro, significa que há mais de um impostor usando minhas fotos, em mais de um lugar. “Não vou mais usar suas fotos", disse ele.

Agradeci e fechei o aplicativo. Nossa conversa me lembrou do blogueiro que me enganou por tanto tempo. Sem os fatos, sem a confiança, a conexão humana falha. E o que é a confiança na internet a não uma suspensão da descrença?

Não mandei dinheiro a ele, mas fico pensando no seu filho, em cuja possível existência eu acredito. Vai saber. Sempre fui mais otário do que cínico, mas, de todo modo, eu e meu impostor talvez não tenhamos esgotado a relação. “E como está a vida nos Estados Unidos?”, escreveu ele recentemente.

Quem sabe eu responda. Enquanto isso, estou aprendendo a viver com o desconforto de saber que minhas imagens ainda são usadas de maneiras que mal posso imaginar. Mantenho contato com algumas das mulheres. Comentamos nas fotos do Instagram uns dos outros e às vezes trocamos mensagens. “Também espero que você encontre o cara certo", disse-me Lina recentemente.

Se encontrarei ou não, a conexão humana durante a pandemia pode valer o coração partido, se ela me encontrar. Tento não pensar obsessivamente em todas as coisas que meus clones estão dizendo na internet para outras pessoas solitárias, mas parece que estão ocupados. Se por acaso algum deles escrever a você, espero que elogie sua beleza, e que você acredite nisso, mesmo se não acreditar nele. Aprendi que é importante descascar as mentiras até enxergarmos a verdade. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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