Modern Love: Por que não tem ninguém me ajudando nesta sex shop?
Diana de Vegh, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2021 | 05h00

Eu não entendia qual era o problema. Sou uma mulher perfeitamente respeitável que sabe o que quer e tem a capacidade de pagar por isso. Aos 83 anos de idade, posso ser cega e um pouco mais velha do que a maioria, mas, de modo geral, as pessoas gostam de me receber em suas lojas e butiques, sempre dispostas a me oferecer assistência.

Mas aqui? Nesta sofisticada sex shop do SoHo? Foi como um naufrágio, e eu me vendo abandonada numa praia distante. Ninguém perguntava se eu precisava de ajuda para encontrar alguma coisa. Pior ainda: a amiga que eu tinha convidado especificamente para analisar e descrever os produtos parecia ter desaparecido. Será que ela fora magicamente vaporizada numa névoa de vergonha pela variedade de vibradores multicoloridos que nos deram as boas-vindas na entrada? O que ela esperava de um lugar assim? A variedade é a especialidade da casa.

Eu queria comprar uns brinquedos deliciosos porque acredito na busca da felicidade para pessoas de todas as idades e inclinações. Então, eu estava preparada para comprar, comprar e comprar, mas parecia não haver ninguém para vender, vender e vender. Como sou deficiente visual (conforme se vê pela minha elegante bengala), certamente se podia ver que alguma ajuda era imprescindível. Agora, mais do que nunca, eu precisava de quem estava me acompanhando.

Mas ela fugira para algum canto distante. De início, parecia pronta para me acompanhar nesta expedição de compras. Por que estava hesitando agora? Com certeza não era possível que adultos funcionais se sentissem tímidos dentro de um ambiente dedicado ao prazer. Essa desconexão seria absurda nos dias de hoje, não é mesmo?

Meu lema é: sexo para um, sexo para dois, sexo para todos os que o desejam. E isso inclui enfaticamente aqueles que já estão na velhice.

Acho que o pudor diante das sex shops é desconcertante. Cresci na década de 1950, quando muitas de nós estávamos aprisionadas pelos pronunciamentos de Freud sobre o orgasmo vaginal. No mundo do sexo correto e psicanaliticamente prescrito, o uso de apetrechos diminuiria a primazia do todo-poderoso órgão masculino. Algo fora de questão naquela época. Mas certamente não estamos mais presas à síndrome do ego masculino.

Será que realmente acreditamos que os coitados são tão frágeis que, a menos que sejam a única fonte de prazer sexual da mulher, perderão seu status de donos do universo? Por que imporíamos tamanho fardo a essas almas atormentadas? Todas nós sabemos que qualquer pessoa sensata deseja agradar a seu, sua ou seus parceiros, amigos, casos e recém-conhecidos. Essa pessoa, às vezes, sob algumas circunstâncias, ficará feliz em sugerir que se tragam alguns reforços.

Para algumas de nós, a era da rapidinha acabou. No entanto, uma excursão solo ao meio-dia ou um rendez-vous para uma pessoa na hora do chá pode ser a porta de entrada. Não importa o ambiente, as adultas também podem brincar com seus brinquedinhos.

Quando as pessoas falam mal das sex shops, geralmente o fazem com o clichê de que “o sexo deve ser natural”. Bom, sim, mas às vezes o sexo pode ser amplificado com música, aromas, fantasias e brinquedos, assim como toques e carícias. E, é claro, todos esses acréscimos podem aumentar a sensação de uma única pessoa – bem como de deleitáveis duetos, trios, quartetos e assim por diante. Será que nossas vaginas ainda nos são desconhecidas? Se minha companheira de compras parecia confusa ou pouco instruída nesses assuntos, era meu dever ensiná-la.

Era necessário fazer um resgate. Eu sabia que tinha de me mexer e dissipar quaisquer noções bizarras que a estivessem impedindo de sua tarefa de ser meus olhos. Por que ela não estava supervisionando a cena, decidindo por alguma prateleira mais atraente e nos conduzindo com interesse pelo corredor? Era uma questão de idade? Dela, não minha. Afinal, ela era um rebento de apenas 40 anos de idade. Talvez seu comportamento evasivo viesse simplesmente da tolice da juventude.

Quando enfim localizei minha companheira de compras, coloquei uma mão reconfortante na dela. “Me diga uma coisa”, eu falei. “Por que a timidez?”

“Achei que você estava brincando quando falou em dar uma volta numa sex shop”, disse ela. “Nós não fazemos esse tipo de coisa lá de onde eu venho. Senhor, tenha piedade de nós”.

Quase pude ouvi-la corar.

“Minha querida,” eu disse. “O orgulho total em todas as nossas aventuras é mais um dos meus lemas. Nada de vergonha, nada de julgamento”.

Havia algum problema com a ideia de uma velha assistente social cega se revelar uma espécie de guru do aprimoramento sexual? Ou o problema era minha voz clara penetrando no ambiente silencioso? Eu não sabia. E não adiantava dar mais força a seus pensamentos angustiados. Eu agarrei seu braço com firmeza fomos cambaleando loja adentro.

Rosa, roxo, azul bebê, azul turquesa – tantos itens intrigantes em cores tão deliciosas. Não vou detalhar o equipamento oferecido, pois quero incentivar suas próprias viagens pessoais de exploração.

Uma canção flutua pela janela, trazendo consigo memórias de flashbacks. Uma noite de prazer lento e solitário. Um banho cheio de aromas, uma automassagem com óleos corporais perfumados, uma playlist especial, um menu especial para auxiliar no ajuste dos ritmos de prazer. Que conveniente ter aquele bocado de energia elétrica guardada na gaveta da mesinha de cabeceira. Inspiração instantânea. Um novo e moderno significado para bom e velho repouso.

Minha companheira e eu concluímos nossas compras. Finalmente libertada de suas noções preconcebidas, ela tinha entrado no ritmo das coisas e seguido meu bom exemplo: o roxo sempre arrasa! Saímos da loja balançando sacolas de compras idênticas e paramos na esquina para dar umas risadas. Duas amigas curtindo a vida.

Não deve haver limite de idade para a vida sensual e sexual. A energia erótica é sempre apropriada para a idade. É uma forma de estar no mundo, uma reviravolta de gala que adicionamos às nossas rotinas mundanas. Flertamos com o motorista do ônibus, usamos combinação vermelha debaixo do vestido preto, deixamos um pedaço perfeito de chocolate derreter tentadoramente na nossa língua.

Nossos corpos são nossos amigos – não apenas bandejas para carregar as nossas cabeças. Registramos o mundo por meio dos nossos sentidos. Fontes de aterramento e deleite. E embora na velhice estejamos familiarizados com a arrefecimento da audição e da visão, usemos nossos déficits para nos aproximar do paladar, do tato e do olfato.

Estamos no ato final. Podemos abrir mão de tantas coisas. Escalar e nos esforçar, por exemplo. Ter vergonha do corpo. A maioria de nós chegou a um acordo com a gravidade, que se manifesta em nossas formas corporais um tanto alteradas. Já não prevalece aquela dúvida que podia destruir até mesmo nossos momentos mais íntimos.

Devemos nos centrar no prazer: é a nossa liberdade. Sempre disponível, nossa realidade sensorial nos localiza no espaço. É assim que honramos o prodigioso dom de estar vivo. Nós pousamos na respiração, no sangue e nos ossos de nossos seres físicos. Por fim, pertencemos a nós mesmos.

Por que não continuar a celebração com alguns tesouros do sex shop? Vivo na cumplicidade de um amor de longa data. Dois conspiradores, vivendo na comédia de nossas vidas bagunçadas, complicadas, lindas. Com ou sem brinquedos, não importa. O que importa é o riso. O humor de nossos preparativos para a decolagem. Engraçado, mas às vezes misturado com tristeza. Nós, os mais velhos, sabemos que nos perderemos um dia desses. Alguém tem que ir primeiro. Eu não sou gentil: rezo para que seja eu.

Mas, enquanto isso, meu foco está na proximidade. Eu quero uma união de corpo e mente desinibida e desimpedida.

Nos segredos de nossa carne, meu parceiro e eu nos encontramos. Sondamos e descobrimos. Ele se senta na beira da cama, tira os óculos, dobra-os com cuidado e os coloca na mesa de cabeceira. Ele é deliberado, o meu amor. Ele se concentra com toda a intenção.

Quando ele vira a cabeça, não consigo ver sua expressão, mas acredito que posso sentir e sei o que virá.

Ele apaga a luz.

Aninhada em seus braços, junto minha respiração à dele. Um toque, uma palavra, uma carícia. Mergulho a cinco braças de profundidade. Eu me espalho e me recolho. E me preparo para voar. Vivemos em corpos antigos, este homem e eu, mas, no momento, vivemos – fortes no desejo, seguros na brilhante alegria de nosso voo. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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