Modern Love: Um estranho parecia ser meu irmão gêmeo e esse foi apenas o começo
Kama Einhorn, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2021 | 05h00

Eu estava dormindo quando minha identidade explodiu. Numa manhã de sexta-feira em 2019, acordei no Brooklyn com um e-mail de um cara na Flórida que dizia: “A 23andMe diz que você é minha meia-irmã. Estou muito confuso. Você pode me ligar, por favor?"

Enquanto eu olhava para sua foto de perfil, vi que parecíamos gêmeos. Tínhamos até a mesma covinha minúscula nas pontas do nariz. Nós havíamos nascido com um ano de diferença, cinco décadas antes. Eu havia feito um teste da 23andMe no ano anterior.

Discando seu número, eu sabia que não começaríamos com conversa fiada. Na verdade, levamos cerca de meio minuto para teorizar desajeitadamente: Meu adorado pai deve ter tido um caso com a mãe desse sujeito. Mas dentro de algumas horas, nós dois tínhamos falado com membros da família que nos contaram o segredo que prometeram aos nossos pais que levariam para o túmulo: Nossos pais eram inférteis e tínhamos sido concebidos com o esperma de um doador. O doador tinha sido residente no Hospital Yale New Haven, onde cientistas foram os pioneiros na inseminação intrauterina (também conhecido como the turkey baster).

Eu sabia muitos dos segredos da minha família, mas desta vez eu era o segredo. Nada havia mudado, mas tudo estava diferente. Minha família ainda era minha família e meus amorosos pais já haviam partido há muito tempo, tornando isso um pouco menos complicado. Mas eu teria que revisar o manuscrito final da minha vida. Como escritora, não gostava de grandes mudanças.

No entanto, meu novo irmão biológico (imediatamente registrado como “BB” no meu telefone) e eu estávamos em contato constante, mergulhando em nosso novo pool genético. Tendo crescido como uma filha “única e solitária”, fiquei radiante. Depois de entrar no grupo do Facebook “We Are Donor-Conceived” (“Nós somos concebidos por doadores”), aprendemos o termo “diblings” - irmãos filhos de doadores.

Eu não conseguia explicar por que esse estranho era digno de minha feroz adoração ou olhar atento, mas meu DNA parecia codificado com instruções claras: "Encarar. Unir. Fixar. ”

Isso me consumiu tanto quanto um novo amor, mas desta vez meu homem principal parecia uma foto gerada por aquele aplicativo que mostra você como o sexo oposto. Eu nunca tinha visto meu rosto no rosto de outra pessoa. Eu criei um álbum “BB” no meu telefone e passava meu trajeto ampliando seu rosto.

Eu coloquei um som “stardust” para seus textos, uma referência à música de Joni Mitchell que eu ouvia constantemente: “We are stardust, we are golden … And we’ve got to get ourselves back to the garden.” ("Somos poeira estelar, somos dourados... E temos que voltar para o jardim").

Antes de meu “dibling” aparecer, eu ansiava por uma conexão, namorando sem entusiasmo um viúvo que conheci online. Agora, apaixonada por meu parente de DNA vivo mais próximo, eu não tinha mais tempo para romance (e nem o viúvo).

Quando BB me visitou e a garçonete perguntou durante o almoço se éramos irmãos, meu coração disparou.

O diagrama de dupla hélice é uma escada em espiral codificada por cores com degraus de base química. Todos os dias, eu subia nele e girava, explorando-o, estupefata. Os cromossomos são as menores e as mais gigantescas coisas do mundo. Se você acredita na teoria da criação, eles não são importantes (como muitas pessoas inteligentes que me amam proclamaram com confiança: "É apenas esperma!"). Mas se você acredita na teoria da natureza, eles são tudo.

Eu acho que são as duas coisas, embora eu tenha caído profundamente em minha própria cromo-zona. Finalmente, eu não estava mais sozinha; meu novo irmão estava lá.

Imediatamente, BB queria encontrar nosso doador, a quem chamávamos de “Nosso Cara”. Após 10 semanas de investigação genética através de uma linha de primos de segundo grau na 23andMe, o BB chegou ao nosso Santo Graal. Nosso cara estava vivo, um obstetra aposentado em Nashville. Ele tinha 79 anos e parecia bem. Ele tinha um nome, Frank. Ele tinha um rosto; era gentil. Também se parecia muito com o nosso. Seu nome poderia muito bem ter sido "Gene".

Frank era casado, tinha dois filhos adultos e uma filha. No Facebook, nós também ficamos olhando fixamente para eles.

Decidimos escrever uma carta conjunta para Frank, mas meu coração afundou quando nosso primeiro conflito enquanto irmãos ocorreu a partir dos comentários sobre nossos rascunhos. Minha abordagem era sincera e detalhada; a de BB era alegre e breve. Nós dois queríamos a mesma coisa - uma resposta - mas nos agarramos obstinadamente às nossas próprias estratégias. Cada um de nós temia que o estilo do outro levasse ao silêncio ou, pior, a uma carta que o fizesse desistir, o que acontece. Tal rejeição cósmica teria sido intolerável, e fiquei pré-furiosa com Nosso Cara por sua possível rejeição.

Finalmente, disse a BB para enviar apenas sua versão e não falar de mim.

“Não é uma má ideia”, ele disse. “Eu faço o reconhecimento, e se ele não responder, você não pode levar para o lado pessoal.”

Mas desistir da carta fez com que eu me sentisse sozinha mais uma vez, culpada por abandonar nosso esforço conjunto e também com medo de que BB agora desaparecesse. "Essa coisa toda vai por água abaixo sem ele", eu disse, soluçando, no sofá do meu terapeuta.

Três semanas depois, BB recebeu uma carta cuidadosamente redigida em papel timbrado do bom médico. Era empática e respeitosa. Ele disse que estava aberto a mais comunicação, então ele e BB combinaram uma ligação.

No segundo em que desligaram, BB me ligou.

"Eu fechei os olhos", ele disse, "e deixei sua voz me inundar." Um novo pai, ele estava estranhamente perturbado. “É como os bebês reconhecem a voz dos pais. Como conhecem o seu cheiro.”

Durante a conversa, ele também falou com Frank sobre mim.

Quando Frank e eu conversamos alguns dias depois, ouvi o mesmo tom íntegro em sua voz. Com caneta e papel em mãos, perguntei e ele respondeu. Suas intenções? Claro, ele queria ajudar casais inférteis e fazer parte da ciência, mas também precisava de US $25 por "espécime vivo". Não, nenhum outro descendente apareceu. Sim, ele estava se preparando para uma carta como a de BB, mas ainda tinha dificuldades para responder. Não, ele nunca pensou muito sobre as possíveis consequências de suas doações. Não, ele não teria doado se isso não fosse anônimo.

Frank era tanto humilde como cheio da autoestima de um professor emérito, mas principalmente ele parecia orgulhoso do fato de seus genes terem se desenvolvido bem. Eu gostei de sua combinação de seriedade e doçura.

“Não há roteiro para isso”, ele disse, “mas acredito que encontraremos nosso caminho”.

Em minhas anotações, essa frase mereceu um sublinhado duplo.

Depois que desligamos, eu não sabia o que fazer. Estava quente e úmido, e eu vaguei de shorts e camiseta regata pelo Long Island Sound como se tivesse sido batizada ou tivesse renascido, alheia às algas marinhas que grudavam em minha pele. Eu flutuei. Parecia algo primitivo.

Então, Frank nos convidou para passar um fim de semana em sua casa em Boca Raton. BB e eu ficamos no mesmo hotel nas proximidades, mas por causa dos horários de viagem, cheguei sozinha um dia antes e encontrei Frank em seu condomínio. Enquanto ele caminhava pela sala, bronzeado e sorrindo, eu senti a mesma atração magnética que senti com BB.

"Bem, aqui está você", ele disse, com os braços abertos. Neste abraço mais estranho da minha vida, meu corpo cantarolava e formigava.

“Aqui estou”, eu disse. “E aqui está você.”

“Bem, aqui estamos nós, então,” ele disse.

Ele deu um passo para trás, mantendo as mãos nos meus ombros. "Uau, você é uma pessoa", eu disse estupidamente. Aqui ele estava em carne e osso, sua força vital rugindo através de mim.

“Não vejo o rosto da minha mãe há décadas”, ele disse, testemunhando seus genes se estendendo e se expandindo para o passado e para o futuro.

Nadando nas ondas quentes do Atlântico, aprendemos que compartilhávamos o mesmo padrão de rugas ao redor dos olhos, a mesma extroversão e os mesmos joanetes. Em um mostruário de cores, apenas uma corresponderia à cor de nossos olhos (algo como “névoa verde-azulada”). Meu coração ficou cheio de afeto.

Dois anos e meio depois, não estou mais tão obcecada. Frank e eu tivemos duas visitas presenciais, BB e eu tivemos cinco. Meus quatro meios-irmãos (e 11 novas sobrinhas e sobrinhos e quatro de seus parceiros) e eu estamos construindo relacionamentos, alternando entre o sério, o bobo, o íntimo e o alegre. Nosso grupo de mensagens recebeu o nome de “Big Bamily” (família bônus) e às vezes inclui emojis fofos de DNA.

Não há muita sabedoria convencional sobre como lidar com essas surpresas de DNA cada vez mais comuns, mas todos em nossa história parecem acreditar que a vida e a conexão humana devem ser celebradas, não importa quão estranha seja a circunstância. Afinal, nosso progenitor é um provedor profissional da força vital, tendo dedicado sua carreira a gestações de alto risco e dando à luz a mais de 10.000 bebês.

Frank descreveu os sentimentos que teve quando seus filhos nasceram para mim: “É como pudim instantâneo. Adicione água e mexa, e você terá amor.” Mas com o BB e eu, é mais como: “Adicione ciência e mexa, e você terá grande afinidade e carinho.”

Ninguém disse “eu te amo”, pelo menos ainda não. Mas todos parecemos dizer sempre “Eu gosto de você”, o que parece mais importante agora. Ao encontrar Frank e os outros, BB e eu voltamos ao jardim. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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