Um olhar (e um galo) que mudou tudo

Um olhar (e um galo) que mudou tudo

Depois que um violento terremoto atingiu o Haiti, uma jovem desesperada recorreu a um guia vodu. Ela nem imaginava o que iria acontecer a partir daí

Naomie Brinvilus, The New York Times - Life/Style

27 de agosto de 2020 | 05h00

Uma colher de pau. Cebolinha. Uma vasilha de três pés. Uma garrafa de água de colônia. Outra de champanhe Andre. Três velas. Um saco de poud pa janbe (“pó de não passe aqui”). E o mais importante: um galo jovem. Tinham me avisado para não pechinchar na compra do galo.

A vendedora tinha cinco pássaros. Um era velho e laranja. Três eram adolescentes, bons para lutar, mas não para outras coisas. O último era enérgico, quase entusiasmado demais. Suas penas vermelhas pareciam douradas à luz do sol.

“Quanto custa este aqui?”, perguntei.

Ela o pegou. “Trezentos gourdes”, disse ela (pouco mais de US$ 7). Paguei, botei o pássaro debaixo do braço e fui para casa.

Era abril de 2010. Quatro meses antes, um terremoto matara centenas de milhares de meus companheiros haitianos. Minha família e eu estávamos sem teto, mais uma vez, dormindo atrás de uma igreja mórmon, e eu precisava mudar alguma coisa na vida.

Nascida numa cidade da costa oeste do Haiti, eu morava com meu pai, minha mãe e sete irmãos em Ti Gine, o bairro dos pescadores, até que nossa casa foi destruída por uma enchente. Fomos dormir no chão da casa de uma tia e, depois, numa igreja batista. Meu pai era um homem bom que nunca conseguiu progredir. Deixou nossa família quando eu tinha 17 anos.

Minha mãe vendia empadas numa escola local; sobrevivíamos com seus ganhos diários, que agora sei que não somavam nem US$ 1 por dia. Arrumar dinheiro para a escola era uma provação. Minhas irmãs e eu sempre queríamos o que não podíamos ter - bonecas, sapatos, uma mochila, um celular.

Como irmã mais velha, me sentia responsável pelos outros. Eu me mudei para fazer faculdade em Port-au-Prince, onde estudei quando consegui dinheiro para pagá-la, e estava lá quando o terremoto aconteceu, indo de ônibus para aula. Depois soube que o prédio da escola desabou, matando muitos dos meus colegas.

Levei doze horas para cruzar, a pé, as ruínas do centro da cidade até a casa do meu tio, em Aviation, um bairro perto do antigo aeroporto. Minha tia foi uma das primeiras a acampar na velha pista. Milhares se juntaram a ela.

Com as torres de celular destruídas, não consegui entrar em contato com minha família. Por cinco dias, minha mãe pensou que eu estava morta. Levei muito mais tempo para viajar os 67 quilômetros até Petit Goave. As pontes da rodovia estavam destruídas; tivemos de sair dos ônibus e caminhar até o outro lado. Voltei para casa e encontrei minha família dormindo na rua.

Os meses seguintes foram um pesadelo. Dormia o máximo que conseguia porque estava com fome o tempo todo. Por fim, nas profundezas do desespero, decidi acompanhar uma amiga numa visita a seu guia espiritual, um sacerdote vodu na cidade de Leogane.

Assim que me viu, ele entendeu o que estava errado: “Tem uma sombra sobre sua vida”.

“O que o senhor quer dizer?”.

“Você pode ser a primeira na sala, mas é a última a ser vista”.

Ele prescreveu uma receita - cebolinha, colher de pau, galo jovem - e me disse para voltar quando tivesse juntado os itens.

Quando pedi dinheiro para minha mãe, ela disse: “Eu ensinei para você o caminho da luz. Este é o caminho das trevas”. Cristã devota, ela desaprovava o vodu.

Disse a ela que vivíamos numa escuridão mais profunda do que qualquer outra que eu já tinha visto, que estava desesperada por mudança e, enfim, ela cedeu. Juntei os itens da receita e fui para a casa do guia com minha irmã.

O galo foi morto e meu corpo foi pintado com seu sangue. Depois, tomei banho em água com infusão de folhas cítricas e a água de colônia. Quando ofereci à minha irmã um pedaço do galo cozido, o padre disse: “Você precisa comer até se fartar antes de oferecer a qualquer outra pessoa”.

Feito isso, eu tinha de ir para casa e colocar um copo d’água sob a lua. Aí teria de acordar antes de todo mundo, pôr a água na boca e cuspir nas direções cardeais. O guia disse que eu ficaria limpa e brilhando feito uma moeda nova.

Ele estava certo.

Um mês depois, quando “os brancos” chegaram - trabalhadores humanitários, sobretudo da Europa - fui contratada pela Oxfam International para trabalhar como especialista em higiene nos acampamentos. Ganhei mais dinheiro num mês do que minha mãe num ano. Em outubro, quando começou a epidemia de cólera, fui transferida para a campanha de saúde pública e parti para os acampamentos com tabletes de iodo e sabonete para ensinar prevenção.

Os higienistas foram convidados a conhecer o novo centro de tratamento de cólera pouco depois da inauguração. Encontramos uma série de tendas armadas sobre cascalho branco. Os pacientes que chegavam eram despidos e depois pulverizados com uma nuvem de cloro. Mas o que mais me lembro daquele dia não é o cheiro do lugar, nem mesmo o necrotério que estavam construindo: é o homem que vi saindo da tenda carregando um balde de vinte litros nas mãos. Ele era bonito, quase entusiasmado demais, loiro dourado à luz do sol.

Não imaginava que meu galo seria branco.

Fizemos contato visual. E foi só isso. Quando cheguei em casa, disse à minha irmã que tinha visto meu galo e que estava com medo de nunca mais vê-lo. Mas nos vimos de novo, num show. Seu nome era Xander. Quando ele pediu, em crioulo, meu número de telefone, eu dei.

Acordei e descobri que ele tinha me enviado uma mensagem de bom dia.

“Você é casado?”, escrevi.

Não.

“Tem filho?”

Não.

Minha avó morava nas montanhas. A cada poucas semanas, vinha ver a família na cidade e trazia chocolate e café que ela mesma cultivava. Todos a chamavam de Dona Ti Klis, ou seja, senhora Sementinha, porque ela tinha apenas 1,20 metro de altura. Quando ela veio nos ver no Natal, ficou surpresa ao saber que eu tinha conseguido um emprego.

“E o emprego não é tudo que ela conseguiu”, disse minha mãe, mencionando meu namorado branco.

Minha avó disse que nunca tinha convivido com os brancos fora da igreja e que não achava que eles fossem assim muito amigáveis.

Ela voltou algumas semanas depois com seu namorado, Emwa. Eles estavam namorando havia vinte anos e ela queria que ele ouvisse a história. Depois, insistiu que eu levasse Xander para visitar sua casa. Emwa ficou preocupado com a estrada ruim, com a longa caminhada e com o péssimo estado da casa, que estava infestada de cupins.

“Se ele gosta dela de verdade”, disse minha avó, “ele virá”.

O convite era um teste, uma prova na qual eu temia que Xander fosse reprovado, não querendo subir as montanhas para visitar minha pobre avó. Mas ele disse que iria.

No domingo, saímos da cidade num taptap (um pequeno caminhão) e seguimos para a casa da minha avó. Fiquei com vergonha do chão de terra, mas Xander não parecia se importar.

Nosso relacionamento se aprofundava à medida que a paisagem ao nosso redor piorava. A cólera devastava os acampamentos. Centenas adoeciam e lotavam o necrotério. Xander e eu nos encontrávamos para almoçar, esfregávamos as mãos com sabonete Clorox e, aí, ele deitava a cabeça no meu colo e eu brincava com seus cabelos. Ele estendeu sua estadia uma vez e uma segunda vez, até que seu visto já estava prestes a expirar.

A primeira coisa que Xander fez quando pousou em Miami, antes de ligar para a própria família, foi ligar para mim. Depois disso, começamos a conversar por horas e horas todos os dias. Os vizinhos me diziam que ele nunca mais iria voltar, que eu era apenas um passatempo. Mas pelo telefone ele me perguntou se eu queria morar com ele. Eu não sabia se ele estava falando sério. Nunca tinha saído do Haiti, nem mesmo viajado de avião.

“Por que ele levaria você para os Estados Unidos?”, meus amigos diziam.

Mas ele voltou, com um anel. E se ajoelhou e me pediu em casamento.

Tudo isso foi dez anos atrás.

Nos filmes americanos, os casais quase sempre têm muito em comum. Xander e eu não falávamos nem a mesma língua - ele ainda estava aprendendo crioulo quando nos conhecemos e, embora agora eu fale inglês fluentemente, na época ainda não falava. Mas nós sabemos algo que o cinema americano não sabe: o amor tem sua própria linguagem.

Nasci nos trópicos, uma menina preta do país mais pobre do hemisfério ocidental. Meu marido nasceu no norte, um homem branco do país mais rico do mundo. Mas, desde o dia em que nos vimos pela primeira vez, no centro de tratamento de cólera, tudo isso desapareceu. Ficamos nus um para o outro: Naomie e Xander.

Desde então, por milhares de noites, dissemos “eu te amo” um ao outro no escuro e, então, adormecemos, maravilhados de saber que fomos unidos por um terremoto, uma epidemia, um galo e um olhar. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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