Moeda eletrônica da China gera preocupações a respeito da privacidade

Moeda eletrônica da China gera preocupações a respeito da privacidade

Esta poderia ser uma maneira de monitorar a criminalidade, bem como o dia a dia dos usuários

Raymond Zhong, The New York Times

29 de outubro de 2019 | 06h00

PEQUIM - Ao anunciar o seu plano de lançar este ano uma criptomoeda chamada Libra, o Facebook declarou que o seu objetivo era reinventar o dinheiro para a era da internet.

O que a companhia provavelmente não imaginava era que os seus esforços incentivariam a China a chegar lá muito antes. De fato, a China pretende começar a substituir, dentro em breve, o dinheiro vivo que as pessoas carregam normalmente por uma moeda digital, projeto que vem sendo discutido há muito tempo e que foi acelerado depois da apresentação da Libra, em junho passado.

O sistema da China parece muito diferente do Bitcoin e das outras criptomoedas que foram lançadas como uma maneira de emancipar o dinheiro dos bancos e dos governos.

Uma moeda emitida pelo governo ajudaria a China a obter mais informações ainda, muitas mais - bem mais - sobre como os seus cidadãos gastam o seu dinheiro. Com isto, ele se atribuiria portanto amplos poderes  para combater a criminalidade e administrar a economia, aumentando, ao mesmo tempo, as preocupações com a privacidade dos usuários.

“Trata-se de um poder e de uma visibilidade extraordinários no sistema financeiro, superior ao de qualquer banco central hoje”, afirmou Martin Chorzempa, um pesquisador do Peterson Institute for International Economics de Washington.

A China bloqueia as plataformas do Facebooks, mas os líderes chineses veem na Libra o possível início de um novo sistema financeiro mundial, que acabaria com a autoridade dos governos e dos bancos centrais - da própria China inclusive.

As autoridades não se manifestaram muito a respeito de quando o projeto poderá começar a tornar-se uma realidade. Em setembro, Yi Gang, o presidente do banco central, disse que a nova moeda substituiria somente parte do dinheiro em circulação. O banco central não respondeu às solicitações de um comentário para o presente artigo.

A moeda proposta pela China compartilha de alguns elementos do Facebook. A plataforma afirma que a Calibra, a sua carteira digital para que o usuário possa deter e gastar a Libra, exigirá verificações  da identidade do portador, e a companhia promete usar com responsabilidade os dados financeiros deste. Ela afirma que não registrará as suas compras com a finalidade de empurrar anúncios.

A China sugeriu que também procurará manter as informações sobre gastos longe dos comerciantes, mas não das autoridades. As autoridades deixaram claro que o banco central poderá visualizar os dados referentes às transações. Elas explicaram que a nova moeda oferecerá “um  anonimato controlável”.

“Na medida em que a pessoa não cometer nenhum crime e queira fazer compras que deseje ocultar de outras pessoas, nós protegeremos este tipo de privacidade”, disse Mu Changchun, vice-diretor do departamento de pagamentos do banco central, em uma recente conferência online sobre os planos da China a respeito da criptomoeda.

Acabar com o anonimato permitido pelo papel moeda poderá trazer benefícios concretos em um país em que a corrupção e a fraude são comuns. Por outro lado, o governo chinês corre o risco de afastar cidadãos  cada vez mais preocupados pelo fato de os seus dados serem armazenados e usados.

“As moedas deveriam ser neutras”, afirmou Flex Yang, fundador da Babel Finance, uma prestadora de serviços financeiros para criptomoedas de Hong Kong.

As autoridades chinesas indicaram que o seu objetivo não é tanto copiar a Libra quanto levar a cabo uma mudança extremamente importante para a ordem financeira global. Pequim há muito desejava que a moeda chinesa, o renminbi, tivesse uma utilização maior no comércio e nas finanças internacionais. Em um discurso pronunciado em julho, Zhou Xiaochuan, um ex-presidente do banco central, afirmou que o predomínio do dólar prejudicou as economias de nações com moedas “fracas”, e alertou que a Libra e outras moedas futuras poderão fazer o mesmo, algum dia. “Precisamos nos preparar para tornar o renminbi uma moeda forte”, ele disse.

A Libra enfrenta as profundas preocupações das autoridades reguladoras internacionais. Mas independentemente da aprovação da nova criptomoeda, o Facebook pôs em movimento algo irreprimível, afirmou Deng Jianpeg, um professor da Universidade Central de Economia e Finanças em Pequim.

“Eles foram os primeiros a abrir a caixa de Pandora”, disse. “Uma vez aberta, se a moeda não for emitida ou mesmo se fracassar, aparecerá seguramente outra companhia que, no fim, emitirá outra ou que acabará sendo bem-sucedida”./ Keith Bradsher e Nathaniel Popper contribuíram para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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