Jeenah Moon / The New York Times
Jeenah Moon / The New York Times

Ampliado e multicultural, Museu de Arte Moderna de NY reabre suas portas

Reabertura do MoMa leva o museu de volta à experimentação de seus primeiros dias, quando apresentava a arte de raízes americanas e a cultura não ocidental

Holland Cotter, The New York Times

03 de novembro de 2019 | 06h00

Quando o Museu de Arte Moderna de Nova York reabriu as portas, no mês passado, depois de obras de ampliação de 4.370 metros quadrados que custaram US$ 450 milhões, finalmente se revelou como uma instituição viva, que respira o século 21, não mais como o monumento a uma história obsoleta – branco, masculino e nacionalista – que se tornara desde a fundação, em 1929.

Depois de bloquear durante décadas o multiculturalismo, hoje o MoMa o reconhece, e até investe nele, principalmente na realocação de uma coleção permanente com obras de arte – a maioria delas adquirida recentemente – da África, Ásia e América do Sul, e uma quantidade significativa de trabalhos de artistas afro-americanos e de mulheres.

O que é fundamentalmente diferente na reabertura do MoMa é a presença integrada da “diferença” em si – a presença que leva o museu de volta à experimentação dos seus primeiros dias, quando apresentava a arte de raízes americanas e a arte não ocidental.

Será que precisávamos de um MoMa superdimensionado (um terço mais amplo) multiplex, de quase um quarteirão de comprimento? Não. Como aprendemos em cada feira de arte, todos os anos, mais arte não é mais. Necessitamos de um planejamento ágil e uma visão alerta, e estas são evidentes nas atrações de abertura do museu em escala modesta, que incluem pesquisas de dois artistas afro-americanos (Betye Saar e William Pope L.), instalações de artistas da Índia (Sheela Gowda e Dayanita Singh), uma amostra de obras latino-americanas, e uma galeria de coleções permanentes dedicada à arte contemporânea da China.

Galerias permanentes

Em todos os museus, as galerias com coleções permanentes são fundamentais. Elas são o coração, o cérebro e a alma destes lugares; sua história e memória. Particularmente, as mostras de duração menor atraem as pessoas. Mas elas acabam e se mudam. Se você quiser conhecer do que trata realmente um museu, fique de olho na arte que ele possui e à qual dedica suas paredes e pisos, a longo prazo.

Julgando somente por suas medidas, o MoMa atualmente ampliado faz um esforço óbvio para reformular a sua imagem – para contar a história do que podemos chamar de Modernismo Plus, com o acréscimo do globalismo e da arte afro-americana. O museu há muito tempo se tornou famoso por inventar uma visão rígida da Arte Moderna como uma sucessão de ‘ismos’ para fins de mercado (Cubismo, Surrealismo, Expressionismo Abstrato, etc.), e por arranjar o seu acervo de maneira a ilustrar isto.

Estrutura

A linha continua grosso modo a mesma nos três pisos das galerias das coleções: a arte do século 19 até 1940 em cinco, de 1940 a 1970 em quatro, e de 1970 até os dias atuais em duas. Mas o roteiro principal agora é mais atraente com inclusões inesperadas e interrompidas por desvios e ramificações baseados em temas.

Além disso, as paredes entre as disciplinas, anteriormente fixas, foram derrubadas. O novo arranjo das galerias permanentes, coordenado por cinco principais curadores do museu, foi e será um projeto baseado na colaboração. O estilo predominante é a mescla e a coordenação, com escultura, pintura, design, arquitetura, fotografia e cinema juntos. Mas, não se assustem, cada disciplina tem um espaço próprio.

No percurso histórico de cerca de 60 galerias com coleções espalhadas por três pisos, há  bastante coisas para cada um. O visitante terá uma grande visão de Jackson Pollock, Frida Kahlo, megadoses de Pop e Surrealismo; Latas de Sopa, “Nenúfares”, e Cindy Shermans para absorver – todas as coisas que muitos procuram no MoMa, com "pau de selfie" em punho. Mas há também programas especiais, o equivalentes a mini seminários, com livros de artistas da época da Revolução na Rússia (na maioria mulheres), sobre arquitetura e escultura, e sobre o potencial épico da Arte Postal Latino-Americana. E há uma mostra, pequena em termos de espaço no chão, mas grande em material, concentrada no poeta Frank O’Hara, que foi curador do MoMa. E, quando você põe o pé lá, são divertidas.

Finalmente, temos imagens carismáticas de nomes que deveriam constar da lista prioritária de todo amante da arte, mas não constam – Geta Bratescu, Graciela Carnevale, Sari Dienes, Rosalyn Drexler, Valie Export, Beatriz González, Maren Hassinger, Atsuko Tanaka, juntamente com Benny Andrews, Ibrahim El-Salahi e May Stevens.

Na minha opinião, este MoMa do século 21 funcionará. Multicultural agora é vendável. Ignorar isto seria deixar de lucrar, sem falar na perda de credibilidade. O novo MoMa obviamente está preparado para um público novo, mais jovem.

Curadores muito perspicazes estão pondo as cabeças para funcionar de dentro para fora, em outra direção. Não estamos falando em Revolução. Com este museu provavelmente nunca falaremos nestes termos.  Mas na reformulação há ideias estimulantes e talentos inesperados, capazes de mudar a história em todos os aspectos. Enquanto  ambos continuarem a aparecer no MoMa, eu também continuarei. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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