Jim Wilson para The New York Times
Jim Wilson para The New York Times

Intolerância de moradores com população sem teto aumenta na Califórnia

'Fazem estacionamentos para cachorros, mas não constroem habitações para a gente’, disse uma moradora de rua

Thomas Fuller, Tim Arango e Louis Keene, The New York Times

13 de novembro de 2019 | 06h00

OAKLAND, CALIFÓRNIA - Insultos como “parasitas financeiros” e “vagabundos” são comuns para eles, sem falar nas pedras e no spray de pimenta atirados contra eles. Alguns moradores erguem barreiras para afastá-los das calçadas, outros organizam patrulhas pelas ruas a fim de expulsá-los aos empurrões.

Em todo o estado, o número recorde de sem teto vem provocando uma reação contra quem vive nas ruas. Gene Gorelik, um construtor de Oakland, sugeriu recentemente que os sem-teto da Bay Area de São Francisco fossem recolhidos, colocados em ônibus e mandados para ao México. “Os campos de refugiados na Síria são mais limpos do que isso que está aí”, falou.

A crise dos sem-teto não para de crescer, em grande parte, por causa do aumento vertiginoso dos preços das moradias, do fosso cada vez maior entre ricos e pobres e da persistente presença nas ruas das cidades de doentes mentais e viciados em drogas, apesar dos bilhões de dólares gastos para ajudá-los. Facebook, Apple e Google prometeram recursos para a sua causa, mas há barreiras consideráveis que impedem a solução do problema.

Na opinião de grande parte da população, o que precipitou este drama foi a situação cada vez mais esquálida de cidades como Los Angeles e San Francisco, onde o tráfico de drogas em plena luz do dia cresce sem parar em alguns pontos, e fezes humanas e agulhas estão espalhadas pelo chão.

Os sem-teto são uma mazela incurável há dezenas de anos, nas maiores cidades da Califórnia, mas mais recentemente, cresceu de maneira considerável. Há algum tempo, os moradores de São Francisco instalaram blocos nas calçadas para impedir que as pessoas ergam barracas e durmam no local. Em Los Angeles, proprietários de casas plantaram um tipo de vegetação cheia de espinhos.

“Acho que eles se preocupam mais com os animais do que conosco”, disse Lucrecia Macias, uma enfermeira que morava em uma casa em Palmdale, na Califórnia, antes que um câncer arrasasse as suas finanças. “Fazem estacionamentos para cachorros, mas não constroem habitações para a gente’.

Em parte, a exasperação, pelo menos em Los Angeles, decorre de algumas medidas adotadas nos últimos anos - o aumento dos impostos sobre as vendas e uma medida relativa a títulos - para gastar bilhões de dólares com o problema dos sem-teto, o que segundo as autoridades, amenizaria este drama. Mas as regulamentações do Estado são um obstáculo para uma solução rápida do problema da habitação.

Em São Francisco, os moradores se opuseram aos planos de construir um abrigo em um bairro de classe alta em frente ao mar, repleto de edifícios de escritórios e de apartamentos. “Colocar pessoas mentalmente doentes e viciados em droga em áreas residenciais é uma medida irresponsável”, afirmou Paneez Kosarian, funcionária de uma empresa da área de tecnologia que se opôs à criação do abrigo, sugerido por um juiz.

Paneez e outros falam das estimativas da prefeitura segundo as quais 50% dos sem-teto de São Francisco sofrem abusos, e afirmam que a crise está sendo diagnosticada de maneira equivocada como simples carência de habitações. “Isto é sem dúvida algo mais complexo do que apenas falta de moradia”.

Poucos foram mais longe do que Gorelik quanto ao problema destas pessoas. “A compaixão é contraproducente”, ele disse, acrescentando que os serviços para os sem-teto só os encorajam a continuar levando esta vida. Candice Elder, fundadora e diretora executiva do East Oakland Collective, que assiste cidadãos sem lar, disse que a posição de Gorelik é muito radical. “Quando as pessoas  pensam na crise dos sem-teto, às vezes a humanidade vai embora pela janela”, afirmou.

Para Candice, é compreensível que os moradores se preocupem com a limpeza e a segurança ao redor destes acampamentos. Mas ela disse que as pessoas não deveriam ser forçadas a sair de sua barraca enquanto não conseguirem um lugar para morar. “As pessoas se queixam’, acrescentou, “mas não apresentam uma solução compassiva”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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