Samuel Aranda para The New York Times
Samuel Aranda para The New York Times

Morar em ponto turístico de Barcelona pode ser inconveniente

Ana Viladomiu conta como é residir em La Pedrera, projetado por Gaudí e Patrimônio Mundial pela Unesco

Raphael Minder, The New York Times

05 de julho de 2019 | 06h00

BARCELONA, ESPANHA - Todos os anos, mais de um milhão de pessoas visitam a casa de Ana Viladomiu em Barcelona. E ela faz o máximo para evitá-los. Ana mora em La Pedrera, a última casa construída pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí. Suas obras espalhadas pela cidade contribuíram para tornar Barcelona um dos principais atrativos turísticos da Europa.

Na maior parte dos dias, longas filas se formam em frente a La Pedrera, que significa ‘a pedreira’. A fachada irregular empresta ao edifício o aspecto de uma caverna habitada, escavada na rocha maciça. A construção tem características absolutamente inusitadas, inclusive um pátio com mosaicos na entrada, que se assemelha a uma floresta submarina e um terraço no telhado com chaminés no formato de capacetes militares.

No entanto, morar em La Pedrera cria alguns problemas práticos para Ana, a começar por sua luta diária para pegar o elevador que a leva até o seu apartamento, no quarto andar. “Muitas vezes, preciso brigar para abrir caminho até a minha casa, com as pessoas que gritam comigo porque acham que estou furando a fila de entrada”, contou.

O apartamento tem 350 metros quadrados e amplas janelas. Ela mora ali desde os anos 1980. Em 1906, Gaudí foi contratado por um casal abastado - Roser Segimon e seu marido, Pere Milà - para construir a sua nova casa na avenida da moda Passeig de Gracia, onde ficava o comércio de luxo.

Gaudí levou seis anos para concluir o edifício, chamado oficialmente Casa Milà, onde o casal ficou com o piso principal para morar, e alugou o espaço adicional, que foi dividido em 20 apartamentos. Roser, que morreu em 1964, sobreviveu ao marido e vendeu La Pedrera a uma imobiliária. Outro arquiteto transformou então o último andar, usado como lavanderia, em mais apartamentos para alugar.

Ana Viladomiu, 63, tem os poucos que restaram. Em março, ela publicou um livro, The Last Neighbor, sobre a história do edifício, e sobre a experiência de ocupar um apartamento em uma das joias modernistas do arquiteto Gaudí. Além disso, afirmou, o seu aluguel não aumentou significativamente, embora o valor turístico de La Pedrera tenha aumentado vertiginosamente. A Unesco a declarou o local Patrimônio Mundial em 1984. 

“Pagando o que eu pago para morar neste edifício extraordinário no centro de Barcelona, eu seria louca se me mudasse para algum outro lugar”, admitiu, sem revelar o valor exato do aluguel. Gaudí incluiu características em La Pedrera que eram novidades na época, como um elevador e encanamento para água corrente.

Mas Ana também destacou alguns aspectos do projeto de Gaudí que mostraram que ele priorizava a estética, como o amplo uso de superfícies curvas. “Se você quiser instalar uma estante, pode esquecer, porque não há uma única parede reta aqui”, ela disse. “Gaudí tinha ideias muito claras e uma personalidade muito forte, que é preciso respeitar para poder morar aqui”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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