Bandar Algaloud/Anadou Agency, via Getty Images
Bandar Algaloud/Anadou Agency, via Getty Images

Morte de jornalista não rompe laços financeiros entre sauditas e americanos

Os americanos não devem abrir mão do dinheiro que a Arábia Saudita gasta com forças armadas, infraestrutura e tecnologia

Liz Alderman e Michael J. de La Merced, The New York Times

30 de outubro de 2018 | 06h00

PARIS - A Arábia Saudita decidiu despejar US$ 20 bilhões em um novo fundo de investimentos gerido pelo Blackstone Group de Wall Street. A Total, a gigante francesa do petróleo acaba de assinar  um acordo na área petroquímica no valor de nove bilhões de euros com o reino. A companhia BAE Systems britânica está vendendo 48 jatos de combate Typhoon a Riad por uma soma estimada em cinco bilhões de libras.

As maiores companhias do mundo talvez afirmem que pretendem distanciar-se da Arábia Saudita em razão do crescente furor provocado pelo assassinato do jornalista dissidente Jamal Khashoggi. Mas muitas empresas têm investimentos tão grandes que é improvável que cortem os laços ou que evitem de fazer acordos futuros com o reino rico em petróleo.

“A Arábia Saudita ainda tem uma enorme riqueza e um poderoso prestígio”, afirmou Bruce O. Riedel, ex-analista da CIA e especialista em Arábia Saudita. Ela continuará sendo um ator econômico fundamental, e não pode ser ignorada. A questão é: será possível continuar fazendo negócios como se nada tivesse acontecido?”.

Uma análise do dinheiro que o reino gasta com suas forças armadas, infraestrutura, petróleo, produtos químicos, tecnologia e entretenimentos ressalta que Riad é um cliente grande demais para ser ignorado.

Nos últimos dez anos, a Arábia Saudita concluiu contratos militares em potencial no valor de US$ 138,9 bilhões com os Estados Unidos, segundo uma pesquisa. A BAE e a Thales da França também lucraram, enquanto as fornecedoras europeias de equipamentos de defesa exportavam para Riad armamentos no valor de US$ 57 bilhões entre 2001 e 2015, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo.

E estes são apenas gastos com armamentos.

No ano passado, o reino adquiriu cerca de US$ 20 bilhões em produtos americanos. Start-ups americanas beneficiaram-se igualmente. O Fundo Público de Investimentos da Arábia Saudita investiu recentemente US$ 1 bilhão na Lucid, uma concorrente da companhia automotiva Tesla de Elon Mask, e US$ 3,5 bilhões no Uber.

O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman prometeu US$ 45 bilhões ao Vision Fund do SoftBank do Japão para investimentos em tecnologia com a finalidade de contribuir para a modernização da economia saudita, que depende basicamente do petróleo, até 2030.

O reino assinou acordos para a construção de edifícios futuristas, cinemas da AMC e hotéis franceses como parte de um projeto de US$ 500 bilhões para a Neom, uma cidade moderna a ser levantada no deserto até 2025. Riad explora acordos de energia nuclear para o fornecimento de eletricidade, antecipando-se ao dia em que os poços de petróleo secarão.

O maior alvo é a Saudi Aramco, a maior companhia petrolífera do mundo, que se prepara para entrar nos mercados de ações na expectativa de captar mais de US$ 100 bilhões. A oferta pública inicial está parada, mas duas instituições que a assessoram, o JPMorgan Chase e o Morgan Stanley, ainda trabalham para a Saudi Aramco em suas negociações para a compra de uma participação majoritária em uma indústria química saudita, conhecida como Sabic, segundo pessoas a par do assunto.

A Arábia Saudita prometeu fornecer US$ 20 bilhões a um fundo de investimentos de US$ 40 bilhões gerido pela empresa de private equity Blackstone, que não tem planos de cortar os laços com o reino.

Laurence D. Fink, diretor-executivo da BlackRock, disse recentemente à CNBC que a sua companhia, a maior gestora de ativos do mundo, não recuará, mesmo que o governo saudita tenha ordenado o assassinato de Khashoggi.

Separar-se dos sauditas seria difícil para uma empreiteira da defesa como a BAE, que tem 6 mil funcionários no reino. A companhia depende da Arábia Saudita por pelo menos 15% do seu faturamento.

As relações do governo britânico com o reino tornaram-se mais cruciais enquanto a Grã-Bretanha se prepara para sair da União Europeia. A primeira-ministra Theresa May tenta atrair uma eventual listagem da Saudi Aramco para a Bolsa britânica.

A situação também é crítica para a França, o terceiro maior investidor mundial depois dos Estados Unidos e dos Emirados Árabes Unidos.

Nos últimos dez anos, a França vendeu armas ao reino no valor de 11 bilhões de euros, e recentemente aprovou licenças para novas vendas valendo talvez 14,7 bilhões de euros.

A Arábia Saudita precisa mais do que nunca de moedas fortes. Os investimentos estrangeiros diretos no reino atingiram seu patamar mais baixo dos últimos 14 anos, US$ 1,7 bilhão, no ano passado, em comparação com US$ 7,4 bilhões em 2016, e US$ 12 bilhões em 2012, por causa da redução dos investimentos das multinacionais, segundo a ONU.

Só recentemente, a economia conseguiu sair de uma recessão no primeiro trimestre deste ano, uma crise provocada pela baixa dos preços do petróleo.

Em novembro, o príncipe Mohammed Bin Salman procurou coibir uma fuga de capitais prendendo membros da família real saudita no Hotel Carlton-Ritz, em Riad. Mas as prisões só contribuíram para aumentar os temores dos investidores.

Apesar disso, as companhias preparam as bases para novos acordos.

Uma semana depois do assassinato de Khashoggi, a Total, uma das maiores companhias petrolíferas e um dos maiores grupos petroquímicos do mundo, anunciou a criação de uma joint venture com a Saudi Aramco para a construção de um complexo petroquímico e de refino em Jubail.

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