Ben C. Solomon/The New York Times
Ben C. Solomon/The New York Times

Morte de menino pode proibir prática de muay thai infantil na Tailândia

Nas regiões rurais pobres, dinheiro recebido nas lutas pode mudar vidas

Ben C. Solomon, The New York Times

04 Janeiro 2019 | 06h00

THAT PHANOM, TAILÂNDIA - Deitada sobre um colchão de bambu, Supattra Inthirat fechou os olhos enquanto seu pai massageava  seus braços fortes com óleo e mentol. Preparando-a para o 15º MuayThai da menina, ele sussurrou uma oração. Quando Supattra, de 12 anos, conhecida como Panqueca, enfrentou sua rival e 400 torcedores sob as lâmpadas de halogêneo, lutou com uma finalidade: ganhar 60 dólares, quase a metade de um salário mensal para as famílias dessa região.

“Ela será uma campeã”, profetizou o pai. “Precisou treinar desde cedo para criar ossos de lutadora”. Em toda a Tailândia, o muay thai é um estilo de kickboxing amado por ricos e pobres. Para os pobres,  pode ser uma forma de ascensão social, um meio para jovens musculosos lutarem para proporcionar às famílias o ingresso numa florescente classe média. Para os ricos, é um jogo de apostas em que dezenas de milhares de dólares podem ser ganhos ou perdidos.

Em novembro, estes mundos se chocaram quando Anucha Tasako, 13 anos, morreu de hemorragia cerebral depois de ser nocauteado em um combate de muay thai. O vídeo do nocaute mostrou cinco golpes na cabeça, depois Anucha deu uns passos e despencou no chão. Dois dias mais tarde, morreu. O menino havia lutado em espantosas 174 lutas desde os 8 anos de idade.

Agora, a Tailândia deverá reavaliar a brutalidade de um esporte que envolve lutadores menores de idade e a sombria economia das apostas que ele gerou. “É o trabalho infantil, é abuso infantil”, disse Jiraporn Laothamatas, uma neuroradiologista que lidera o movimento pela a proibição do boxe de crianças. Em novembro, ela divulgou um estudo elaborado ao longo de sete anos sobre o efeito do muay thai nos cérebros das crianças, mostrando uma queda acentuada do Q.I. e das funções cerebrais nos lutadores. “Estas crianças ganham dinheiro, alimentam as suas famílias e os seus promotores com suas vitórias. Estamos destruindo as nossas crianças por esporte.

A morte de Anucha provocou uma onda de ira, levando os legisladores tailandeses a propor uma medida que poderá estabelecer limites às lutas e proibir as crianças abaixo dos 12 anos de participarem do boxe competitivo. “Isto destruirá o muay thai”, disse Sudhichai Shokeskijchai, especialista em medicina para lutadores profissionais e entusiasta da luta. “Devemos no preocupar com a prevenção e não em afastar as crianças. Elas lutam pela própria sobrevivência”.

As regras nacionais afirmam que os lutadores com mais de 15 anos devem registrar-se para lutar oficialmente. Para os competidores abaixo desta idade, as regras são vagas, exigindo apenas a permissão dos pais. Entretanto, a maioria das lutas ocorre extraoficialmente. Um centro de jornalismo investigativo informou que somente 10.373 crianças lutadoras se registraram entre 2010 a 2017, enquanto, segundo os representantes do boxe, cerca de 200 mil abaixo dos 15 anos costumam competir regularmente. “Lutar está no nosso sangue”, disse Sudhichai. “Estas leis só farão com que as pessoas o pratiquem isto sem nenhuma segurança”.

O muay thai mescla pontapés, socos, golpes com joelho e cotovelos para derrotar o adversário. As lutas são tipicamente de cinco rounds de três minutos cada sem proteção da cabeça e os competidores usam luvas de 10 onças. Na Tailândia, as competições de muay thai conseguiram evitar as leis sobre a proteção da criança e o trabalho infantil, que determinam que somente as crianças assalariadas são consideradas trabalhadoras. O dinheiro ganho nas lutas é considerado uma recompensa e é legal.

Nas regiões rurais pobres da Tailândia, onde o boxe infantil tem os seus torcedores mais fortes, este dinheiro pode mudar vidas. Comparando com as famílias que podem ganhar 200 dólares por mês trabalhando em uma fazenda, uma criança que pratica o esporte ganha 60 a 600 dólares por uma vitória - ou mesmo mais com um nocaute.

Para os lutadores, uma vida de disciplina começa desde cedo. Em rústicos campos de treinamento, na Tailândia rural, as crianças dão socos com luvas estragadas e sacos de boxe doados. As melhores são recrutadas por clubes de luta de Bangkok. Estes funcionam como internatos, em que os jovens lutadores de elite vivem junto, longe das famílias e seguem uma rigorosa rotina de treinamento. 

Às 4:30 da manhã, uma corrida de 10 quilômetros. Boxe das 5:00 às 7:00. Escola até a tarde, depois mais uma sessão de treinamento. O sonho é tornar-se profissionais. No Estádio Rajadamnern de Bangkok, as lutas de muay thai são realizadas quatro vezes por semana. Tailandeses de meia idade e turistas estrangeiros lotam o estádio, tomando cerveja e agitam as mãos no ar em uma série elaborada de movimentos para indicar as suas apostas.

A carreira de Panqueca teve um começo promissor. As garotas são relativamente novas no muay thai, mas formam um setor que está crescendo, e Panqueca ganhou 12 das suas 14 últimas competições. No noite da luta, ela subiu no ringue para encarar uma outra garota de 12 anos. Depois de cinco rounds, as duas saíram com os rostos machucados. A decisão unânime dos juízes foi que Panqueca perdeu. Seu pai, um ex-lutador, pegou as coisas da filha. ”Ela precisará treinar muito mais’, disse.

Navaon Siradapuvadol contribuiu para a reportagem.

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