Família de Kavous Seyed Emami via The New York Times
Família de Kavous Seyed Emami via The New York Times

Morte de prisioneiros gera revolta entre iranianos

Familiares questionam supostos suicídios de prisioneiros iranianos acusados de espionagem

Thomas Erdbrink, The New York Times

28 Fevereiro 2018 | 11h01

TEERÃ - Quando finalmente recebeu a chamada, o coração de Maryam Seyed Emami deu um pulo. A não ser por um breve telefonema, ela não tinha qualquer notícia do marido, Kavous Seyed Emami, professor e destacado ambientalista, desde que ele fora preso com outras seis pessoas e acusado de espionagem, mais de duas semanas antes, no final de janeiro. Agora, alguém mandava que ela se apresentasse à promotoria de Teerã, onde poderia finalmente ver o marido.

Correu para lá, mas, em vez de a levarem para ver o marido, foi posta em uma sala com um promotor e quatro agentes da Inteligência da Guarda Revolucionária Islâmica, onde foi interrogada durante horas.

Quando os agentes esgotaram todas as perguntas, foi informada de que poderia ver o marido. Havia apenas uma coisa, acrescentaram, ele estava morto - teria se suicidado na cela.

“Eles deveriam erguer uma estátua para ele, e não o deixar morrer na prisão”, afirmou o filho Ramin, 36, um famoso cantor no Irã que se apresenta com o nome de King Raam. Ele e o irmão Mehran, 34, decidiram ignorar as advertências dos agentes da inteligência e falar abertamente, na esperança de pressionar as autoridades para que revelassem o que havia acontecido com o pai e com outros prisioneiros que morreram recentemente em prisões do Irã.

“Queremos uma investigação transparente,” disse Mehran, que negou as acusações de que seu pai era um espião.

A morte de Seyed Emami tornara-se um ponto de convergência para a classe média iraniana. Ele estrelara recentemente um vídeo sobre a possibilidade de mudança, e era um símbolo de esperança.

“Meu pai estava sempre cheio de esperança. Ele me fez acreditar que a mudança era possível, mesmo nos lugares mais improváveis”, afirmou Mehran. “Ele tinha o dom de unir pessoas de todas as tendências”.

Sua morte na prisão de Evin está alimentando uma crescente revolta no Irã contra um sistema que, muitos temem, nunca mudará. Esses sentimentos irromperam em manifestações em todo o país, no início deste ano, e recentemente contribuíram para levar muitas mulheres a tirarem seus lenços da cabeça em público em sinal de protesto contra o uso obrigatório do véu.

Seyed Emami é uma entre as inúmeras personalidades iranianas e ocidentais de destaque, ao menos seis delas iraniano-americanas, e outros com dupla nacionalidade, que foram presas numa competição mortal, segundo os analistas, entre, de um lado, os conservadores no Irã que se agarram à revolução, e, do outro, os que tentam responder aos amplos anseios por mudança.

Ultimamente, a linha-dura ganhou nova força, afirmam os analistas. Sua postura contra o Ocidente foi respaldada pelas crescentes ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, e do jovem príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.

Sociólogo que ensinava na Universidade Imam Sadiq, Seyed Emami se destacava por acreditar em uma mudança gradativa e na responsabilidade individual para fazer isso acontecer. Ele tinha passaporte canadense.

Nas horas livres, Seyed Emami, um jovial homem de 64 anos quando morreu, chefiava uma organização ambientalista, a Persian Wildlife Heritage Foundation. As câmeras que a fundação instalou para seguir os movimentos de animais raros estão entre as supostas provas apresentadas nas acusações de espionagem. As autoridades iranianas afirmaram que ele e outros “instalaram câmera em pontos estratégicos do país para monitorar as atividades dos mísseis do Irã, e remeteram as informações a estrangeiros”.

Para a família de Seyed Emami, essas afirmações são ridículas. “Tudo isso é ridículo, nós não sabemos nem por onde começar”, disse Ramin. “As câmeras, por exemplo, servem para filmar animais selvagens, seu alcance não vai além de 25 metros. Custam pouco e podem ser compradas em qualquer lugar. Mesmo que eles quisessem - e não queriam -, como poderiam espionar o programa de mísseis com aquilo?”.

Ramin revela que pensa frequentemente em uma conversa que teve com o pai alguns dias antes de sua prisão, quando ele se sentira deprimido. “Falamos de como viver uma boa vida”, afirmou. Seu pai riu, e se limitou a responder: “O segredo está em dar amor. É daí que vem a felicidade”.

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