Matthew Abbott / The New York Times
Matthew Abbott / The New York Times

Crocodilos causam pelo menos uma morte por mês no Timor Leste

Em um país de 1,2 milhão de habitantes, os ataques aumentaram cerca de 20 vezes nos últimos dez anos

Matthew Abbott, The New York Times

15 de junho de 2019 | 06h00

LOSPALOS, TIMOR LESTE - Os dois cientistas vieram de muito longe na esperança de descobrir o que muitas pessoas procuram evitar: crocodilos que comem seres humanos. Em março, os biólogos Yusuke Fukuda e Sam Banks, da Austrália, vieram ao Timor Leste a fim de investigar um mistério nacional: por que motivo tantos timorenses estão sendo mortos por crocodilos?

Os ataques aumentaram nada menos que 20 vezes nos últimos dez anos, uma média de pelo menos uma morte por mês em um país de 1,2 milhão de habitantes. Há séculos, a população do Timor Leste reverencia e adora os crocodilos. O mito original do país fala do crocodilo Lafaek Diak, que pela amizade por um menino se sacrificou transformando-se no lar da criança - a ilha de Timor; cada escama da sua pele tornou-se uma montanha.

Os timorenses chamam os crocodilos “abo”, avô, na língua tetum (de influência portuguesa), e matá-los é tabu do ponto de vista cultural, além de ilegal. Os animais são tão admirados que, por timidez, as vítimas dos ataques muitas vezes deixam de denunciá-los.

Os pesquisadores descobriram que cerca de 83% das pessoas atacadas no Timor Leste nos últimos 11 anos eram pescadores de subsistência. Muitos moradores não acreditam que os crocodilos nativos sejam os causadores dos ataques, que atribuem a animais migradores, “desordeiros” assassinos. “As pessoas estão convencidas de que os crocodilos timorenses são seus ancestrais, e os ancestrais  não atacam gente”, afirmou Demetrio Carvalho, secretário de Estado do Timor Leste. “Os nossos avós não matam pessoas”.

Os pesquisadores querem testar a teoria segundo a qual os mortíferos crocodilos são animais de água salgada provenientes da Austrália. O Timor Leste localiza-se a cerca de 450 quilômetros da área comum a estes animais, uma distância facilmente transposta por um animal que pode atingir seis metros de comprimento e pesar mais de 900 quilogramas. “Depois de nadar por vários dias, os animais estariam seguramente muito famintos e perigosos”, indicou Fukuda.

Ele e o professor Banks pretendiam colher amostras  de DNA de vários crocodilos. Para tanto, usaram uma agulha, presa à ponta de uma haste de alumínio de 3,5 metros de comprimento chamada haste de biópsia, capaz de penetrar no couro do bicho.

Para encontrar os crocodilos, os pesquisadores recorreram a Vitorino de Araujo, de 37 anos. Araujo é conhecido na aldeia como a pessoa a quem pedir ajuda quando ocorre um ataque de crocodilo. Ele entra no pântano e encontra o que resta de um corpo. É também um líder espiritual, que mantém uma relação quase sobrenatural com os animais: ele sussurra para os crocodilos.

Ao pôr do sol do primeiro dia, os cientistas chegaram a Lospalos, e foram logo para o local assinalado.

Na escuridão, perceberam dois pontos brilhantes flutuando sobre a superfície da água - os olhos de um crocodilo. Vitorino agarrou a haste e penetrou no pântano. Depois de alguns minutos de silêncio, arremeteu a haste. Acertara o alvo no primeiro golpe.

Por sete dias, a equipe retirou amostras de sangue de crocodilos selvagens que costumam ser considerados bichos de estimação ou amuletos da sorte. Ao todo, conseguiu 17 amostras. De volta a Dili, a capital, o motorista de Fukuda teve de parar na estrada por causa da multidão reunida em frente ao oceano. Um policial chamou o cientista para mostrar o que o oceano devolvera à praia - óculos de mergulho, um arpão e um calção de banho rasgado.

Os objetos pertenciam a Agostinho da Cunya, um garoto de 17 anos que na noite anterior fora caçar com arpão com o irmão enquanto o pai esperava por eles na praia. O garoto, disseram os familiares, foi atacado por um crocodilo. Nunca mais foi visto./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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