Zack Wittman para The New York Times
Zack Wittman para The New York Times

'Mortífera' maré vermelha da Flórida vira problema para biólogos

Florescimento de algas mais prolongado traz alto custo para a vida marinha

Melissa Gomez, The New York Times

18 Setembro 2018 | 10h15

Eles chegam cambaleantes, com aspecto deprimido. Às vezes apresentam úlceras nos olhos e na barriga.

Os pacientes da Dra. Heather Barron variam de maçaricos-brancos, pequenas aves que podem pesar menos de 100 gramas, até tartarugas com peso superior a 100 quilogramas. E a prolongada maré vermelha que afeta a Ilha de Sanibel, na Flórida, segue aumentando seu número.

A Clínica de Reabilitação de Animais Silvestres teve um aumento de 25% no número de pacientes em relação à mesma época do ano anterior, disse a Dra. Barron, diretora médica e de pesquisas. Os funcionários da clínica estão extenuados, trabalhando 80 horas semanais para atender o grande número de animais envenenados pela maré vermelha.

“Sem dúvida, este tem sido um ano difícil", disse a Dra. Barron.

No sudoeste da Flórida, uma tóxica maré vermelha que já dura mais de 10 meses segue levando grandes concentrações de algas à costa, e, como resultado, toneladas de animais marinhos mortos tiveram que ser removidos das praias.

As tartarugas marinhas e os peixes-boi, cujos hábitos alimentares os expõem à alga tóxica, conhecida como Karenia brevis, são apenas duas das espécies com populações vulneráveis que foram afetadas pela proliferação das algas nocivas. Nos humanos, a alga pode causar irritações respiratórias.

A maré vermelha é um fenômeno natural envolvendo a proliferação de algas, observado na Flórida já no século 18. Tipicamente, as algas surgem no fim do verão ou início do outono, recuando antes do verão seguinte.

Mas a maré vermelha deste ano é a mais longa desde 2006, quando o fenômeno durou 17 meses. 

Coletivamente, os cientistas dizem que a proliferação de algas está se agravando, intensificada pelo esgoto da agricultura e o clima mais quente.

Duas espécies de tartarugas marinhas estão sofrendo bastante com o resultado: a tartaruga comum, já ameaçada, e a tartaruga-de-kemp, a tartaruga mais ameaçada do mundo. Algumas tartarugas-verdes também morreram.

O número de tartarugas marinhas encontradas mortas, feridas ou doentes desde novembro atingiu um novo recorde para uma única maré vermelha, somando 354, disse o biólogo Mike Foley, especializado em animais silvestres.

“Eventos como esta maré vermelha nos lembram que as tartarugas estão sob imensa pressão", disse ele.

E as autoridades estão adotando medidas para proteger outras espécies marinhas.

No dia 30 de agosto, a comissão de preservação anunciou uma proibição à pesca comercial do luciano-do-golfo e da perca, citando a devastação sofrida pelas populações de peixes.

Os peixes-boi, cuja presença calma se tornou parte da identidade local do sudoeste da Flórida, também foram muito afetados. Números preliminares mostram que, até 27 de agosto, 115 peixes-boi morreram este ano em decorrência da maré vermelha - em todo o ano de 2017, foram 67 peixes-boi mortos, de acordo com a veterinária Martine deWit, do Laboratório de Patobiologia de Mamíferos Marinhos, que integra a comissão de preservação.

Ela disse que resta saber que o número de peixes-boi mortos pela maré vermelha é mais alto em parte porque a população de peixes-boi está aumentando.

Os peixes-boi, espécie ameaçada, se alimentam de ervas marinhas, que absorvem as toxinas, expondo-os aos males causados pela maré vermelha mesmo meses depois do recuo do fenômeno, disse ela.

“Quando as praias são liberadas e as pessoas deixam de sentir os efeitos", disse ela, “os peixes-boi ainda podem ser envenenados pela maré vermelha".

O professor Larry Brand, da Universidade de Miami, disse que as marés vermelhas são agora cerca de 15 vezes piores do que eram há quase 50 anos.

Ele disse que a maré vermelha desse ano foi agravada pela presença de nutrientes derivados da atividade humana, um volume que segue aumentando com o desenvolvimento de construções na região costeira. O líquido que deságua do Lago Okeechobee, onde é alta a concentração de fósforo e nitrogênio na água em decorrência do uso de fertilizantes, também levou a uma alta na proliferação de algas verdes e azuis.

“O aumento no volume desse líquido descartado levou a uma maré vermelha particularmente intensa", disse Brand.

Para a Dra. Barron e sua equipe, as semanas têm sido longas, e ela diz que todos mantêm a esperança de que a maré vermelha termine logo.

As praias da Ilha de Sanibel foram esvaziadas de pessoas e também de animais, disse ela. 

Anteriormente, havia dias em que ela avistava até 30 águias-pesqueiras. Agora, faz semanas desde que ela viu alguma.

“Dessa vez, o fenômeno está persistindo", disse ela.

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