Rugile Kaladyte The New York Times
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Depois de 43 anos, músicas de Mossy Kilcher para o Alasca ganham segunda vida

Observar a natureza no estado onde nasceu sempre foi sua paixão. Mas a artista também está pronta para retornar a um de seus amores originais

Grayson Haver Currin, The New York Times - Life/Style

04 de agosto de 2020 | 05h00

Na sua mais antiga recordação, Mossy Kilcher, então com três anos de idade, está numa praia varrida pelo vento do Alasca em 1945, segurando a mão de seu pai enquanto ondas trovejantes quebram a seus pés. Cercada por falésias e por toda a extensão aparentemente interminável da Baía de Kachemak, ela percebe, pela primeira vez, que nada disto vai matá-la.

Yule, o pai de Kilcher, havia fugido da Suíça e da Segunda Guerra Mundial para fundar uma utopia comunitária na fronteira dos Estados Unidos ao lado de sua esposa, Ruth, aspirante a cantora de ópera. Mossy (cujo nome de batismo é Mairiis), a mais velha de seus oito filhos, lembrou do terror que sentiu naquele dia ao ver o chão acidentado dos 60 hectares da propriedade da família. Mas aí ela ouviu o canto reconfortante do pato-de-cauda-afilada.

“Essa ave marinha me deixou com vontade de descobrir o que tinha ali, então não tive mais medo, pelo resto da vida”, disse Kilcher por telefone, falando de sua casa no Alasca. Ela fez uma pausa, imitou um pouco o canto do pato – um crescendo alegre entre duas notas, como um trompete com surdina tocando blues – e deu risada. “A natureza era tão assustadora que eu sentia que precisava fazer amizade com ela, ou jamais ficaria segura aqui”, acrescentou.

“Ainda me sinto do mesmo jeito. Foi o começo de mim”. Nos 75 anos que se passaram desde que Kilcher ouviu esse chamado, observar a vastidão do Alasca, integrar-se à paisagem e se tornar sua mensageira internacional virou o trabalho de sua vida. Na década de 1970, ela ajudou a construir uma comunidade intencional perto de Anchorage e lutou para proteger o esplendor do estado à medida que a indústria do petróleo o invadia.

Desde os anos 1980, ela é dona da Fazenda Seaside, onde há doze anos guia os hóspedes em passeios a cavalo que duram todo um dia. Ela documentou obsessivamente os cantos dos muitos pássaros do estado, doou seu arquivo para a biblioteca ornitológica da Universidade de Cornell e dá palestras sobre eles no Zoológico Nacional do Smithsonian. Agora, aos 78 anos, Kilcher está finalmente retornando às suas próprias canções.

Na semana passada, a Tompkins Square Records, gravadora independente que desde 2005 garimpa músicas obscuras, relançou Northwind Calling, a coletânea caseira que Kilcher gravou e lançou por conta própria, com uma capa desenhada à mão, em 1977, antes de praticamente desaparecer do mundo da música. Sua voz suave e acolhedora flutua sobre o delicado dedilhar do violão, às vezes acompanhada por um banjo, uma rabeca ou suas próprias gravações dos cantos dos pássaros.

“O álbum não tinha nenhuma pretensão, nenhuma ambição comercial”, disse Josh Rosenthal, proprietário da Tompkins Square, que encontrou o disco num buraco negro do YouTube enquanto procurava casas de aluguel para passar as férias no Alasca. “Era uma produção caseira”. Feito uma pilha de poemas e polaroids da vida de Kilcher como naturalista amadora, Northwind Calling é uma janela de vinte músicas que se abrem para a beleza, os segredos e até os perigos de sua vida no norte.

Composto antes de o Alasca se tornar um estado, é também um lembrete admirável da função primitiva da música folclórica, modelada pelo cancioneiro suíço e pelas gravações de Alan Lomax que seus pais tocavam em casa. “É uma visão muito pura do que a música folclórica queria ser – canções de uma certa região”, disse a cantora e compositora Jewel Kilcher, que é sobrinha de Mossy, por telefone de sua casa perto das Montanhas Rochosas.

Dois dias depois, ela voou até o Alasca para passar o Dia da Independência com a tia, a quem chama de segunda mãe. “Essas músicas têm sua própria cultura, seus próprios pássaros, sua própria vida selvagem, seu próprio povo”, disse ela. Os Kilcher já eram uma família lendária do Alasca décadas antes de Jewel trazer fama para o sobrenome com Pieces of You, seu grande sucesso de 1995 – ou antes de Atz, o pai de Jewel, virar a estrela do bom e velho reality show do Discovery Channel Alasca: A Última Fronteira.

Yule ajudou a elaborar a constituição do estado em 1956 e depois foi membro de seu Senado. Quando Mossy era adolescente, os Kilcher retornaram à Suíça por dois anos, para que ele pudesse percorrer a Europa dando palestras sobre o Alasca em sete idiomas. Inspirada pela primeira apresentação musical a que assistiu, do violonista virtuose Andrés Segovia, e tomada por uma insuportável saudade de casa, Kilcher pegou um alaúde e começou a cantar odes para o Alasca.

Ela escreveu uma de suas primeiras canções, a deslumbrante Day Dream Land, aos 13 anos. Nas duas décadas seguintes, esta virou sua rotina: ela saía de casa, para estudar no Reed College em Oregon ou trabalhar numa distante fábrica de peixes enlatados, e voltava com resmas de canções sobre sua devoção à terra onde cresceu. Going to Blow captura toda a tristeza arraigada de um velho pescador que, sozinho no porto, aguarda a próxima saída para o mar aberto. Where Does This River Flow? detalha a dor agridoce de sair de casa para ver o mundo.

Ela escreveu Cloudy Day – um louvor que anseia por familiares e amigos da mesma maneira como as canções religiosas celebram a vida após a morte – num afloramento rochoso da costa do Oregon, olhando para o noroeste, na direção do Alasca. “Eu podia ter me metido em apuros ali, mas ao meu redor tinha uma pequena bolha protetora chamada Alasca”, disse Kilcher. “Eu também tinha uma canção em mim – muitas vezes fui resgatada pensando que o pato-de-cauda-afilada ou o tordo-eremita eram meus anjos da guarda”.

As músicas de Kilcher habitam a compreensão a que ela chegou aos três anos: para sobreviver, ela precisaria cooperar com a natureza, ao invés de conquistá-la – uma forma de empatia que muitas vezes entra em conflito com a mentalidade dos pioneiros. Ela cantava canções que falavam de coiotes à espreita e de pássaros vindos de longe como se fossem amigos dignos de toda a confiança. “A terra estava aqui antes de nós. Ela é nativa”, disse.

“Você aprende a viver com seu ambiente. Não precisa ser uma grande batalha”. Assim como Vashti Bunyan ou Bill Fay, seus contemporâneos britânicos, Kilcher parecia ter cantado suas canções e deslizado silenciosamente de volta para casa. Olhando em retrospecto, admitiu ela, tinha mais coisa em jogo. “Nunca tive certeza se era boa o suficiente. E estava com medo de dar os próximos passos para descobrir”, disse ela, timidamente.

“Era como tirar todas as roupas. As pessoas julgam você ali, na hora. Mas sou uma obra sempre inacabada”. Agora Kilcher, assim como Bunyan ou Fay ou Shirley Collins, está pronta para tentar uma última vez. Ela acabou de escrever um livro de memórias sobre sua juventude na propriedade da família, em parte como uma tentativa de se contrapor às versões androgênicas da vida do Alasca promovidas pelos reality-shows.

Ela acha que também pode fazer o mesmo como cantora. Jewel – que ainda toca Day Dream Land, uma das primeiras canções que aprendeu e a primeira que ensinou ao próprio filho – se ofereceu para gravar Kilcher em Nashville. Ela tem quarenta músicas prontas, quase meio século de fotografias instantâneas do Alasca ainda não reveladas. “Espero que não seja tarde demais. Todo mundo sempre me mostra todas as coisas que fiz.

Mas só vejo as coisas que não fiz”, disse Kilcher durante uma conversa no FaceTime, sorrindo e caminhando pela explosão de flores coloridas de seu quintal. A paisagem não a assusta mais. De repente, ela parou, distraída com o canto alegre do pardal-raposa. “Você ouviu?”, ela me perguntou, rindo até suspirar. “É importante não perder essa conexão”. /

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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