Museu Van Gogh, Amsterdã
Museu Van Gogh, Amsterdã

Mostra na Holanda retrata traços japoneses na arte de Van Gogh

Embora nunca tenha estado no Japão, o pintor Vincent van Gogh incorporou elementos inspirados na arte japonesa em suas obras

Nina Siegal, The New York TImes

13 Abril 2018 | 15h30

AMSTERDÃ - Na luz suave e transparente da Provence, na França, Vincent van Gogh via os céus límpidos das gravuras japonesas. As flores das amendoeiras, as árvores nodosas e os íris que pontilhavam a paisagem francesa evocavam para ele paisagens pintadas em Kyoto. E nas pessoas que bebiam nos cafés de Arles, ele via refletidas as gueixas e os atores do teatro Kabuki de um país que jamais visitara.

“Caro irmão, sabe, eu me sinto no Japão”, escreveu van Gogh ao irmão Theo, no dia 16 de março de 1888, pouco depois de se estabelecer em Arles, às margens do Ródano, na França.

Em junho, pediu a outros pintores impressionistas que fossem ter com ele, ali. “Gostaria de que vocês passassem algum tempo aqui, vocês poderiam sentir tudo isto”, escreveu. “Depois de um pouco, a nossa visão se modifica, passamos a ver com um olhar mais japonês, percebemos a cor de maneira diferente”.

Por pelo menos um ano, van Gogh viveu na Provence em uma espécie de projeção produzida por sua imaginação de um Japão idealizado na paisagem francesa, afirmou Nienke Bakker, curadora dos quadros do Museu Van Gogh. O pintor havia sido contagiado pelo estilo japonês, a verdadeira mania  pela estética japonesa, que varreu a Europa no século 19.

O Museu Van Gogh de Amsterdã, em colaboração com três museus japoneses, montou a exposição mais abrangente, até o momento, para explorar esta inspiração, “Van Gogh & Japan”, que irá até 24 de junho. Ela mostra como, aos poucos, van Gogh incorporou elementos da arte japonesa ao seu estilo.

“É difícil imaginar como seria a sua obra sem esta fonte de inspiração”, observou Nienke, um dos vários curadores da exposição, referindo-se à influência das gravuras japonesas.

Van Gogh descobriu pela primeira vez as gravuras japonesas “Ukiyo-e” - estampas coloridas sobre papel feito à mão - em 1885, enquanto trabalhava  na cidade portuária de Antuérpia, na Bélgica, cujas docas, contou, estavam repletas de mercadorias  japonesas. “São fantásticas, singulares, estranhas”, escreveu.

Quando se mudou para Paris, comprou cerca de 660 estampas que pagou poucos centavos cada uma. De início, ele simplesmente copiou as obras japonesas: por exemplo, em 1887,  copiou com lápis e tinta a capa de uma edição da revista “Paris Illustré” dedicada ao Japão, e também fez “Courtesan (After Eisen)”, um quadro  a óleo  em tamanho grande baseado na imagem.

Na época em que ele se mudou para Arles, um ano mais tarde, estava totalmente fascinado pelo Japão. Às vezes dividia a tela usando linhas diagonais em lugar de planos com perspectiva horizontal, como era a norma na pintura ocidental, e riscava seus quadros com uma chuva diagonal, como vira nas gravuras japonesas.

“No primeiro ano em Arles, tudo era Japão”, disse Bakker, “Mais tarde, após o seu colapso, isto mudou, ainda se refere a ele, mas é menos importante. A natureza da sua admiração havia mudado. Ela agora se integrou ao seu estilo, mas não é mais o seu modelo artístico”.

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