Kiana Hayeri / The New York Times
Kiana Hayeri / The New York Times

Mostra resgata vidas perdidas para a violência no Afeganistão 

Com lenços, roupas e poemas, exposição busca manter viva a memória de milhares de civis que tiveram as vidas arrancadas no país ao longo de 40 anos 

David Zucchino e Fatima Faizi, The New York Times

25 de abril de 2019 | 06h00

CABUL, AFEGANISTÃO - As sandálias do irmão. Uma bandeira do Afeganistão. O brinquedo favorito da filha. Estas são algumas das coisas que restam de vidas perdidas para a violência. Os pertences, reunidos em contêineres de madeira feitos à mão, estão expostos no porão gélido de uma casa em Cabul. São os objetos dos mortos, preservados por membros da família, de afegãos que perderam a vida nos últimos 40 anos de conflito.

A exposição de coisas de uso diário - de lenços e roupas a xícaras de chá e poemas - busca manter viva a memória de uma fração das centenas de milhares de civis que morreram de maneira violenta desde o ano de 1979 no Afeganistão. Cada caixa é acompanhada por um texto escrito por seus entes queridos sobre a vida perdida. “Queremos a história escrita pelas próprias vítimas”, disse Hadi Marifat, diretor do Afghanstan Center for Memory and Dialogue, onde está a mostra, inaugurada em fevereiro.

Os civis afegãos que se foram frequentemente são esquecidos por todos, menos pelos familiares, enquanto os combatentes - além dos senhores da guerra e comandantes - são exaltados em cartazes e pôsteres. Uma das 36 caixas expostas pertence a Kabal Shah, cujo irmão morreu em um ataque de um terrorista suicida em 2016. O motorista de uma ambulância que entregou o corpo a Shah pediu para ficar com o tênis que o morto usava naquele dia.

Shah consentiu. Lamentou a decisão quando pediram que reunisse uma caixa de objetos pessoais para lembrar o irmão. Mas salvou as sandálias favoritas dele. “Eu queria ter a certeza de que a memória do meu irmão seria preservada”, defendeu. “Quero que as pessoas vejam o que aconteceu com o meu país - quem nós perdemos e como isto é doloroso”.

Outra caixa continha uma carta que alguém conseguiu levar para fora da prisão, em 1979, no interior de um tubo vazio de pasta de dentes, escrita em letras minúsculas no papel de uma caixa de cigarros: “Ainda estou vivo”. O preso que a escreveu, Dawood Sharif, foi executado um mês mais tarde.

Uma penteadeira vermelha de brinquedo que pertencera a uma menina de 8 anos, Saima, estava em outra caixa. Ela foi morta por um terrorista suicida em Cabul em 2015. Seu pai escreveu contando os esforços para localizar os seus restos mortais. Acima dos itens expostos estão as fotografias dos mortos. Uma linha do tempo traçada nas paredes faz a cronologia de eras de violência, desde a invasão soviética em 1979, passando pelas guerras civis que se seguiram, até a guerra da coalizão contra o talibã, atualmente em seu 18º ano.

Na linha do tempo estão os nomes de 8.450 pessoas, uma fração do total de vítimas da violência ao longo de 40 anos. Somente na última década, morreram 32 mil civis, segundo a ONU. Também são lembradas as vítimas sem nome. Em um mapa do Afeganistão feito de barro seco e argila estão espetados vários alfinetes que representam 19 fossas comuns confirmadas. Há também uma torre construída com roupas, lenços, sapatos e mochilas chamuscadas, resíduos de ataques a bomba que visavam indiscriminadamente civis. “Ainda é possível sentir o cheiro de sangue seco”, rememorou Fatima Alavy, que trabalha no centro. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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