Instituto Cajal, Madri
Instituto Cajal, Madri

Mostra reúne detalhadas ilustrações do cérebro humano

Exposição apresenta diversas ilustrações do cérebro criadas pelo 'pai da neurociência moderna'.

Roberta Smith, The New York Times

28 Fevereiro 2018 | 09h36

Não é sempre que apreciamos uma exposição usando o próprio aparato que é também seu tema. Mas este é o caso de "The Beautiful Brain: The Drawings of Santiago Ramón y Cajal", na Grey Art Gallery, da Universidade de Nova York, uma das exposições mais inusitadas e estimulantes da temporada.

Ela reúne 80 ilustrações de caderno feitas com diferentes combinações de tintas e lápis pelo neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), consideradas algumas das maiores ilustrações científicas do mundo. Juntas, elas descrevem um fantástico mundo etéreo de formas flutuantes, redes lineares, nódulos agitados e energias torrenciais. Elas retratam aquilo que trazemos entre as orelhas como um imenso universo cósmico. O fato de as imagens serem inegavelmente artísticas só aumenta a complexidade da experiência.

Cajal é considerado o pai da neurociência moderna, tão importante em sua área quanto são Charles Darwin ou Louis Pasteur em seus domínios (embora seja relativamente desconhecido fora da área). As descobertas dele, feitas nos últimos 12 anos do século 19, envolvem a comunicação entre os neurônios, peças elementares do cérebro, da espinha dorsal e do sistema nervoso.

A teoria dele, aceita imediatamente pela maioria, mas corroborada estritamente somente nos anos 1950, dizia que os neurônios mantinham contato sem se tocar. Eles se comunicam por espaços minúsculos chamados de fendas sinápticas. Por meio de uma transmissão química e elétrica, o axônio de tronco único de um dos neurônios conversa com a forma enraizada do dendrito de outro neurônio.

Este processo de transmissão de mensagens sinápticas entre células não conectadas passou a ser chamado de doutrina dos neurônios e, em 1906, ela rendeu a Cajal o prêmio Nobel de medicina. Ele o compartilhou com o histologista italiano Camillo Golgi, que criou um novo método de tingimento dos tecidos que separava células individuais para serem vistas ao microscópio em vez de apresentá-las como massas ilegíveis. Uma ironia do prêmio dividido (por terem revelado a estrutura do sistema nervoso) é o fato de Golgi não ter se convencido da doutrina dos neurônios, mantendo-se fiel à teoria reticular, que supunha uma conexão física entre os neurônios.

Em sua pesquisa, as duas ferramentas de Cajal foram o mais poderoso microscópio que ele pôde encontrar e uma das técnicas mais antigas da humanidade: o desenho, para o qual ele tinha grande talento. Observando através das lentes, ele enxergava e desenhava com tamanha precisão à mão livre que algumas de suas ilustrações ainda são usadas nos manuais. Ainda assim, desenhava com tamanha delicadeza e vivacidade que seus desenhos se sustentam sozinhos como obras de expressão gráfica, ao mesmo tempo misteriosos e conhecidos.

As ilustrações são bastante conhecidas para quem acompanha a ciência. Para aqueles menos informados, é possível apreciá-las pelos motivos sugestivos das profundezas da imaginação. Suas linhas, formas e texturas variadas, feitas com diferentes traços e tintas, são de causar inveja aos artistas modernos. O fato de estabelecerem um elo com a arte surrealista, a abstração biomorfa e o talento de rascunhar são apenas metade de seu encanto.

Essas pequenas obras evocam tantas imagens já conhecidas (paisagens, sistemas climáticos, árvores, vida marinha) que nos fazem voltar à realidade, implicando os múltiplos propósitos de certas estruturas naturais.

Os desenhos vão impressionar os entusiastas da arte, que usam o cérebro sem saber como ele funciona, e inspirar comentários animados dos visitantes interessados na ciência neurológica.

Mais conteúdo sobre:
Ciência Cérebro exposição

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.