Graham Walzer para The New York Times
Graham Walzer para The New York Times

Mostrando o lado difícil da vida dos fuzileiros navais

Ex-fuzileiro vira cartunista contando histórias sobre a vida de obstáculos da categoria

C. J. Chivers, The New York Times

27 Maio 2018 | 10h45

BURBANK, CALIFÓRNIA - Maximilian Uriarte, ilustrador responsável por “Terminal Lance", uma tira de quadrinhos que conta com seguidores fiéis entre os fuzileiros navais dos Estados Unidos, ligou o computador em seu apartamento. Era manhã de sexta feira, e ele tinha que publicar uma nova tira até a tarde.

A caixa de entrada de suas contas no Instagram e no Facebook tinham 82 vídeos amadores enviados por seus fãs durante a noite. Era a sua colheita matinal: vídeos de fuzileiros simulando lutas, cantando, dançando, dormindo, reclamando e fazendo gestos obscenos. Um deles tinha apanhado um rato vivo numa embalagem de mantimentos. Outro jogou uma bandeja de gosma escura no chão, pisoteando a refeição e disparando três palavrões impublicáveis. Outro incendiou um salgadinho e jogou a gororoba laranja e flamejante na boca. Uriarte estava satisfeito. As musas que o inspiram tinham se manifestado.

“Todas as minhas criações são orgânicas, caseiras, nada de modificação genética; são anedotas de baixa patente dos próprios soldados", disse ele.

Desde 2010, Uriarte fez mais de 800 tiras de quadrinhos da série “Terminal Lance”, além de uma graphic novel, “The White Donkey", cuja publicação ele mesmo produziu, que chegou à lista de best-sellers depois de ser adquirida pela Little Brown em 2016. A Little Brown lançou uma coleção, “Terminal Lance: Ultimate Omnibus", reunindo quase uma década da obra de Uriarte.

“Terminal Lance” é uma homenagem aos jovens recrutas cansados demais para seguir fingindo entusiasmo (o título da tira é referência a uma expressão usada para descrever o soldado de baixa patente - cabo, ou "lance corporal" - que jamais será promovido e, com isso, deixará os fuzileiros como um “cabo vitalício”).

Os soldados de Uriarte se mostram ansiosos, solitários e entediados. Cansados das frases de efeito e de serem constantemente alvo de abusos de todo tipo, seu refúgio é desenhar pênis nos banheiros portáteis espalhados pelas bases e entrepostos. Para eles, os capelães são sinistros, e os seguidores da carreira militar são tediosos. Eles se masturbam, enchem a cara, assistem pornografia e jogam videogame, e então chegam de ressaca para a patrulha.

“Acho que o sucesso de ‘Terminal Lance’ está no fato de não ser apenas crítico, mas sincero", disse Uriarte, que já foi um cabo vitalício.

Fuzileiros de alta patente costumam entrar em contato com Uriarte para se queixar de retratos pouco lisonjeiros, incluindo a bebedeira dos personagens dele. Alguns tentam acabar com suas fontes.

“Se o recruta que passa por tudo isso não puder rir dessas situações, ele pode enlouquecer", disse o general Robert Neller, comandante dos fuzileiros navais.

Uriarte desenha desde a infância e alistou-se nos fuzileiros navais em 2006 procurando um desafio e as ricas narrativas que ele esperava encontrar na vida de recruta.

“Acima de qualquer coisa, eu me considero um artista", disse ele. “Tudo isso serviu para informar minha arte, do estranho ponto de vista de um jovem de 19 anos.”

Depois de sair das Forças Armadas, ele passou a dar mais atenção aos problemas que afetam os fuzileiros: ciclos de mobilização que levam ao desespero, estresse pós-traumático e dificuldades de adaptação à vida como civil. Dois integrantes de sua antiga companhia de infantaria cometeram suicídio. Tudo isso informou “Terminal Lance".

Sua primeira mobilização de combate, em 2007, o levou ao posto de artilheiro na metralhadora de um transporte blindado, encarregado da escolta do comandante. Já na segunda mobilização, em 2009, ele tinha se convencido a aceitar o cargo de fotógrafo oficial.

No ano seguinte, restando poucos meses de atividade militar e sem nenhuma promoção no horizonte, Uriarte começou “Terminal Lance", publicando a tira com seu próprio nome. Ele tinha um celular, um site na internet e um tema: seus colegas fuzileiros, descontentes, que praticamente não tinham voz. Ele lhes deu uma plataforma.

"Essencialmente, eles criaram um monstro", disse ele a respeito dos fuzileiros. “Eu me pergunto se hoje eles se arrependeram de não terem me oferecido uma promoção."

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