Akasha Rabut para The New York Times
Akasha Rabut para The New York Times

Motocicletas, saltos altos e liberdade: a força feminina sobre duas rodas

Mulheres aderem ao prazer de pilotar uma máquina em alta velocidade

Alan Matingly, The New York Times

12 Agosto 2018 | 10h00

Quando as mulheres da Arábia Saudita finalmente assumiram seus lugares no volante em junho, o veículo escolhido por Doaa Bassem não foi tão conservador quanto o reino no qual ela vive.

Ela optou por andar de motocicleta, com amigas do clube local da Harley-Davidson.

“Sempre fui rebelde e gostei de coisas ditas ‘de menino'", disse Doaa ao Times. “Agora, outras estão pensando como eu."

O mesmo está ocorrendo com mulheres por toda parte que são sufocadas pelas normas culturais, ainda que não pela lei. Mulheres como Esperanza Miyake.

“Um dos aspectos mais incríveis de se andar de motocicleta é que, durante os preciosos momentos em que observamos o velocímetro ganhar vida e sentimos o vento no rosto, quando sentimos a atração da gravidade nos atraindo para o ponto de escape da curva, detalhes como o gênero deixam de importar", escreveu Esperanza no Times. “Estamos sozinhas com a máquina. Essa é a alegria da estrada. Isso é liberdade.”

Esperanza, que vive na Grã-Bretanha e é a autora de “The Gendered Motorcycle” [Motocicleta e seus gêneros], descreveu a emoção vivida por um motociclista: “O rosnar no motor cresce do ventre da máquina quando mexemos no acelerador; som e imagem se distorcem quando chegamos aos 110 quilômetros por hora; o tranco súbito enquanto você e sua motocicleta começam a acelerar, deixando o trânsito para trás".

Ainda que esses prazeres sejam comuns a ambos os gêneros, “as pessoas supõem constantemente que apenas os homens se interessam por esse tipo de coisa".

Ela diz que um dos motivos para isso é a relação entre homens e máquinas no imaginário do público.

As máquinas dos homens são industriais, militares, poderosas. As máquinas das mulheres ajudam nas tarefas domésticas. De acordo com essa mentalidade, escreveu ela, “para as mulheres, os carros ainda são extensões do lar, ferramentas para fazer compras ou buscar os filhos - tarefas para as quais a motocicleta não se presta muito".

Além disso, há uma associação entre motocicletas e agressão, rebeldia e gangues, e a cultura pop descreve as motociclistas como mulheres duronas que vestem couro.

Enquanto não houver mudanças, incluindo “mais imagens de mulheres vestindo roupas comuns", escreveu Esperanza, “o restante de nós terá que corrigir essas suposições, explicando que a moto não é do nosso namorado".

As roupas vestidas pelas integrantes do clube feminino Caramel Curves, de Nova Orleans, não são nada comuns, mas ninguém pensaria que suas motocicletas pertencem aos namorados delas. Conforme a cena descrita no Times: “Essas donzelas usam capacetes ornados com moicanos cor de rosa e macacões combinando, repletos de distintivos e lantejoulas reluzentes. Para completar o look, usam saltos altíssimos. Pilotam grandes Suzuki Hayabusas (que chamam de “busas”) e Gixxers, além de Can-Am Spyders, pintadas de rosa, com aros coloridos em diferentes combinações. E, quando fazem suas manobras, inclinadas numa só roda ou queimando a borracha no asfalto, os pneus cantando fazem subir uma névoa púrpura".

Uma integrante do grupo aprendeu a andar de moto quando fugiu certa vez com a motocicleta do namorado. Outra pegou emprestada a moto do pai. A vontade sentida por elas seria compreendida na Arábia Saudita. Rochelle Francis, também integrante das Curves, lembra da primeira vez em que andou na garupa do namorado, anos atrás.

“Lembro de dizer, 'não quero ir de passageira'", conta ela. “Queria pilotar.”

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